quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Quem é Bento XVI?





O “Teólogo” Ratzinger

A discrição e a tenacidade do Papa Montini asseguraram à “nova teologia” incontestável supremacia no mundo católico. O triunfo da “nova teologia”, entretanto, não marcou o triunfo da Fé católica. Ao contrário, “nunca uma encíclica pontifical, com apenas quinze anos, foi desobedecida em tão pouco tempo e tão completamente por aqueles que precisamente ela condenava como a Humani Generis (1950)”, escreveu o teólogo alemão Dörmann sobre o Concílio[1]. O quadro da situação atual foi traçado pelo jesuíta Henrici, “novo teólogo”:

“Enquanto as cadeiras teológicas são ocupadas pelos colegas da Concilium (ala avançada do modernismo), quase todos os teólogos nomeados bispos nestes últimos anos provêm dos grupos da Communio (ala moderada do mesmo modernismo)... Balthasar, De Lubac e Ratzinger, os fundadores [da Communio], todos se tornaram cardeais.”[2]

Nas universidades eclesiásticas, incluídas as pontificais, estudam-se os padres fundadores da “nova teologia” e fazem-se teses de doutorado sobre Blondel, De Lubac, von Balthasar. O Osservatore Romano, a Civilta Catholica exaltam-lhes a figura e seus “pensamentos”, e a imprensa se alinha: ad instar Principis, totus componitur orbis. Um “novo teólogo” preside diretamente a Congregação para a Doutrina da Fé, que foi outrora a suprema Congregação do Santo Ofício: o cardeal Joseph Ratzinger.

Por comodidade de exposição, e somente por isso, vamos distinguir nele o “teólogo” do Prefeito. De fato, no caso que nos interessa, tal distinção é válida. Não estamos, com efeito, numa matéria discutível, mas no domínio da Fé. Por outro lado, um Prefeito da Congregação da Fé sem Fé é um contra-senso, e o prefeito Ratzinger está em perfeito acordo com o “teólogo” Ratzinger.

O livro do “teólogo” Ratzinger Einführung in das Christentum (Introdução ao Cristianismo) é apresentado como sua obra fundamental. Eis como é descrito em seu “Rapporto sulla Fede” com Vittorio Messori[3]:

“Um tipo de clássico continuamente reeditado, no qual se formou uma geração de clérigos e de leigos, atraídos por um pensamento absolutamente ‘católico’ e ao mesmo tempo absolutamente aberto ao novo clima do Vaticano II.”

Ficamos, por necessidade, somente em algumas considerações fundamentais, suficientes, entretanto, para se fazer uma idéia exata da “teologia” do atual Prefeito da Congregação para a Fé.




Um Problema Muito Grave

É verdade divina e católica, isto é, fundada na autoridade de Deus, a qual no-la revelou (Tradição e Santa Escritura), e também na autoridade do Magistério infalível da Igreja, que, em Jesus, Deus se fez homem e é precisamente a segunda Pessoa da Santíssima Trindade, e que por isso, em Cristo, duas naturezas existem (a humana e a divina), unidas na única Pessoa divina (união hipostática). Aquele que quer permanecer católico e salvar-se deve professar esta verdade fundamental revelada, que a Igreja sempre e em todos os lugares propôs fosse acreditada e que ela defendeu contra a heresia (Concílio de Éfeso, Concílio de Calcedônia e V Concílio de Constantinopla). Por conseguinte, que dizer quando somos obrigados a constatar que o atual Prefeito da Congregação da Fé, ao contrário, declara em seus livros de teologia que em Jesus não foi Deus que se fez homem, mas sim um homem que se tornou Deus? Quem é de fato Jesus Cristo para Ratzinger? É esse “homem em que se manifesta a realidade definitiva de ser do homem, e que nisto mesmo é simultaneamente Deus”. Que significa isto, senão que o homem na sua “realidade definitiva” é Deus, e que Cristo é um homem que é, ou melhor, se tornou Deus, pelo único fato de que n’Ele veio à luz a “realidade definitiva de ser do homem”[4]?


