sábado, 30 de janeiro de 2016

Gabrielle Lefebvre: Uma mãe de família. - Parte i


Nota: Trata-se de uma entrevista concedida de Mons. Faure à Capela Nossa Senhora das Alegrias, em Vitória - ES.


    A Senhora Gabrielle Lefebvre, mãe de Monsenhor Lefebvre, como mãe de família, generosa no cumprimento de seus deveres e dócil às inspirações do Espirito Santo, parece haver realizado o ideal da perfeição cristã. Nasceu no norte da França, na cidade de Roubaix em 04 de julho de 1880. 
A família era do norte da França, nestas cidades Lille, Roubaix e Tourcoing que são industriais, muitas indústrias têxteis e de mineração.
     As famílias, tanto do lado da mãe como do pai de Mons. Lefebvre, eram muito católicas. A mãe da senhora Lefebvre, por exemplo, exalou seu último suspiro rezando o Credo. Ela também se chamava Gabrielle (Lorthiois), e se casou em 1854 com um industrial da mesma cidade, o Sr. Luís Watine. Para ilustrar mais uma vez a piedade cristã de ambos: o Sr. Wati-
ne foi fiel à Missa cantada do domingo, depois de já ter assistido a missa silenciosa pela manhã, porque havia prometido isso a sua então noiva. Ele assistiu a essa segunda missa durante toda sua vida, unicamente porque havia prometido isso antes de se casar! Foi um santo homem o pai da Sra. Gabrielle.

