sábado, 2 de janeiro de 2016

Catecismo do Modernismo - Baseado na Pascendi de São Pio X - Parte III


P. O que mais é necessário para dar uma idéia completa da origem da fé e da revelação, da forma como os Modernistas entendem este assunto?R. "Em todo este processo, do qual, segundo os Modernistas, resultam a fé e a revelação, deve-se atentar principalmente a um ponto, de capital importância, pelas conseqüências histórico-críticas que daí fazem derivar."

P. Trata-se do modo pelo qual aquele "incognoscível" da filosofia dos Modernistas, conforme acima exposto, se apresenta à fé?R. Sim. "Aquele "incognoscível", de que falam, não se apresenta à fé como algo solitário e isolado; mas sim intimamente unido a algum fenômeno que, embora pertença ao campo da ciência ou da história, assim mesmo transpõe, de certo modo, os seus limites."

P. Qual é este fenômeno?R. "Este fenômeno pode ser um fato qualquer da natureza que contenha em si algo de misterioso; ou também pode ser um homem, cuja personalidade, atos e palavras pareçam nada ter em comum com as leis ordinárias da história."

P. Da união do "incognoscível" com o fenômeno, o que resulta à fé?R. "A fé, atraída pelo "incognoscível" unido ao fenômeno, apodera-se de todo o fenômeno e de certo modo o penetra com sua própria vida.
"
P. Que resulta disso?R. "Resultam duas coisas."


R. "Até o momento não houve menção à ação da inteligência. Contudo, segundo as doutrinas dos Modernistas, ela também tem sua parte no ato de fé. E é importante ver como."
P. Qual é a primeira?R. "A primeira é uma certa transfiguração do fenômeno, por uma espécie de elevação sobre suas próprias condições, que o torna mais apto, qual matéria, a receber o ser divino."

P. Qual é a segunda?R. "A segunda é uma certa desfiguração, que resulta do fato de que a fé, que tornou o fenômeno independente das circunstâncias de tempo e espaço, atribui ao mesmo fenômeno qualidades que este não tem."

P. De acordo com os Modernistas, sobre que fenômenos este duplo trabalho de transfiguração e de desfiguração age principalmente?R. "Isto se dá principalmente com fenômenos de antigas datas, tanto mais quanto mais remotas são elas."

P. Que regras os Modernistas deduzem desta dupla operação?R. "Destes dois princípios, os Modernistas deduzem duas regras que, unidas a uma terceira já deduzida do Agnosticismo, constituem a base da crítica histórica."

P. Dê-nos um exemplo dessas três regras.R. "Tomaremos como exemplo a própria Pessoa de Cristo. Na Pessoa de Cristo, dizem, a ciência e a história não acham mais que um homem. Portanto, em virtude da primeira regra deduzida do Agnosticismo, da história dessa Pessoa se deve riscar o que se sabe de divino. Mais: por força da segunda regra, a Pessoa histórica de Jesus Cristo foi transfigurada pela fé; é preciso, pois, despojá-la de tudo o que a eleva acima das condições históricas. Finalmente, em virtude da terceira regra, a Pessoa de Cristo foi desfigurada pela fé; logo, se deve remover dela as falas, as ações, tudo enfim que não corresponde ao seu caráter, condição e educação, lugar e tempo em que viveu."

P. Não é estranho tal modo de raciocinar?R. "É, de fato, um estranho modo de raciocinar; porém esta é a Crítica dos Modernistas."


P. Então o "sentimento religioso", usando uma expressão Modernista, é o verdadeiro germe e a explicação completa de tudo o que há na religião?R. "O sentimento religioso, que por imanência vital surge dos esconderijos da subconsciência, é, pois, o germe de toda religião, e a razão de tudo o que tem havido e haverá ainda em qualquer religião."

P. Como este "sentimento religioso" amadurece?R. "Este sentimento, a princípio rudimentar e quase informe, gradualmente se aperfeiçoa sob o influxo do misterioso princípio que lhe deu origem, a par com os progressos da vida humana, da qual, como já ficou dito, é uma forma."

P. De acordo com os Modernistas, todas as religiões se originam desta forma?R. Sim. "Esta é a origem de todas as religiões."

P. Podemos dizer o mesmo até da religião sobrenatural?R. Sim. "Até mesmo da religião sobrenatural: não passa de um desenvolvimento deste sentimento religioso."

P. Mas os Modernistas não fazem uma exceção à religião católica?R. Não. "A religião católica não é uma exceção; ela está para eles no mesmo nível das outras."

P. Por qual processo e na "consciência" de quem, dizem eles, a religião católica foi concebida?R. "Ela foi concebida pelo processo de "imanência vital", na "consciência" de Cristo, homem de natureza extremamente privilegiada, como outro não houve nem haverá."

