terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Da vocação ao Sacerdócio


I - Necessidade da vocação divina para receber as ordens sacras


Para entrar em qualquer estado de vida, é necessário ser chamado por Deus, porque, sem vocação, se não é impossível, é pelo menos muito difícil satisfazer às obrigações desse estado e salvar-se.
Mas, se para todos é necessária a vocação, sobretudo é indispensável para abraçar o estado eclesiástico. É a porta única para se entrar na Igreja; quem lá se introduzir de outro modo é um bandido e um ladrão, diz o Senhor. São Cirilo de Alexandria conclui que o que recebe as Ordens sacras, sem a elas ser chamado por Deus, se torna culpado de roubo, porque arrebata uma graça que Deus lhe não quer confiar . Também São Paulo declarou que a vocação divina é necessariamente requerida para se ser elevado ao sacerdócio, e cita o exemplo de Aarão e do próprio Jesus Cristo Ninguém por si mesmo assume esta honra, que não se confere senão a quem é chamado por Deus, como Aarão. Foi assim que nem o próprio Jesus Cristo se arrogou a função de Pontífice, que lhe conferiu Aquele que lhe disse: Tu és o meu Filho .

Ainda mesmo quando estavam certos da sua vocação divina, tremiam os santos de assumir o sacerdócio. Santo Agostinho, na sua humildade, olhava como castigo dos seus pecados a violência que o seu bispo empregara para o fazer sacerdote . Santo Efrém, apresentou-se como insensato, para não ser constrangido a receber o sacerdócio, e Santo Ambrósio fingiu ser cruel. O santo monge Amon, para escapar à ordenação, cortou as orelhas e fez ameaça de cortar também a língua, se persistissem em inquietá-lo a tal respeito. Em resumo, São Cirilo de Alexandria afirma que todos os santos têm considerado a dignidade sacerdotal como um fardo enorme . Depois disso, pergunta São Cipriano, poderá encontrar-se alguém tão temerário que se abalance a receber as sagradas Ordens sem a vocação divina?
Quem se introduz no santuário sem vocação ofende a autoridade de Deus, como um vassalo rebelde, que por si mesmo se fizesse ministro contra a vontade do seu soberano. Que temeridade a de um súdito que, sem ordem do rei e até contra a sua vontade, se metesse a administrar os domínios da coroa, a julgar causas, a comandar o exército, numa palavra a exercer as funções de vice-rei! É de São Bernardo esta reflexão . Segundo São Próspero não são outras as funções dos padres senão serem dispenseiros na casa de Deus 781; chefes do rebanho de Jesus Cristo, os chama Santo Ambrósio 782; intérpretes da lei divina, os apelida São Dionísio 783. No dizer do autor da Obras imperfeita, são os vigários de Jesus Cristo 784. À vista disto, quem teria ainda a audácia de se fazer ministro de Deus, sem a isso ser chamado?
Num reino, diz São Pedro Crisólogo, só o pensamento de usurpar a autoridade suprema é um crime da parte do súdito 785. Até na casa dum particular, ninguém se atreveria a entrar lá, para dispor dos seus bens e administrar os seus negócios; porque é ao dono que cabe o direito de escolher e estabelecer os gerentes dos seus negócios. E vós, diz São Bernardo, sem serdes chamados por Deus, quereis entrar na sua casa, para lançardes mão dos seus interesses e dispordes dos seus bens?786 Eis a razão por que o Concílio de Trento declarou que a Igreja não olha como seu ministro, mas como ladrão, quem ousa ingerir-se sem vocação nas funções eclesiásticas 787. Poderá esse padre dar-se a muitas fadigas, mas os seus trabalhos pouco lhe aproveitarão diante de Deus; mais ainda, as obras que para os outros são meritórias, para ele se tornarão demeritórias. Imaginais que um servo recebeu ordem do seu senhor para lhe guardar a casa, e ele por seu arbítrio preferiu ir cavar a vinha; debalde se fatigará e suará, em vez de recompensa, deve antes esperar castigo. Tal é a sorte dos que, sem vocação, invadem o santuário: em primeiro lugar, não aceitará o Senhor os meus trabalhos, porque os empreenderam sem o seu beneplácito. Não está em vós a minha vontade, diz o Senhor dos exércitos, e não receberei as dádivas das vossas mãos 788; e depois, em vez de recompensa, terão castigo: Todo o estrangeiro que se aproximar (do tabernáculo) será condenado à morte 789.
Aquele pois que aspira a Ordens sacras, deve antes de tudo examinar bem, diz São João Crisóstomo 790, se é Deus quem o chama a tão alta dignidade. Ora, para se conhecer se a vocação vem de Deus, é necessário examinar os sinais dela. Escutemos a advertência que nos faz o Senhor: Quando se quer edificar uma torre, começa-se por fazer o orçamento, para se ver se não faltam os recursos necessários para levar a obra ao fim 791.