Deus é Homem, e o Homem é Deus

O problema é, aliás, posto claramente e resolvido afirmativamente pelo próprio Ratzinger, que pergunta:

“Temos nós, então, ainda o direito de assimilar a cristologia (estudo sobre Cristo) na teologia (estudo sobre Deus)? Não devemos antes reivindicar Jesus passionalmente como homem, e fazer da cristologia um humanismo, uma antropologia? Ou então o homem autêntico, pelo fato mesmo de que é inteiramente e autenticamente homem, seria ele Deus, e seria Deus precisamente um homem autêntico? Será possível que o humanismo mais radical e a fé no Deus da revelação se encontrem aqui até se confundirem?”[5]

A resposta, continua Ratzinger, é que a luta desenvolvida nos cinco primeiros séculos da Igreja em torno dessas questões “chegou, nos concílios ecumênicos da época, a uma resposta afirmativa [sic] às três questões”[6]. Isso inclui, então, a tese central, que, sem trair o pensamento do autor, podemos transcrever assim: o homem autêntico, justamente pelo fato de ser integralmente tal, é Deus, e, em conseqüência, Deus é um homem autêntico.


Uma “Cristologia” Coerente na Heresia

Toda a cristologia de Ratzinger se desenvolve de modo coerente em torno dessa tese fundamental, e seria muito difícil dar uma explicação diferente às afirmações que na sua obra Introdução ao Cristianismo se seguem em ritmo firme, entre as quais citamos as seguintes, para honestidade de nossa documentação. “O cerne dessa cristologia joânica do Filho” seria o seguinte:

“O fato de ser servidor já não é apresentado como uma ação, atrás da qual a pessoa de Jesus ficaria confinada nela mesma; ele penetra toda a existência de Jesus, de tal modo que seu próprio ser é serviço. E, precisamente porque este ser todo inteiro é só serviço, é ser filial. Nesse sentido, é aqui somente que a mudança de valores operada pelo cristianismo chegou a seu fim; somente aqui se torna plenamente claro que aquele que se põe inteiramente ao serviço dos outros, que se engaja no desinteresse total e na entrega de si, que se torna formalmente desinteressado e despojado, este é o homem verdadeiro, o homem do futuro, onde homem e Deus se encontram.”[7]

“O ser Jesus é pura atualidade das relações ‘a partir de’ e ‘para’. E, pelo simples fato de que esse ser já não é separável de sua atualidade, ele coincide com Deus; ele se torna, ao mesmo tempo, o homem exemplar, o homem do futuro, através do qual se pode perceber quão pouco o homem começou a ser ele mesmo [quer dizer, Deus].”[8]

Foi a “comunidade cristã primitiva” que aplicou a Jesus pela primeira vez o Salmo 2: “Tu és meu Filho, hoje eu te engendrei. Pede e te darei as nações por herança.” Esta aplicação — diz Ratzinger — pretendia explicar apenas a convicção de que “aquele que estabeleceu o sentido da existência humana, não no poder a se auto-afirmar, mas numa existência radicalmente para os outros, e que era esta existência para os outros, como prova a Cruz, foi só a Este que Deus disse:

‘Tu és meu Filho, hoje eu te engendrei’”[9]; e Ratzinger explica: “Tu és meu Filho, hoje — isto é, nessa situação [na Cruz] — eu te engendrei”, e conclui: “A noção de filho de Deus [...] através da explicação da ressurreição e da cruz, pelo salmo 2, entrou desse modo e dessa forma na confissão de fé em Jesus de Nazaré.”[10]

É o bastante, por enquanto.

A Reviravolta

Para Ratzinger, pois, Jesus não é Deus porque Filho natural de Deus, nascido do Pai antes de todos os séculos, “gerado, não criado, consubstancial ao Pai”, porque sua Pessoa divide ab aeterno a infinita natureza divina e assim possui as perfeições infinitas, mas é um homem que “veio para coincidir com Deus” quando na cruz ele encarnou o “ser pelos outros”, o “altruísta por antonomásia”. Ele se distingue, então, de nós e dos outros homens somente pelo grau de desenvolvimento humano atingido e não pelo abismo que separa Deus do homem, o Criador da criatura. A cristologia da Igreja é rejeitada por Ratzinger como “uma cristologia triunfalista,que não sabe o que fazer do homem crucificado e do servidor [sic], para inventar de novo, em seu lugar, um mito de Deus ontológico”[11].

À “cristologia triunfalista” que cria um “mito de Deus ontológico”, Ratzinger opõe sua “cristologia de serviço”, que afirma encontrar em São João, e pela qual “Filho” significaria unicamente “servidor perfeito”.

Em compensação, o homem Jesus, que, por seu serviço perfeito, veio para “coincidir com Deus”, revela ao homem que o homem é um Deus “em formação”, e que entre o homem e Deus há uma identidade essencial. E traindo também Dante, Ratzinger nos diz que “isso faz pensar no final comovente da Divina Comédia, de Dante, onde na contemplação do mistério de Deus o poeta, no meio desse ‘todo poder do Amor que move em harmonia o sol e os astros’, percebe com espanto bem-aventurado uma imagem à sua semelhança, um rosto de homem”[12].

