sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Sacerdócio dos Padres e sacerdócio dos fiéis - Dom Antonio de Castro Mayer

      A Sagrada Liturgia vem a ser o exercício do sacerdócio de Jesus Cristo, que, por ela, permanece atual na sucessão dos tempos (cf. Encíclica Mediator Dei - DR IX, p 502). De maneira que só podem participar dos atos litúrgicos os que tem uma participação no sacerdócio de Jesus Cristo. É através desse divino sacerdócio que se elevam a Deus nossa adoração e súplicas, e é por meio dele que descem do Céu sobre a terra as graças e bênçãos divinas.
     Há diversos modos de se participar do sacerdócio de Jesus Cristo, e essa diversidade de participação cria na Igreja uma desigualdade entre seus membros. Adverte Pio XII que para melhor compreender a Sagrada Liturgia é necessário considerar essa desigualdade. "A Igreja, de fato, é uma sociedade, e exige, por isso, uma autoridade própria e hierárquica. Embora todos os membros do Corpo Mística participem dos mesmos bens e se orientem para o mesmo fim, todos, não obstante, não gozam do mesmo poder, nem estão habilitados a executar as mesmas ações. O Divino Redentor, com efeito, estabeleceu seu Reino sobre os fundamentos da Ordem sacra, que é um reflexo hierarquia celeste." (Enc. "Mediator Dei" - DR IX, p. 510)
     "Só aos Apóstolos e àqueles que, depois deles, receberam dos seus sucessores a imposição das mãos, é conferido o poder sacerdotal, em virtude do qual, como representam, diante do povo que lhes é confiado, a pessoa de Jesus Cristo, assim representam o povo diante de Deus." (ibid., p. 510). Mais. O Sacerdote representa propriamente a Jesus Cristo, e, como Jesus Cristo é a Cabeça do Corpo Místico, através a representação de Jesus Cristo o Sacerdote representa também o povo fiel diante de Deus. Não há, portanto, na Igreja, nenhuma delegação do povo fiel e é tão somente mediante a sagrada ordenação que "são eles introduzidos no augusto ministério que os destina ao altar sagrado e os constitui instrumentos divinos, por cujo meio participam os fiéis da vida sobrenatural do Corpo Místico de Cristo." (ibid., p. 511)

      Esta singular e privativa participação no sacerdócio de Jesus Cristo, exclusiva dos Padres validamente ordenados, não impede que os fiéis tenham, eles também, certa participação no divino sacerdócio. Como o caráter da Ordem aos Padres, assim o caráter do Batismo confere ao simples fiel uma assimilação ao sacerdócio de Cristo, de natureza porém especificamente diversa. Pio XII explana esta diversidade com a distância que separa o pagão do batizado (cf. Enc. "Mediatos Dei" - DR IX, p 511). Isto é, a separação que há, na Igreja, entre o simples fiel e o Padre não é menor do que a distância o gentio, que não pertence ao corpo Místico de Cristo, do batizado incorporado ao Divino Redentor, e elevado à ordem sobrenatural. A diferença, pois, que há entre o simples fiel e o Padre não é apenas de mais ou de menos, mas sim de natureza específica. O Sacramento da Ordem cria no Padre, mediante o caráter que nele imprime, um princípio de operações sobrenaturais novas, para as quais o simples fiel é totalmente incapaz.
     Não quer dizer que o caráter do Batismo não dê ao simples fiel o direito de participar, mesmo ativamente, nos atos litúrgicos. Porém a seu modo, como observa a Constituição "de Sacra Liturgia" (nº26). E Encíclica "Mediator Dei" esclarece esse assunto, ao tratar da maneira como os simples fiéis podem e devem, eles também, participar do Santo Sacrifício da Missa. Eis suas palavras: "A imolação incruenta, por cujo meio, depois de pronunciadas as palavras da consagração, Jesus Cristo está presente como vítima sobre o altar, esta imolação é realizada só pelo Padre, enquanto opera no lugar de Jesus Cristo, e não enquanto representa o povo fiel" (Enc. "Mediator Dei" - DR IX, pp. 525-526). Em outras palavras, o sacrifício propriamente dito, que consiste na consagração, é ato exclusivo do Padre, e nele o povo fiel não tem parte. As palavras de Pio XII são claras: é ação só do Sacerdote, enquanto representa a pessoa de Jesus Cristo e NÃO enquanto representa a pessoa dos fiéis.
     "Colocando, no entanto, sobre o altar a Vítima divina, o Sacerdote A apresenta a Deus Padre, como oblação em louvor de glória à Santíssima Trindade e em benefício de todas as almas. É propriamente nesta oblação que os fiéis participam do modo que lhes é concedido, e por um motivo duplo: porque eles oferecem o sacrifício não somente pelas mãos do Sacerdote, mas, em certo modo, também juntamente com ele, e, com esta participação, também a oblação feita pelo povo se relaciona com o culto litúrgico."(cf. Enc. "Mediator Dei" - DR IX, p. 505)
     Fizemos, portanto, caríssimos Cooperados e amados filhos, que para a participação dos fiéis nos atos litúrgicos exige-se sempre, que se unam ao Sacerdote ou ao ministro dos sacramentos, de maneira que o culto público da Igreja se faz sempre através do representante da Santa Igreja, e jamais por um delegado do povo fiel.
    Estes princípios dão o verdadeiro sentido das expressões da Constituição "de Sacra Liturgia", quando no seu n° 29 afirma que todos os que tomam parte nos ator litúrgicos, mesmo os leitores, comentadores e cantores, exercem um ministério litúrgico.


Retirado do Livro: Por um cristianismo autêntico, de Dom Antonio de Castro Mayer

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