II - Sinais da vocação divina ao sacerdócio


Eis agora quais são os sinais da vocação divina para o sacerdócio.
Não é a nobreza de nascimento. Segundo São Jerônimo, quando se trata de escolher um chefe que dirija os povos pelo caminho da salvação eterna, não se deve considerar a nobreza do sangue, mas a santidade da vida 792. São Gregório emprega a mesma linguagem 793.
De nenhum modo deve a influência dos pais impelir os filhos para o sacerdócio, com a mira apenas nos interesses e vantagens da própria família, e não com os olhos no bem das suas almas. Esses pensam na vida presente, diz o autor da Obra imperfeita, e esquecem a eternidade que se há de seguir 794. Persuadamo-nos de que, no que respeita à escolha de estado, conforme a palavra de Jesus Cristo, são os próprios pais os inimigos mais temíveis: Cada um terá por inimigos os da sua casa. A isto ajunta: Quem ama o seu pai ou a sua mãe mais do que a mim, não é digno de mim 795. Ó! Quantos padres se verão condenados no dia do juízo por terem recebido as santas Ordens, para fazerem a vontade a seus pais!
Não se compreende! Se um jovem, movido por uma vocação divina, quer entrar em religião, — que não fazem então os pais, por paixão ou por interesse da família, para o afastarem dum estado a que Deus o chama! Entenda-se bem, um tal procedimento, como ensinam em comum todos os doutores, não pode escusar-se de pecado mortal; leia-se o que escrevemos na nossa Teologia moral ( l. 4. n. 77). Neste caso, os pais tornam-se duplamente culpados: 1.º, pecam contra a caridade, pelo grande mal que causam àquele a quem Deus chama, pois comete uma falta grave qualquer pessoa, embora estranha, que afasta alguém da vocação religiosa; 2.º, pecam contra o amor paternal, porque os pais que têm a seu cargo a educação de seus filhos, estão obrigados a procurar-lhes a maior vantagem espiritual. Há confessores ignorantes que, — aos seus penitentes que querem abraçar o estado religioso, — insinuam que devem nisso obedecer a seus pais, e renunciar à sua vocação, se eles se opuserem a ela. É seguir a doutrina de Lutero que dizia que os filhos pecam, quando entram em religião sem o consentimento de seus pais. Tal doutrina é contradita por todos os Santos Padres e pelo Concílio 10 de Toledo, onde se decidiu que é permitido aos filhos, passados os catorze anos, fazerem-se religiosos, mesmo contra a vontade de seus pais. (Veja-se o Novo Código de Direito Canônico, cân. 555 e 573).
Sem dúvida, são os filhos obrigados a obedecer a seus pais. em tudo quanto respeita à educação e o governo da casa; mas, quanto à escolha de estado, devem obedecer a Deus, e escolher o estado a que ele os chamar. Quando os pais quiserem fazer-se obedecer também nesse ponto, devem os filhos responder-lhes o mesmo que os apóstolos responderam aos príncipes dos judeus: Vós próprios julgai se é justo, aos olhos de Deus, obedecer antes a vós do que a Deus 796.
Ensina expressamente Santo Tomás 797 que na escolha dum estado, não estão os filhos obrigados a obedecer a seus pais e ajunta que, quando se trata da vocação religiosa, os filhos nem mesmo estão obrigados a tomar conselho com os pais, que, ao verem feridos os seus interesses, são antes inimigos do que pais 798. Como diz São Bernardo, antes querem ver os filhos condenar-se com eles, do que permitir-lhes que se salvem sem eles 799. Pelo contrário, se vêem que um filho, fazendo-se padre, pode ser útil à família, — que esforços não fazem então para que se ordene, a torto ou a direito, embora não seja chamado por Deus! E que gritos, que ameaças se o filho, sensível aos remorsos da própria consciência, recusa receber as santas Ordens! Pais bárbaros, e antes homicidas do que pais, vos chamamos com São Bernardo! Mais uma vez, desgraçados pais e desgraçados filhos! Quantos não havemos de ver no Vale de Josafat que serão condenados por causa da vocação, visto que a salvação de cada um, como acima demonstramos, está dependente da fidelidade em seguir a vocação divina!
Voltemos ao assunto. Não se devem pois olhar, como sinais de vocação ao sacerdócio, nem a nobreza de sangue, nem a vontade dos pais, nem mesmo os talentos e aptidões que possa haver para as funções sacerdotais; porque além dos talentos convenientes, é necessária uma vida boa, unida à vocação divina.
Quais os verdadeiros sinais pelos quais se pode reconhecer que se é chamado por Deus ao estado eclesiástico? Eis os três principais.