A Confirmação sem Equívoco

Este pensamento de Ratzinger é confirmado sem equívoco pela concepção de Cristo como “último homem”[13]. Aqui Ratzinger força a interpretação de outra passagem da Sagrada Escritura (precisamente de São Paulo), descuidando de que a exegese católica deve guardar o sentido que sempre manteve nossa Santa Madre Igreja nas passagens que tocam o dogma:

“E que diferença de perspectiva, por outro lado, quando se retoma a idéia paulina segundo a qual Cristo é o ‘último homem’ (I Cor. 15, 45), o homem definitivo, que introduz o homem no seu futuro, um futuro que consiste em não ser simplesmente homem, mas em ser um com Deus.”[14]

Logo após, sob o título “O Cristo, ‘o último homem’”, ele prossegue:

“Chegamos ao ponto onde podemos tentar resumir a significação da confissão de fé: eu creio em Cristo Jesus, o Filho único de Deus nosso Senhor. Depois de todas as nossas reflexões, deveríamos poder afirmar de início o seguinte: a fé cristã reconhece em Jesus de Nazaré o homem exemplar — esta é, parece-me, a melhor maneira de entender o conceito paulino do ‘último Adão’ evocado acima [que, ao contrário, significa somente o ‘segundo Adão’, chefe da humanidade resgatada em oposição ao ‘primeiro Adão’]. Mas é precisamente como homem exemplar, como homem tipo, que ele transcende o limite do humano. É somente por isso que ele é o homem realmente exemplar.”[15]

E o motivo seria o seguinte:

“É a abertura ao Todo, ao Infinito, que faz o homem. O homem é homem pelo fato de que tende infinitamente para além de si mesmo; ele será, por conseqüência, tanto mais homem quanto menos voltado para si mesmo, menos ‘limitado’ [beschränkt]. Mas então — repetimos — será o mais homem, o homem verdadeiro, o que for mais ilimitado [ent-schränkt], o que não somente entrar em contato com o infinito [Infinito] mas for um com ele: Jesus Cristo. Nele, o processo de hominização chegou verdadeiramente a seu termo.”[16]

O “Mérito” de Teilhard

E, a fim de dissipar toda e qualquer dúvida tanto acerca de seus pensamentos quanto acerca das “fontes” de sua “teologia”, Ratzinger chama o mais triste e ousado dos “novos teólogos”, Teilhard de Chardin, o jesuíta “apóstata” (R. Valnève):

“É um grande mérito de Teilhard de Chardin ter repensado essas relações a partir da imagem atual do mundo, [...] tê-las de novo tornado acessíveis.”[17]

Seguem-se numerosas citações das obras de Teilhard. Bastará para nós mostrar a última, que é também a conclusão:

“o desvio cósmico põe-se ‘na direção de um inacreditável estado quase mononuclear [...] onde cada ego é destinado a atingir seu paroxismo em algum misterioso superego’. É verdade que o homem, enquanto ego, representa um fim, mas a direção do movimento do ser, de sua própria existência, o revela como um organismo destinado a um superego que não o dissolve, mas sim o engloba: somente essa integração poderá fazer aparecer a forma do homem vindouro, na qual o homem terá atingido plenamente o fim e o cume de seu ser [a perfeita “humanização”, impropriamente chamada divinização ou sobrenatural].”[18]

E este delírio monístico-panteísta seria para Ratzinger o conteúdo da... cristologia de São Paulo!

“Percebe-se certamente que essa síntese, elaborada a partir da visão atual do mundo, com um vocabulário às vezes sem dúvida demasiado biológico, é entretanto fiel à cristologia paulina, cuja orientação profunda é bem percebida e levada a uma nova inteligibilidade: a fé vê em Jesus o homem em que se realizou — para retomar o esquema biológico — a mutação seguinte do processo de evolução... A partir daí, a fé verá em Cristo o começo de um movimento que faz entrar cada vez mais a humanidade dividida no ser de um único Adão, de um único ‘corpo’, no ser do homem do futuro. Ela verá em Cristo o movimento para esse futuro do homem, no qual este é totalmente ‘socializado’, incorporado ao Único.”[19]

Estamos na perfeita reviravolta da Fé católica: não é Deus que se fez homem, mas o homem que se manifestou Deus em Jesus Cristo.