P. Isto não é uma blasfêmia?R. Sim. "Fica-se pasmo ao ouvir afirmações tão audaciosas e sacrílegas."

P. Certamente, Santo Padre, somente os incrédulos podem defender tais ensinamentos. É possível que sacerdotes sigam este falatório estúpido?R. "Ah, responde o Soberano Pontífice, não se trata apenas do falatório estúpido dos incrédulos. Há muitos católicos, e muitos sacerdotes também, que afirmam estas coisas publicamente, e ainda se vangloriam de que reformarão a Igreja com estes delírios!"

P. O Modernismo não parece ser o "velho erro" de Pelágio?R. "Não se trata aqui do velho erro, que atribuía à natureza humana uma espécie de direito à ordem sobrenatural. Vai-se ainda mais longe."

P. Poderia explicar?R. "Chega-se até ao ponto de afirmar que a nossa santíssima religião, no homem Cristo assim como em nós, é emanação inteiramente espontânea da natureza. Certamente não há nada mais destruidor de toda a ordem sobrenatural."

P. O que o Concílio Vaticano (I) definiu quanto a esta doutrina?R. "Com suma razão o Concílio Vaticano (I) definiu: Se alguém disser que o homem não pode ser por Deus elevado a um conhecimento e perfeição que supere as forças da natureza, mas por si mesmo pode e deve, com incessante progresso, chegar finalmente a possuir toda a verdade e todo o bem, seja anátema (De Revel., can. III)."

P. Os Modernistas encontram fé somente no sentimento? A inteligência não tem sua parte no ato de fé?

P. O "sentimento", segundo os Modernistas, é suficiente para o conhecimento de Deus, objeto e causa da fé?R. "Naquele sentimento do qual Nós falamos muitas vezes, uma vez que sentimento não é conhecimento, Deus de fato Se apresenta ao homem, mas de modo tão confuso e indistinto que Ele mal pode ser percebido pelo crente."

P. O que mais é necessário ao "sentimento"?R. "É necessário que um raio de luz seja lançado sobre aquele sentimento, de maneira que Deus possa ser claramente distinto e separado do sentimento."

P. Então, esta "iluminação" é o papel da inteligência no ato de fé Modernista?R. "Este é o papel da inteligência, à qual somente cabe o refletir e o analisar, e por meio da qual o homem a princípio traduz em representações mentais os fenômenos da vida que nele aparecem, e depois os manifesta com expressões verbais. Segue-se disso esta vulgar expressão dos Modernistas: o homem religioso deve pensar sua fé."

P. Que paralelo os Modernistas utilizam para explicar a ação da "inteligência" sobre o "sentimento", no ato de fé?R. "A inteligência, ao encontrar o sentimento, inclina-se sobre ele, e nele produz um trabalho parecido com o de um pintor que restaura e dá nova vida aos traços de um quadro estragado pelo tempo. O paralelo é de um dos mestres do Modernismo."

P. Qual é o "trabalho" da inteligência na produção do ato de fé?R. "O trabalho da inteligência é duplo."

P. Qual é o primeiro?R. "Primeiro, a inteligência, por um ato natural e espontâneo, expressa seus conceitos com uma proposição simples e comum."

P. E o segundo?R. "Depois, com reflexão e consideração mais profunda, ou, como dizem eles, elaborando o seu pensamento, exprime o que pensou com proposições secundárias, certamente derivadas da primeira, porém, mais polidas e distintas."

P. Como podem essas proposições secundárias, fruto do trabalho da inteligência realizado no seu próprio pensamento, tornar-se "dogmas"? R. "Estas proposições secundárias, se forem finalmente sancionadas pelo supremo magistério da Igreja, constituirão o dogma."

P. Não é o dogma o ponto principal da doutrina dos Modernistas?R. "Na doutrina dos Modernistas, chegamos a um dos pontos principais, que é a origem e a natureza do dogma."

P. Qual é a "origem do dogma" para os Modernistas?R. "Eles situam a origem do dogma naquelas fórmulas primitivas e simples que, sob certo aspecto, são necessárias à fé; pois a revelação, para ser verdadeiramente tal, requer uma clara manifestação de Deus na consciência. Mas o dogma mesmo, ao que parece, está contido nas fórmulas secundárias."

P. De acordo com os Modernistas, como poderemos conhecer a natureza do dogma?R. "Para conhecer bem a natureza do dogma, é preciso primeiro descobrir que relação existe entre as fórmulas religiosas e o sentimento religioso."

P. Como descobriremos essa relação?R. "Isto será facilmente compreendido por quem souber que estas fórmulas não têm outro fim senão o de propiciar ao crente um modo de explicar sua própria fé a si mesmo."