1. A reta intenção


O primeiro é uma reta intenção. É necessário entrar no santuário pela porta, que é o próprio Jesus Cristo: Sou Eu a porta do aprisco... Quem entrar por mim, salvar-se-á . Não está pois a entrada legítima para o santuário, no desejo de comprazer com os pais, ou de engrandecer a família, nem no interesse ou amor próprio; mas somente na intenção de servir a Deus, trabalhando na sua glória e salvação das almas, como o sábio continuador de Tournely muito bem o diz . Se sois conduzido pela ambição, interesse ou gosto das honras, diz um outro teólogo, não é Deus que vos chama, é o demônio . E quem se apresenta à ordenação com disposições tão indignas, ajunta Santo Anselmo, receberá a maldição de Deus, e não a sua bênção .

2. A ciência e os talentos


O segundo sinal da vocação é a ciência e capacidade necessária, para desempenhar convenientemente as funções sacerdotais. Devem os padres ser os doutores, que ensinem a lei de Deus aos povos: Porque os lábios do sacerdote devem ser os guardas da ciência, e da sua boca receberão os outros a lei . Dizia Sidônio Apolinário que os médicos pouco instruídos muitas vezes matam os doentes, em vez de os curarem . Um padre ignorante, sobretudo se é confessor, ensinará falsas doutrinas, dará maus conselhos, e assim causará a ruína de muitas almas; porque facilmente se dará crédito às suas palavras, em razão de ser padre. Era o que fazia dizer a Yves de Chartres que a admissão às santas Ordens, além duma boa conduta, exige uma instrução suficiente .
Conhecidas todas as rubricas do Missal, para bem celebrar a santa Missa, todo o padre está ainda obrigado a saber as coisas principais relativas ao sacramento da Penitência. Como noutra parte fica dito, nem todo o padre é obrigado a ser confessor, a não ser que as necessidades instantes, do país em que habita, reclamem o seu ministério; todavia até o simples sacerdote está obrigado a conhecer ao menos o que se deve saber em geral, para ouvir as confissões dos moribundos, isto é: em que casos há faculdade para os absolver; quando e como se deve dar a absolvição ao enfermo, sob condição ou em absoluto; qual a obrigação que se lhe deve impor, se estiver incurso nalguma censura. Deve também o simples sacerdote conhecer ao menos os princípios gerais da moral.