As “Fontes”

Como Ratzinger chegou a essa reviravolta? O cardeal Siri explica-nos em Gethsémani — Réflexions sur le mouvement théologique contemporain. O “monismo cósmico” ou “antropocentrismo fundamental” em que Ratzinger dissolve a teologia é o termo obrigatório do erro de De Lubac acerca do “sobrenatural” implicado no natural, onde o “sobrenatural” vem necessariamente coincidir com o desenvolvimento máximo da natureza humana. Escreve De Lubac:

“Revelando o Pai e sendo revelado por Ele, [Cristo] acabou por revelar o homem a si mesmo [...]. Por Cristo a pessoa é adulta, o homem emerge definitivamente do Universo”.[20]

É exatamente a “cristologia” de Ratzinger em germe. O próprio cardeal Siri pergunta:

“Qual pode ser o sentido dessa afirmação? Cristo é somente homem, ou o homem é divino?”[21]Acrescentemos que o “sobrenatural” que se explica pelo natural está também no centro da “nova filosofia” de Blondel, que explica o “consortium divinae naturae”, a participação do homem na natureza divina, como uma “restituição, por assim dizer, de Deus a Deus, em nós”[22].

O erro de De Lubac (e de Blondel) — demonstra Siri — amadureceu, posteriormente, em K. Rahner, S.J., que pergunta:

“Pode-se ver a união hipostática na linha desse aperfeiçoamento absoluto do que é o homem?”[23]

A resposta positiva, antes que se achar em Ratzinger, está no próprio Rahner, que “altera radicalmente o pensamento e a fé da Igreja a propósito do mistério da Encarnação do Verbo de Deus em Jesus Cristo tal como é relatado no Evangelho e pela Tradição”.[24]

E Ratzinger altera também o pensamento e a fé da Igreja exatamente no mesmo sentido que faz Rahner. Ratzinger, aliás, foi e fica sendo, apesar de alguns distanciamentos secundários, substancialmente o discípulo de Rahner (foi até seu fiel colaborador durante o Concílio[25]).

“Em Rahner”, escreve Siri, “aparece claramente uma antropologia fundamental que não somente concorda com o pensamento do Pe. De Lubac mas o excede, de modo que transforme, na consciência dos adeptos da nova teologia, artigos de fé, como por exemplo o da Encarnação e o da Imaculada Conceição.”[26] E ainda:

“Quando se age, quando se pensa e quando se fala de modo que se enunciem postulados como o da identidade da essência de Deus e do homem [é justamente o postulado da ‘cristologia’ de Ratzinger], que desmorona a doutrina proveniente da revelação, não se segue um caminho de verdade, mas sim de erro [ou mais exatamente de heresia] [...]. Eis o ponto aonde se chegou, partindo de um conceito [errado] concernente a um grande mistério, como o mistério do sobrenatural, artificialmente apresentado [por De Lubac e companhia] como fazendo parte da doutrina da Igreja... Um por um, todos os princípios, todos os critérios e todos os fundamentos da fé foram postos em questão e se quebram.”[27]

“No Caminho da Fantasia, do Erro e da Heresia”, o Retorno ao Modernismo

O cardeal Siri faz eco ao padre Garrigou-Lagrange O.P., que já em 1946 tinha assim resumido a “cristologia” da “nova teologia”:

“Assim o mundo material teria evoluído para o espírito, e o mundo do espírito evoluiria naturalmente, por assim dizer, para a ordem sobrenatural e para a plenitude do Cristo. Assim, a Encarnação do Verbo, o Corpo místico, o Cristo universal, seriam momentos da Evolução... Eis o que resta dos dogmas cristãos, nessa teoria que se afasta de nosso Credo na mesma medida em que se aproxima do evolucionismo hegeliano.”[28]

E o grande teólogo dominicano lançou seu grito de alarme:

“Para onde vai a ‘nova teologia’? Ela volta ao modernismo pela via da fantasia, do erro, da heresia.”[29]

Ratzinger sustenta, repetindo assim o velho jogo de seus “mestres”, que esse delírio monístico-panteísta, além de na “cristologia paulina” (interpretada por Teilhard), se encontraria nas “mais antigas profissões de fé” e no Evangelho de São João, e nos tornaria “claro” o verdadeiro “sentido” dos dogmas de Éfeso e de Calcedônia. Esta afirmação, entretanto, além de ser insustentável, constitui por si mesma outra gravíssima heresia. Se assim fosse, de fato, deveríamos dizer que a Igreja, infalível pela promessa divina, já desde os primeiros séculos (e até à “nova teologia”)... perdeu a memória, esquecendo o sentido da doutrina de São Paulo, do Evangelho de São João, das mais antigas profissões de fé e dos dogmas cristológicos e da própria Revelação divina!

