segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Quais são os verdadeiros escrúpulos e quais são nocivos - Santo Afonso Maria de Ligório

     O escrúpulo é um vão temor de pecar, nascido de falsas apreensões, sem fundamento razoável. Estes temores aliás costumam ser vantajosos no começo da conversão, porque uma alma que há pouco tempo saiu do pecado tem necessidade de purificarse mais vezes, e é o que operam nelas os escrúpulos. Eles a purificam, e ao mesmo tempo a tornam cuidadosa de fugir dos pecados verdadeiros. Além disso a tornam humilde, de modo que não se fie no próprio juízo e se submeta com docilidade à direção do padre espiritual, a fim de que a guie como entender. — S. Francisco de Sales dizia: “Este temor que produz escrúpulos nas almas que acabaram de sair das garras do pecado, é um presságio certo da sua futura pureza de consciência”.
     Pelo contrário, os escrúpulos são nocivos às pessoas que se aplicam à perfeição e há muito tempo se deram a Deus. Para estas almas dizia Sta. Teresa que os escrúpulos são veias de loucura, pois que as sujeitam à impressões extravagantes, que as reduzem a tal estado que não podem mais dar um passo no caminho da perfeição. — S. Francisco de Sales escreveu a mesma coisa: “Sede diligentes, mas guardai-vos das inquietações, porque não haverá coisa que mais vos impeça caminhar para a perfeição."

     Mas é preciso distinguir quais são as consciências escrupulosas. — Algumas pessoas se vangloriam de ser almas livres, e com medo de serem tidas por escrupulosas, se entregam a uma vida larga: dão liberdade aos olhos, à língua, aos ouvidos para verem, dizerem e virem tudo o que lhes agradar; envergonham-se de parecerem mortificadas e censuram as outras que o são; chamam afetações e singularidades ao falar baixo, o ter os olhos em terra; deixam-se arrastar facilmente pelas pessoas imperfeitas a fazer-lhes companhia nos vão divertimentos, que tomam. — Essas tais cessem de vangloriar-se de livres de consciência, porque são tíbias e imperfeitas, para não dizer relaxadas. Prouvera a Deus que fossem escrupulosas, isto é, delicadas de consciência como deveriam ser! Advirtam de não serem daqueles de que fala Davi, que seguem os maus exemplos como ovelhas, para que não se achem um dia miseravelmente precipitadas no inferno com as outras.
     Os sinais de uma alma escrupulosa são estes:
      1. Temer, nas confissões, não ter nunca a verdadeira contrição nem o bom propósito.
      2. Temer, por motivos frívolos e sem fundamento, pecar em todas as coisas, como por exemplo, fazer sempre juízos temerários, ou consentir em todo o mau pensamento que se apresenta ao espírito.       3. Ser inconstante nas suas dúvidas, crendo ora que uma ação é permitida, ora que o não é, com grandes apreensões e grandes inquietações.
      4. Não se tranqüilizar com o conselho do confessor etc
     De resto, compete aos confessores, e não aos penitentes, decidir se uma pessoa é ou não escrupulosa. Todos os escrupulosos pretendem que seus escrúpulos são verdadeiras dúvidas ou pecados, e não escrúpulos; porque se os reconhecessem como tais, eles próprios os desprezariam. Como se acham na obscuridade, não vêem como as coisas estão na sua consciência; mas o confessor, que está fora, vê bem o que existe. O penitente deve pois submeter-se ao seu conselho; do contrário, se quiser por si decidir, quanto mais se esforçar para aquiescer ao próprio juízo, tanto mais se perturbará e se confundirá, e se porá talvez em perigo de se perder, como adiante vamos expor.
       Para as almas que tendem à perfeição, é ordinariamente o demônio que as enche de escrúpulos e de inquietações, afim de que, para se livrarem deles, acabem por deixar o bom caminho, ou venham até entregar-se ao desespero e à morte voluntária. Ai! quantas infelizmente tem chegado a este desatino! — Um douto autor moderno, o padre Scaramelli, conta ter conhecidos duas pessoas escrupulosas, das quais uma se deu muitos golpes no peito com uma faca, e a outra se matou por meio de uma arma de fogo. — Eu mesmo sei de uma pessoa que, por semelhantes angústias da consciência, uma vez se atirou por uma janela, mas não morreu; e outra vez já ia se atirar num poço quando foi detida pela pessoa que a vigiava. Contam-se muitos outros casos de escrupulosos que se suicidaram.



Santo Afonso Maria de Ligório - A Verdadeira Esposa de Cristo, II.

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