3. Bondade positiva de vida


O terceiro sinal de vocação, para o estado eclesiástico, é a bondade positiva de vida.
Primeiro que tudo, deve o ordinando ter uma vida inocente, não manchada de pecados. O Apóstolo exige que aquele que aspira ao sacerdócio seja irrepreensível, conforme o escrevia ao seu discípulo Tito 808. Nos primeiros séculos da Igreja, quem tivesse cometido um só pecado mortal não podia ser ordenado; prova-o uma decisão do 1.º Concílio de Nicéia . Segundo São Jerônimo, para ser admitido ao sacerdócio, não bastava estar sem pecado ao tempo da ordenação, era necessário não ter cometido nenhuma falta grave depois do batismo . Verdade é que depois a disciplina a disciplina da Igreja cessou de ser tão rigorosa; mas dos aspirantes a Ordens sacras sempre tem exigido ao menos que, depois das suas quedas graves, tenham conservado a sua consciência bem purificada, durante um período considerável de tempo. É o que vemos numa carta de Alexandre III ao arcebispo de Reims, a propósito dum diácono que tinha ferido outro diácono: o Papa decidiu que, se o culpado estava verdadeiramente arrependido do seu crime, depois de recebida a absolvição e cumprida a penitência, que lhe fosse imposta, poderia ser reintegrado nas funções da sua Ordem, e até, se depois desse exemplo duma vida perfeita, lhe poderia ser conferido o sacerdócio . Se haveis pois contraído algum mau hábito, e ainda não o arrancastes, não vos atrevais a receber nenhuma Ordem sacra. Seria uma falta grave, que causava horror a São Bernardo: É necessário ao menos, dizia ele, que ponhais em regra a vossa consciência, antes de vos ocupardes da consciência dos outros . Um autor antigo, Gildas o Sábio, falando dos que cheios de maus hábitos têm a temeridade de assaltar o sacerdócio, diz que eles mereciam antes ser expostos no pelourinho . Devemos concluir pois com Santo Isidoro:recusem-se por completo as Ordens sacras a quem quer que ainda seja escravo de algum mau hábito .
Quando se aspira à honra de subir ao altar, não basta que se esteja isento de pecado, é preciso ter bondade positiva, isto é, caminhar na via da perfeição, possuir já algum hábito de virtude. Na nossa Teologia moral ( l. 6. n. 63 et seq.) demonstramos suficientemente, pelo sentir comum dos doutores, que quem tem vivido no hábito de algum vício, e quer ser promovido a uma Ordem sacra, deve estar disposto para receber, não só o sacramento da Penitência, mas também o da Ordem; de contrário, não estará disposto nem para um, nem para outro; e cometerá falta grave, tanto o ordinando que receber a absolvição com a intenção de entrar nas Ordens sacras, sem as disposições requeridas, como o confessor que o absolver. A razão é que, a quem deseja receber as ordens, não lhe basta ter saído do estado de pecado; é-lhe necessária, repetimos, a bondade positiva, indispensável para o estado eclesiástico, conforme o texto de Alexandre III, acima citado: Si perfectae vitae et conversationis fuerit.