A triste realidade é bem outra: Ratzinger retoma, muitas vezes literalmente, como demonstramos, os “mestres” da “nova teologia” e com eles, trocando a “filosofia do ser” pela filosofia do “devir”, repudiando a Tradição e o Magistério, marcha “tranqüilamente” (para utilizar um termo de que ele gosta) “no caminho da fantasia, do erro e da heresia”, voltando ao modernismo, que “no Cristo não reconhece nada além de um homem”, ainda que fosse ele “de natureza muito elevada, como nenhum outro parecido foi ou será”, e que, por outro lado, no homem vê um Deus, porque, se o “princípio da fé é imanente no homem... esse princípio é Deus”, e então “Deus é imanente no homem”. Para alguns modernistas o sentido panteísta “é o mais coerente com o resto de suas doutrinas”[30].

Por necessidade (temos somente um artigo para opor a um livro cheio de “fantasias”, de “erros” e de “heresias”), limitamos nossa atenção à “cristologia” de Ratzinger. O leitor, entretanto, pode bem compreender que, sendo alterado este ponto fundamental da cristologia, todo o resto será contaminado: a soteriologia (doutrina da salvação), a “satisfação vicária” (por intermédio de Cristo), seria somente uma invenção medieval de Santo Anselmo de Óstia!; algo semelhante se daria com mariologia (a concepção virginal fica nas nuvens, e, para serem coerentes, da maternidade divina nem se fala) e com todos os artigos do Credo que Ratzinger cita em sua obra Introdução ao Cristianismo, que se deveria intitular mais corretamente Introdução à Apostasia.


O Prefeito

Será que o prefeito Ratzinger desmentiu o teólogo Ratzinger? Pelo contrário, suas obras “teológicas” continuam a ser reimpressas sem mudanças (a versão italiana, Introduzione al Cristianesimo, está na oitava edição); o prefeito Ratzinger nunca pensou em corrigir ou retirar coisa alguma. Sobre essas obras “teológicas” poderão continuar a se formar outras “gerações de clérigos”, que ignorarão a teologia católica e deformarão as verdades mais elementares da fé católica.

O prefeito Ratzinger faz ainda mais: mantém sob seu patrocínio, nela colaborando, a revista Communio, órgão de imprensa “dos que pensam que venceram”, que ele fundou com De Lubac e von Balthasar. Em 28 de maio de 1992, Ratzinger, fortalecido por seu prestígio de Prefeito pela Fé, podia celebrar o vigésimo aniversário da Communio diretamente em Roma, no grande anfiteatro da Gregoriana, diante de uma platéia cheia de cardeais e de professores das faculdades teológicas romanas. A Communio, impressas em diversas línguas e com o patrocínio do Prefeito da Congregação para a Fé, indica oficiosamente, mas claramente, ao clero dos diversos países a linha aceita por Roma: a de Blondel, de De Lubac, de von Balthasar, a “via do erro, da fantasia, da heresia” (30 Jours de dezembro de 1991 chama-a “teia de aranha”, sem dar contudo o exato sentido da fórmula).

O “Jogo dos Partidos”


Será então por acaso que os colaboradores da Communio ocupem sucessivamente as sedes episcopais que se tornam vacantes? Il Sabato (6 de junho de 1992), num artigo que celebrava o vigésimo aniversário da Communio, escrevia:

“Vinte anos se passaram, a Communio venceu, ao menos no que concerne à batalha pela hegemonia eclesiástica. Aos três teológos ‘dissidentes’ [Ratzinger, De Lubac, von Balthasar], que nessa noite, via Aurelia, levaram a idéia à pia batismal, a Igreja concedeu a mais prestigiosa recompensa: o chapéu cardinalício. Mas houve glória para todos. Os mais eméritos colaboradores da Communio foram promovidos a bispos! Os alemães Karl Lehmann e Walter Kasper, o italiano Angelo Scola, o suíço Eugênio Corecco, o austríaco Cristoph von Schönborn, o belga André Jean Léonard, o brasileiro Karl Romer. Uma tropa de bispos-teólogos cuja influência vai muito além de suas jurisdições diocesanas. Um verdadeiro think tank [tanque de pensamentos] da Igreja de Karol Wojtyla. Não é por acaso que “as cadeiras teológicas são dominadas pelos colegas de Concilium”[31].