P. Essas fórmulas "estão situadas entre o crente e sua fé"?R. "Essas fórmulas, portanto, são intermediárias entre o crente e a sua fé;
- com relação à fé, são expressões inadequadas do seu objeto, e são normalmente denominadas símbolos pelos Modernistas;
- com relação ao crente, reduzem-se a meros instrumentos."
P. O que podemos dizer da verdade expressa nessas fórmulas?R. "Que não é possível afirmar que elas exprimem uma verdade absoluta."

P. Como símbolos, o que essas fórmulas são para os Modernistas?R. "Como símbolos, essas fórmulas são meras imagens da verdade, e portanto devem adaptar-se ao sentimento religioso, em sua relação com o homem."

P. Como "instrumentos", que são essas fórmulas?R. "Como instrumentos, são veículos da verdade, e assim por sua vez devem adaptar-se ao homem, em sua relação com o sentimento religioso."


P. Essas fórmulas (símbolos da fé e instrumentos do crente) são invariáveis?R. "Como este sentimento religiosotem por objeto o absoluto, ele apresenta infinitos aspectos, dos quais pode aparecer hoje um, amanhã outro. De modo semelhante, aquele que crê pode passar por diversas etapas. Segue-se que também as fórmulas, que chamamos dogmas, devem estar sujeitas às mesmas vicissitudes, e por isso também podem variar."

P. Há uma evolução intrínseca do dogma?R. "Temos, assim, o caminho aberto à evolução intrínseca do dogma. Eis uma imensa coleção de sofismas, que subvertem e destróem toda a religião."

P. Essa evolução intrínseca do dogma, além de possível, é também necessária?R. "O dogma não só pode como deve realmente evoluir e mudar. Isto é ousadamente afirmado pelos Modernistas, e claramente se deduz dos seus princípios."

P. De que princípio fundamental os Modernistas deduzem a necessidade da evolução intrínseca dos dogmas?R. "Dentre os principais pontos da doutrina deles há também este, que deduzem do princípio da imanência vital: as fórmulas religiosas, para que realmente sejam tais e não só meras especulações teológicas da inteligência, precisam ser vitais e viver da mesma vida do sentimento religioso."

P. Já que essas fórmulas precisam ser animadas pela própria vida do sentimento religioso, não devem elas ser feitas para o sentimento religioso?R. "Isto não deve ser entendido no sentido de que essas fórmulas, especialmente se forem só imaginárias, sejam feitas para o sentimento religioso; pois nada importa a sua origem nem o seu número, nem a sua qualidade; o que é necessário é que o sentimento religioso, que as modifica quando é preciso, as assimile vitalmente."

P. O que é "assimilação vital" pelo sentimento?R. "Em outras palavras, é preciso que a fórmula primitiva seja aceita e confirmada pelo coração; e que a subseqüente elaboração das fórmulas secundárias seja feita sob a direção do coração."

P. Como a necessidade da assimilação vital induz à variação substancial do dogma?R. "Tais fórmulas, para serem vitais, hão de ser e ficar adaptadas tanto à fé quanto ao crente. Por isso, se por qualquer motivo cessar essa adaptação, perdem sua primitiva significação e devem ser mudadas."

P. Que consideração tem os Modernistas pelas fórmulas dogmáticas?R. "Sendo assim mutável o valor e a sorte das fórmulas dogmáticas, não é de admirar que os Modernistas tanto as desprezem e escarneçam, e que por conseguinte só reconheçam e exaltem o sentimento e a vida religiosa."

P. Que atitude os Modernistas tomam em relação à Igreja quanto às fórmulas dogmáticas?R. "Audaciosamente eles criticam a Igreja, acusando-a de ter tomado o caminho errado devido a não saber distinguir entre o sentido material das fórmulas e sua significação religiosa e moral, e acusando-a também de agarrar-se obstinadamente, mas em vão, a fórmulas falhas de sentido, enquanto deixa a própria religião rolar para o abismo."


P. Qual deve ser nosso julgamento final sobre as doutrinas dos Modernistas em relação à verdade dogmática?R. "Cegos, na verdade, a conduzirem outros cegos, são esses homens que, inflados pelas ostentações da ciência, deliram a ponto de perverter o eterno conceito de verdade e a verdadeira natureza do sentimento religioso, de modo que com esse seu novo sistema são arrastados por desenfreada mania de novidades, não procuram a verdade onde certamente se acha; mas, desprezando as santas e apostólicas tradições, se apegam a doutrinas ocas, fúteis, incertas, reprovadas pela Igreja, com as quais homens estultíssimos julgam fortalecer e sustentar a verdade. (Greg. XVI Ep. Encicl. "Singulari Nos" 7 Kal. Jul. 1834)."

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