A decisão deste Pontífice prova-nos que a penitência basta para exercer uma Ordem já recebida, mas não para ser promovido a uma Ordem superior; é precisamente o que ensina o Doutor Angélico 815. Doutrina conforme com a que São Dionísio tinha já estabelecido: Nas coisas divinas, não deve o primeiro adventício atrever-se a tomar a dianteira aos outros; é necessário para isso ter dado provas duma conduta muito correta e ser muito semelhante a Deus 816. Santo Tomás dá duas razões: a 1.ª é que o que recebe as santas Ordens deve elevar-se acima dos simples fiéis pela santidade, na mesma proporção em que os excede pela dignidade do seu ministério. “Para desempenhar dignamente as funções das santas Ordens, diz ele, não basta qualquer bondade, é necessária uma bondade excelente, de modo que os ministros sagrados sejam tão superiores ao povo pela sua santidade, como pela Ordem que receberam; ora, para receber as Ordens, requere-se uma graça que torne o ordinando apto para aparecer com honra no rebanho de Jesus Cristo”.
A 2.ª razão é que na ordenação recebesse a missão de exercer ao altar as mais altas funções, para as quais se exige maior santidade do que para o estado religioso . Por isso o Apóstolo (Tim. 3, 6) proibiu que se ordenassem os neófitos, isto é, segundo a explicação de Santo Tomás, os que ainda não deram provas de constância na prática das virtudes .
Eis a razão porque o Concílio de Trento, fazendo alusão às palavras da Escritura — A velhice é uma vida sem mancha — manda aos bispos que não admitam à ordenação, senão os que se mostrarem digno dela por uma virtude madura . (Veja-se o N. C. de Direito Canônico, cân. 973 e seguintes).
E é necessário, diz Santo Tomás, que esta bondade positiva dos ordinandos seja conhecida . Recomenda São Gregório esta precaução, sobretudo no que respeita à virtude da castidade . Exige neste ponto uma prova de muitos anos .
À vista disto, medite-se nas contas que hão de dar a Deus muitos párocos que nos seus certificados atestam, que os ordinandos têm frequentado os sacramentos e são de bons costumes, sabendo que eles nem frequentam os sacramentos, nem dão bom exemplo, antes causam escândalo! Com atestados tais, passados, não por caridade, como dizem, mas contra a caridade devida a Deus e à Igreja, esses párocos tornam-se responsáveis por todos os pecados que de futuro hão de cometer esses seus paroquianos indignos; porque os Bispos fazem juízo pelos certificados dos párocos, e são assim induzidos a erro. Para passar os certificados de que vimos falando, não deve o pároco proceder ao deleve em colher informações; deve ter certeza do que atesta, deve saber positivamente que o clérigo tem um comportamento exemplar e frequenta os sacramentos. Quanto aos confessores dos ordinandos, assim como o Bispo não pode ordenar um súdito, cuja castidade ainda não esteja bem provada, também o confessor não pode permitir que um penitente seu, que vive na incontinência, se apresente à ordenação, se não estiver moralmente certo de que tal ordinando já se libertara do mau hábito antigo, e adquirira o hábito da virtude da castidade.