Não é o prefeito Ratzinger que os deixa tranqüilos e impunes? E tudo isso não corresponde perfeitamente ao conceito modernista da autoridade, denunciado por São Pio X na Pascendi, e que nós colhemos dos lábios de Mons. Montini em seu encontro com Jean Guitton?[32] Para os modernistas — explica São Pio X — a evolução doutrinal da Igreja “é como o resultado de duas forças que se combatem, uma progressista e a outra conservadora”, e o exercício da força conservadora “é próprio da autoridade da Igreja”, cabendo pois à força progressista estimular a evolução. É lógico, segundo a lógica modernista, que os ultraprogressistas da Concilium e os “moderados” da Communio dividam as tarefas: aos colaboradores da Concilium, como “força progressista”, as Universidades, o domínio da pesquisa teológica; à autoridade religiosa, a “hegemonia eclesiástica”. Nenhuma ilusão, então: atualmente já não há luta alguma entre “católicos liberais” e “católicos conservadores”; os “conservadores”, isto é, os católicos mesmos, foram eliminados do quadro eclesiástico oficial; a luta é entre modernistas que tiram até o fim as conclusões de seus princípios errados e modernistas “moderados”; não se trata de verdadeira luta, mas sim de escaramuça ou, mais exatamente, de “jogo de partidos”.

Roma Ocupada pelos “Novos Teólogos”



Como elemento motor do trem da “nova teologia”, o prefeito Ratzinger encheu Roma de “novos teólogos”e em particular a Congregação para a Fé e as Comissões que ele preside. E é assim que, para “promover a sã doutrina”, na prefeitura do cardeal Ratzinger encontramos, entre outros, um bispo Lehmann, que nega a Ressurreição corporal de Jesus[33] (mas, para Ratzinger também, Jesus é “aquele que morreu na cruz e que aos olhos da fé [sic] ressuscitou”[34]); um Georges Cottier O.P., “grande experto” em maçonaria e “participante do diálogo entre a Igreja e as lojas”; um Albert Vanhoye S.J., para quem “Jesus não era padre” (mas Ele não o é também para Ratzinger, nem para o “mestre” Rahner); um Marcel Bordoni, para quem ficar ancorado no dogma cristológico de Calcedônia é um intolerável “fixismo” (mas isto também o é para Ratzinger).

É assim que na Comissão Bíblica Pontifical, ressuscitada de sua longa letargia e da qual o prefeito Ratzinger é Presidente ex officio, se sucederam como Secretário um Henri Cazelles, sulpiciano, pioneiro da exegese neomodernista, cuja l’Introduction à la Bible foi, a seu tempo, objeto de censura por parte da Congregação Romana para os Seminários[35], e depois Albert Vanhoye S.J., já citado. Entre os membros encontramos um Gianfranco Ravasi, que se bate publicamente com a Sagrada Escritura e com a Fé, e um Giuseppe Segalla, que nega a João seu Evangelho e divulga o mais acentuado criticismo[36].

É assim que na Comissão Teológica Internacional, de que Ratzinger é o presidente e onde os membros são escolhidos sob sua proposta, figuram, entre outros, o bispo Walter Kasper, para quem esses textos evangélicos “onde se fala de um Ressuscitado que se toca com as mãos e que come com seus discípulos” são “afirmações grosseiras... que trazem o perigo de justificar uma fé pascal demasiado ‘cor-de-rosa’” (mas Ratzinger também não gosta de uma “representação pesadamente terrestre da ressurreição”[37]); o bispo Christoph Schönborn O.P., secretário redacional do novo “catecismo” e que, no primeiro aniversário da morte de von Balthasar, celebrou-lhe a super-Igreja ecumênica, a “católica” não-católica, na igreja de Santa Maria em Basiléia[38]; o bispo André Jean Léonard, hegeliano... bispo de Nemur, responsável pelo Seminário São Paulo para onde Lustiger envia seus seminaristas. Tudo em família![39] etc. etc.

Com (e sem) Discrição

Que dizer, em seguida, dos meios mais “discretos”, mas não menos eficazes, pelos quais o prefeito Ratzinger faz a promoção da “nova teologia”? Walter Kasper foi nomeado bispo de Rottenburg, Stuttgart. Seu “velho colega” Ratzinger lhe escreve:

“Para a Igreja católica, num período turbulento, você é um dom precioso.”[40] Urs von Balthasar morre na véspera de receber a merecida “distinção honorífica do cardinalato”.