III - Ao que se expõe quem entra nas ordens sem vocação


Do que levamos dito resulta que não se poderia escusar de falta grave quem entrasse nas Ordens, sem consciência de possuir os sinais da vocação divina. É o sentir dum grande número de teólogos, tais como Habert, Natal Alexandre, Juenino, e o Continuador de Tournely; e é o que antes deles claramente ensinou Santo Agostinho quando ao falar do castigo infligido pelo Senhor a Coré, Datan e Abiron, — que se haviam ingerido nas funções sacerdotais, sem a elas serem chamados, — afirma que esse exemplo é uma advertência para os que sem vocação aspiram às Ordens sacras . A razão é que se taxa de presunção grave e indesculpável entrar no santuário sem a isso ser chamado por Deus, e o réu de tal culpa fica depois privado das graças de estado e dos socorros oportunos, sem os quais se pode, falando em absoluto, desempenhar as próprias obrigações, mas não sem muita dificuldade, conforme nota Habert. Será como um membro deslocado, que não poderá obrar sem dor e sem dificuldade .
Nesse caso pois, fica-se grandemente exposto ao perigo de perder a alma, porque, diz o bispo Abely, é um dos pecados contra o Espírito Santo, pecado de perdão muito difícil, conforme o testemunho do Evangelho .
Declara o Senhor que se sente indignado contra os que querem reinar na Igreja, sem a isso serem chamados 828. Reinam por sua própria autoridade, e não por escolha do soberano Senhor do mundo; sem nenhum apelo divino, antes somente por impulso da sua cobiça; não obtém o governo das almas, usurpam-no 829. Que esforços, que tentativas, que súplicas, que meios não empregam certos sujeitos para se fazerem ordenar, sem vocação, e só com vistas mundanas! Desgraçados que se aventuram a tais empresas, contra a minha vontade, diz o Senhor pela boca de Isaías!830 Pedirão no dia do juízo uma recompensa, mas Jesus Cristo os repelirá para longe de si: Muitos me dirão naquele dia: Senhor, Senhor, não profetizamos nós (quer dizer, não pregamos e ensinamos) em vosso nome, e não expulsamos o demônio em vosso nome (dando a absolvição), e não fizemos em vosso nome muitos milagres (corrigindo, acalmando discórdias, reconduzindo os pecadores ao bom caminho?). E Eu lhes responderei: Nunca vos conheci; retirai-vos de mim, obreiros da iniquidade . Os padres sem vocação são de fato agentes e ministros de Deus, porque receberam o caráter sacerdotal; mas são ministros de iniquidade e rapina, visto que por si mesmos e sem serem chamados invadiram o aprisco.
Não receberam as chaves, diz São Bernardo, roubaram-nas . Muito embora trabalhem, não lhes recompensará o Senhor os seus suores, antes os punirá por não terem entrado no santuário pelo caminho direito . Não recebe a Igreja, diz São Leão, senão os que o Senhor escolhe e torna dignos, pela sua escolha, de serem seus ministros . Repele os que Deus não chamou, porque vêem antes para trabalhar na ruína da mesma Igreja, do que em proveito dela, e, longe de a edificarem, são a sua desolação e opróbrio, como diz São Pedro Damião .
Hão de aproximar-se de Deus os que ele tiver escolhido . O Senhor há de acolher os que tiver chamado ao Sacerdócio; logo os que não escolheu serão rejeitados. Assim Santo Efrém olha como condenado o que teve a audácia de se fazer padre sem vocação : “Estou espantado, diz ele, da audácia de certos insensatos, que assaltam como à força as funções sacerdotais, sem pensarem, desgraçados, nem na morte, nem nos fogos eternos em que se lançam!” Pedro de Blois exprime quase o mesmo pensamento nestas palavras: “Como é para lamentar o que muda o sacrifício em sacrilégio, e a vida em morte!” Quem se engana na sua vocação corre muito maior perigo de se condenar, do que quem transgride os preceitos particulares; porque este pode erguer-se da sua queda e retomar o bom caminho, ao passo que aquele segue um caminho errado, pelo qual se afasta cada vez mais da pátria, à medida que adianta. Pode aplicar-se-lhe o dito de Santo Agostinho: “Corres muito, mas por fora do caminho”.
Estejamos pois persuadidos do que dizia São Gregório, — que a nossa salvação eterna depende principalmente da nossa docilidade em abraçarmos o estado a que o Senhor nos chama . A razão é evidente: na ordem da sua providência, é Deus que assinala a cada um de nós o seu estado de vida, e nos prepara as graças e socorros próprios do estado a que nos chama; e tal é o pensamento de São Cipriano. O Espírito Santo distribui as suas graças segundo a ordem por ele próprio estabelecida, e não ao nosso gosto . E esta ordem é, para cada um de nós, a ordem da predestinação, como o Apóstolo nos dá a entender nestas palavras: Os que escolheu, chamou-os, e os que chamou, justificou-os, e os que justificou, também os glorificou . Assim, depois da vocação, vem a justificação e depois da justificação, a glorificação, isto é, a consecução da vida eterna; por consequência quem não obedece à vocação divina, nem será justificado nem glorificado. O frei Luís de Granada tinha pois razão para dizer que a vocação é a mola real de toda a vida: assim como um relógio pára, desde que a roda principal se desarranja, do mesmo modo, diz São Gregório de Nazianzo, desde que nos desviamos da nossa vocação, toda a nossa vida caminha de erro em erro; porque fora do estado, a que Deus nos chama, nos faltam os socorros de que necessitamos para bem obrar.
Cada um recebeu de Deus um dom que lhe é próprio: uns num sentido, outros noutro 843. Segundo os intérpretes, esta sentença do Apóstolo quer dizer — que Deus dá a cada um as graças necessárias para cumprir as obrigações do estado a que o chama, como ensina Santo Tomás 844, apoiando-se nas palavras de São Paulo: Fez-nos idôneos para sermos os ministros do Novo Testamento ( 2. Cor. 3, 5). Donde se segue que aquele mesmo que é apto para desempenhar as funções a que Deus o chama, é inapto para outras a que não o chama. Assim o pé, que é destinado a caminhar, com certeza é incapaz de ver; e o olho que é dado para ver não pode aplicar-se a ouvir. Como poderá pois desempenhar-se das funções sacerdotais aquele que Deus não destinou ao sacerdócio?
É o Senhor quem escolhe os obreiros que hão de trabalhar na sua vinha: Eu vos escolhi e estabeleci para que vades pelo mundo e façais fruto . Por isso mesmo não diz o divino Redentor: Pedi aos homens que trabalhem na seara; — mas: Pedi ao Senhor que mande obreiros  E acrescenta noutra parte: Conforme meu Pai me enviou, assim eu vos envio . Ora, quando Deus chama alguém a um cargo, dá-lhe todos os socorros necessários. O Autor da minha elevação, diz São Leão, há de vir em meu auxílio, no governo dos interesses que me confiou; tendo-me imposto o encargo, há dar-me a força para o levar dignamente 848. É o que o próprio Jesus Cristo declara nestes termos: Sou Eu a porta. Quem entrar por mim será salvo; entrará, e sairá, e encontrará o seu sustento 849. O que pode explicar-se assim: Entrará: Tudo quanto empreender o sacerdote chamado por Deus, há de levá-lo a cabo sem pecado, e até com merecimento. E ele sairá: Há de encontrar-se em ocasiões e perigos, mas com o auxílio do Céu sairá são e salvo. E há de encontrar o seu sustento: Finalmente, em todas as funções do seu ministério, há de ver-se assistido de graças especiais, que o farão caminhar a passos largos no caminho da perfeição; e isso por se encontrar no estado em que o Senhor o colocou. Poderá assim dizer com confiança que está sob a direção de Deus e na abundância de todos os bens .
Pelo contrário, os padres que não foram enviados por Deus, para trabalharem na sua Igreja, hão de ver-se abandonados dele e condenados a um opróbrio eterno, a desgraças sem fim, como ele o declara pela boca de Jeremias: Eu não enviava estes profetas e eles corriam por si mesmos. Por isso vos tomarei para levar-vos e vos abandonarei longe de mim... e vos entregarei a um opróbrios sempiterno e a uma eterna ignomínia, que jamais será apagada pelo esquecimento 851.