O prefeito Ratzinger pessoalmente pronuncia a oração fúnebre no cemitério de Lucerne, mostrando no defunto um teólogo “probatus”. “O que o Papa queria exprimir por este gesto de reconhecimento”, diz Ratzinger, “ou mesmo de honra, permanece válido: já não são somente particulares, pessoas privadas, mas a Igreja na sua responsabilidade ministerial oficial [sic] que nos diz que é preciso um autêntico mestre de fé, um guia seguro para as fontes de água viva, uma testemunha da Palavra, pela qual nós podemos ensinar Cristo, ensinar a vida.”[41]

O prefeito Ratzinger, além disso, é o cabeça do grupo que patrocina a abertura em Roma de um “centro de formação para candidatos à vida consagrada”, formação “inspirada pela vida e pelas obras de Henri de Lubac, Hans Urs von Balthasar e Adrienne von Speyr”[42].

Enfim, para conter nosso assunto nos limites do necessário, o prefeito Ratzinger apresentou à imprensa a “Instrução sobre a Vocação Eclesial do Teólogo, sublinhando que esse documento “afirma — talvez pela primeira vez com essa clareza — que há decisões do magistério que não podem ser uma palavra definitiva sobre o assunto enquanto tal, mas são uma âncora substancial no problema e antes de tudo também uma expressão de prudência pastoral, uma espécie de disposição provisória”[43]. E Ratzinger forneceu alguns exemplos de “disposições provisórias” hoje “ultrapassadas nas particularidades de suas determinações”: 1) as “declarações dos Papas do último século sobre a liberdade religiosa”; 2) as “decisões antimodernistas do início deste século”; 3) as “decisões da Comissão Bíblica da época”.Resumindo: os três patamares opostos pelos Pontífices Romanos ao modernismo nos domínios do social, do doutrinal e do exegético.

Será necessário acrescentar outra coisa para demonstrar que o prefeito Ratzinger está em perfeito acordo com o “teólogo” Ratzinger? Sim, devemos acrescentar que Elio Guerriero, redator-chefe da Communio (edição italiana), está perfeitamente de acordo conosco quanto a este ponto. Ilustrando o vitorioso avanço da “nova teologia na revista Jésus de abril de 1992, ele escrevia: “Sempre em Roma é preciso assinalar o trabalho cumprido por Joseph Ratzinger tanto como teólogo quanto como prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé.” Assim, do “restaurador” Ratzinger só resta o mito.

O Mito do “Restaurador”


Não é difícil entender como este mito pôde nascer. No prefácio de Introduzione al Cristianesimo[44], por exemplo, Ratzinger escreve:

"O problema de conhecer exatamente o conteúdo e a significação da fé cristã é hoje cercado por um nebuloso halo de incerteza, denso e espesso como talvez nunca tenha sido antes na história.” E isto porque “aqueles que seguiram ao menos um pouco o movimento teológico no último decênio e que não pertencem ao rebanho dos desmiolados que consideram as novidades sempre e sistematicamente como automaticamente o melhor” se preocupam em saber se “nossa teologia [...] não seguiu talvez o caminho de uma interpretação gradualmente redutora da reivindicação de nossa fé, que parecia demasiado opressiva, simplesmente porque nada de importante parecia perder-se com isso, mas, mesmo que muitas coisas ficassem ainda, que se pudesse logo depois ousar dar outro passo adiante [...]”[45].

Que católico, que ame a Igreja e sofra com a crise atual, não subscreveria afirmações parecidas? Já há nesse Prefácio, deixado intacto desde 1968, o que basta para criar em volta de Ratzinger o mito de “restaurador”. Mas o que opõe Ratzinger à demolição progressiva da Fé perpetrada pela teologia contemporânea? Opõe a absolvição geral dessa mesma teologia, da qual — declara — “não se pode afirmar [...] honestamente que [...], tomada no seu conjunto, ela tenha desembocado em tal direção”. E sobretudo opõe como corretivo a mesma negação da Tradição e do magistério pela qual a teologia dos últimos decênios chegou a envolver “o conteúdo e a significação da fé cristã” num “nebuloso halo de incerteza [...] espesso e denso como talvez jamais tivesse sucedido antes na história”. À tendência criticada, sempre mais redutível, dessa teologia, de fato, segundo Ratzinger, “não se poderá seguramente remediar por uma obstinação em ficar atado somente ao metal nobre das fórmulas fixas em vigor no passado, que permanece no fim [não as declarações solenes do Magistério, mas] simplesmente sempre uma pilha de metal: um ponto que sobrecarrega em vez de facilitar, em virtude de seu valor, a possibilidade de atingir a verdadeira liberdade, que vem assim perder sub-repticiamente o lugar da verdade”[46].

Que em seguida esse preâmbulo conduza, também “certamente”, ao ponto aonde chegou a “teologia” contemporânea parece escapar a Ratzinger. E, no entanto, seu livro inteiro está aí para demonstrá-lo. Já São Pio X notava que todos os modernistas eram incapazes de tirar, de suas premissas erradas, as conclusões verdadeiramente inevitáveis[47].

Ratzinger é sempre assim: aos excessos, de que guarda distância, ele não opõe jamais a verdade católica, mas um erro aparentemente mais moderado, o qual, porém, na lógica do erro, conduz às mesmas conclusões ruinosas.

Ratzinger qualifica-se a si próprio, no Rapporto sulla Fede, de “progressista equilibrado”. Defende uma “evolução tranqüila da doutrina” sem “arrancadas solitárias avante”, mas também “sem nostalgia por um ontem irremediavelmente passado”, isto é, pela Fé católica deixada tranqüilamente para atrás[48]. Se não gosta do progressismo de ponta, Ratzinger não gosta também da Tradição católica:

É só ao hoje da Igreja que devemos ficar fiéis, não ao ontem nem ao amanhã”.[49]

É por isso que o católico, que tem fé e ama a Igreja, poderá subscrever algumas afirmações críticas de Ratzinger (e também de De Lubac e de von Balthasar no fim de sua vida); mas, se examina o que o pretenso “restaurador” propõe em substituição aos “abusos” deplorados, não pode aprovar uma linha. E isto porque a inclinação é sempre a mesma e, ainda que mais lenta, conduz ao mesmo repúdio total da Revelação divina, isto é, à apostasia. As obras do “teólogo” Ratzinger estão aí para demonstrá-lo de maneira incontestável.




[1] L’Étrange théologie de Jean Paul II et l’esprit d’Assise, Edições Fideliter. 
[2] 30 Jours de dezembro de 1991. 
[3] Edizione Paoline, p. 14. 
[4] Introduction au Christianisme, ed. Mame e Cerf, 1985, p. 126. 
[5] P. 140. Grifo do original. 
[6] P. 140. Grifo do original. 
[7] P. 152. Grifo do original. 
[8] P. 153. Grifo nosso. 
[9] P. 146. 
[10] P. 147. 
[11] P. 152. 
[12] Pp. 125-126. 
[13] Dada a partir da p. 158. 
[14] P. 158. 
[15] P. 158. Grifo nosso. 
[16] P. 159. Grifo nosso. 
[17] P. 160. 
[18] P. 162. 
[19] Pp. 162-163. Grifo nosso. 
[20] H. de Lubac, Catholicisme, ed. du Cerf, Paris, 1928, 4a. ed., 1947, pp. 295-96. 
[21] Gethsémani..., p. 60. 
[22] Carta a De Lubac, 5 de abril de 1932. 
[23] K. Rahner, Nature et Grâce, p. 79, citado em Gethsémani. 
[24] Gethsémani, p. 85. 
[25] Ver R. Wiltgen, Le Rhin se jette dans le Tibre. [Este livro será lançado proximamente pela Editora Permanência. (N. do E.)] 
[26] Op. cit., p. 78. 
[27] Op. cit., pp. 74 ss e 82. 
[28] “La nouvelle théologie, où va-t-elle?”. 
[29] Idem. 
[30] São Pio X, Pascendi. 
[31] 30 Jours de dezembro de 1991. 
[32] Ver Sì Sì No No, ed. francesa, nº 148, de jul.-ago. de 1993. 
[33] Ver Sim Sim Não Não, nº 10, de outubro de 1993, p. 5. 
[34] P. 146. 
[35] Ver Sì Sì No No, ed. francesa, nº 105, de jul.-ago. de 1989. 
[36] Ver Sì Sì No No, ed. italiana, ano IV, nº 11, p. 2. 
[37] Introdução ao Cristianismo, p. 219. 
[38] Ver H. U. von Balthasar, Figura e opera, ed..Piemme, pp. 431 ss. 
[39] 30 Jours de dezembro de 1991, p. 67. 
[40] 30 Jours de maio de 1989. 
[41] Citado de Lehmann e Kasper, H. U. von Balthasar, Figura e opera, ed.Piemme, pp. 457 ss. 
[42] 30 Jours de ago.-set. de 1990. 
[43] Osservatore Romano de 27 de junho de 1990, p. 6. 
[44] Ed. italiana de 1968 da obra de Ratzinger Einfuhrung in das Christentum. 
[45] P. 7. 
[46] Prefácio da Introduzione al Cristianesimo, p. 8. 
[47] Ver Pascendi. 
[48] Pp. 16-17. 
[49] P. 32. Grifo do original.

Extrato da revista Sim Sim Não Não. Da série de artigos: " Os que pensam que venceram" 
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