Somente pelo poder de Deus, diz Santo Tomás, pode um homem ser ele vado à altura do sacerdócio, por isso que está constituído santificador dos povos e vigário de Jesus Cristo 852. A quem pretende elevar-se por si mesmo a uma dignidade sublime, há de acontecer-lhe o que diz o Sábio: Depois do louco se ter elevado a uma grande altura, há de ser posta a descoberto a sua loucura no dia do juízo 853. Se ele tivesse ficado no mundo, teria sido talvez um leigo virtuoso: mas, tendo-se feito padre sem vocação, será um mau padre, e, em vez de se tornar útil à Igreja, será para ela um verdadeiro flagelo. É o que diz o Catecismo Romano, ao falar de tais padres: “Nenhuma desgraça maior que o destes padres, e nada mais funesto à Igreja de Deus”. Que bem poderiam eles fazer à Igreja, tendo entrado nela sem vocação? É muito difícil, diz São Leão, que um começo tão mau seja seguido dum bom fim . São Lourenço Justiniano emprega a mesma linguagem: “Que fruto poderá produzir uma raiz contaminada?” E o divino Mestre afirma que não só o fruto será rejeitado, mas até a planta será arrancada . Também, segundo Pedro de Blois, quando o Senhor permite que alguém chegue ao sacerdócio, sem a ele ser chamado, não significa isso uma graça, mas um castigo; porque uma árvore que não está bem arraigada, e se encontra exposta ao vento, em breve cairá e será depois lançada ao fogo . Para ele próprio pois é uma desgraça, mas também o é para os outros, como nota São Bernardo; porque aquele que não entrou legitimamente no santuário, continuará a caminhar pelas vias da infidelidade e, em vez de procurar a salvação das almas, será antes para elas uma causa de perdição e morte . É o que ensina a sentença de Jesus Cristo: O que não entra pela porta... é um bandido e um ladrão. O ladrão só vem para roubar, e matar, e fazer perecer .
Mas, dir-se-á, se somente se admitirem às santas Ordens os que reunirem todos os sinais de vocação, de que acabais de falar e exigis, poucos padres haverá na Igreja, e faltarão os socorros aos fiéis. — O IV Concílio de Latrão já respondeu a esta objeção, dizendo que é preferível haver poucos padres bons, que muitos maus 861. Por outro lado, conforme nota Santo Tomás, nunca Deus desampara a sua Igreja de modo que a deixe desprovida de ministros dignos, necessários parar obviar às necessidades dos povos . E se alguém quisesse dirigir os povos, mediante ministros indignos, seria isso, diz com razão São Leão, querer antes a sua ruína que a sua salvação 863.
Que tem pois a fazer um padre que entrou nas Ordens sem vocação? Há de ter-se como um condenado e entregar-se ao desespero? — Não, por certo. São Gregório faz a si próprio esta pergunta: Sacerdos sum non vocatus; quid faciendum? E responde: Ingemiscendum. Eis o que deve fazer este padre, se quiser salvar-se: procure à força de lágrimas aplacar o Senhor, para obter da sua misericórdia o perdão do crime que cometera, introduzindo-se no santuário sem vocação. — Conforme a exortação de São Bernardo, que se esforce por passar, ao menos de futuro, a vida santa de que devia ter feito preceder a sua elevação ao sacerdócio. E para isso, ajunta o Santo, necessário é que mude de costumes, de companhias e de sentimentos 864. Se é ignorante, aplique-se ao estudo; se tem vivido na dissipação, nas intimidades e divertimentos do mundo, renuncie a tudo isso, e de futuro consagre o seu tempo à oração, às leituras espirituais e à visita das igrejas. Não se consegue isto sem violência. Como acima dissemos, a entrada no sacerdócio sem vocação é semelhante a um membro do corpo humano, que saiu para fora do seu lugar próprio. Por isso a salvação de tais sacerdotes não pode operar-se senão à custa de muitos esforços e penas.
Fica demonstrado que quem se ordena sem ser chamado, priva-se dos socorros necessários para cumprir as obrigações do sacerdócio: como poderá então desempenhá-las? Que fará? Que ore, diz Habert  e o Continuador de Tournely . Por suas preces obterá o que de nenhum modo merece; porque, dizem eles, Deus concede então por misericórdia ao homem os socorros que, de certo modo, deve por justiça aos que são legitimamente chamados . Está isto de acordo com o que ensina o Concílio de Trento: Deus não manda impossíveis; mas preceituando, adverte-nos que façamos o que pudermos, e peçamos o que não pudermos; e ajuda-nos para que possamos .
 A Selva, por Santo Afonso

Nenhum comentário:

Postar um comentário