     Todos os testemunhos dos primeiros anos da Sra. Lefebvre não citam nenhum defeito seu. Nesta época, perto de sua casa, havia uma ordem religiosa, as filhas da sabedoria, que dirigiam um importante internato. Ela foi externa nele, voltava à sua casa para as refeições e para dormir. Sua professora, a Irmã Marie-Louise, nos deu seu testemunho (é um sacerdote, um bom sacerdote, que escreve sua biografia e que nos dá esse relato) e diz isto: “ela era uma pessoa muito piedosa, mas era 
uma piedade junto com atos e não somente com a oração. Ela foi um modelo de moça católica”. Se pode dizer também que ela era a menina do dever: primeiro estava o dever, a coisa mais importante, o que devia fazer diante de Deus. Então, desde criança, pensava que tinha vocação religiosa, mas veremos isso depois. Era muito inteligente, muito capaz para música e estava entre as primeiras de sua classe na escola.
    Todas as manhãs sua mãe, a Sra. Watine, antes de ir à missa das sete horas da manhã junto com seu marido, passava nos quartos das crianças para oferecerem a Deus o dia. Na refeição do meio dia e da noite diziam o bendizei e as graças.
No fim de cada dia recitavam a oração em comum. A preocupação constante e mais essencial dos pais era formar seus filhos na vida cristã. Duas tias de Gabrielle eram religiosas, uma tinha uma saúde muito frágil, Maria Clotilde, e a outra se ocupava dos idosos. Gabrielle era muito alegre entre as crianças, sempre haviam muitos sorrisos. Sua mãe sempre visitava as famílias dos funcionários da empresa de seu marido e também os pobres da Confraria de São Vicente de Paulo. Foi deste modo 
que ela pode conhecer bem essas famílias pobres. Certa vez foi visitar sua tia, a Irmã Ambroisine, que se ocupava dos idosos e idosas, e lhe ajudou nesta oportunidade a  cuidar deles. Com a idade de 16 anos foi a um internato com outras irmãs, as Bernardinas d’Esquermes, em Lille, uma cidade 
grande (são três cidades quase juntas). Então, deixou a casa por um tempo. Também se ocupava de concertar paramentos para as igrejas pobres. A conheciam como  moça do dever, sempre agradável e com tudo em ordem em seu trabalho e em sua maneira de vestir, etc. Algumas companheiras suas dessa época dizem que ela sempre tinha a mesma maneira de ser, constante: alegre, tranquila, não havia mudanças em seu estado de espírito. 
Agradável para todos, modesta e delicada. 
Parece difícil, não? Mas é assim. Não se podia encontrar nenhuma reprovação. Também fazia passeios com a família e certa vez fizeram uma peregrinação caminhando ao longo de 45 km até uma Igreja de Nossa Senhora do Bom Socorro, na Fronteira com a Bélgica.
     Todos os dias podiam fazer um passeio, caminhando nos bosques. Apreciava a natureza e tinha uma coleção de plantas, ervas. Gostava muito das estrelas, de astronomia e ensinava sua irmã como elas se chamavam. Haviam três irmãos mais novos que Gabrielle e três mais velhos, sendo que a criança que vinha após ela era uma menina. Ela se admirava de tudo na natureza, uma pequena flor, por exemplo, que mostrava a seus irmãos. Uma vez visitaram uma catarata do rio Reno, que também a impressionou.
     Teve grandes amizades durante os três anos de pensionato. Esteve um tempo na Inglaterra (muitas vezes os jovens da França vão passar 3 ou 4 semanas, durante o verão, na Inglaterra, para aprender inglês). Quando estava lá, em uma casa de família, não queria falar uma só palavra de francês, para aprender seriamente o inglês. Tinha caráter. Em discussões de idéias, que conduzia com animação, ela afirmava o que pensava, sem diminuir nada, simplesmente dizia as coisas como são e nada mais. Tinha seu caráter. Quando ela voltou à casa, uma religiosa, Irmã Maria Luisa, disse à uma ex-
aluna: “Vais casar com o irmão de Gabrielle Watine. Eu não o conheço, mas ela é a pessoa mais fiel que encontrei em minha vida. Ela é perfeita em tudo.”
     Seu diretor, que depois foi bispo, não lhe aconselhou ser religiosa, como ela gostaria, pois pensava que sua vocação deveria ser o matrimônio. Com o tempo, um sacerdote amigo da família, apresentou-a ao rapaz René Lefebvre, que será o pai de Monsenhor Lefebvre. O pai pertencia a uma família muito honrada e muito católica, que também trabalhava na indústria têxtil. Chamavam sua mãe de “a boa senhora Lefebvre”, pois ajudava aos pobres e fazia parte da ordem terceira Franciscana. Não só a mãe como também a avó. René igualmente pensou em seguir a vocação religiosa, assim  como no caso dos pais de Santa Teresinha. Mas a mãe pediu a um padre para que ele se ocupasse de encontrar uma esposa para seu filho. O matrimônio ocorreu em 16 de abril de 1902. A viagem de lua-de-mel foi em Lourdes, Mônaco, Roma, Suíça, na selva negra, na Alemanha, e outros. Depois se instalaram, por seis anos, em uma casa em Tourcoing e durante este período cinco filhos vieram, para a alegria da senhora. A principal preocupação era formar os meninos como bons cristãos. Então iam à missa, 
claro, mas também a Vésperas e a Adoração ao Santíssimo no domingo à tarde. Eles muitas vezes visitavam conventos: o Carmelo, os beneditinos de Maredsous e também no Monastério de Santa Clara.
     Sr. Lefebvre trabalhava na fábrica e a mamãe na casa e, à noite, durante o descanso  o pai tocava violino, com talento, e a senhora piano. Durante as férias de verão, ele iam a uma praia belga para respirar os ares do mar e também praticar um pouco de remo. 
Bom, são países bastante frios, não se pode esquecer isso. Nessa época quando as pessoas iam se banhar, iam completamente vestidas! Mas era um período de descanso com muita areia branca, com toda a família reunida e, claro, sempre vigiados pelos pais.
    Chegou então a guerra de 1914, Guerra Mundial, com a invasão dos inimigos da França, os
alemães, que prontamente invadiram todo o norte da França. Foi assim que a família Lefebvre se encontrou debaixo da ocupação alemã. Mas, como era pai de seis crianças, o Sr. Lefebvre não foi mobilizado, não ingressou no exército, e ele e sua esposa se ocuparam muito dos feridos da guerra em hospitais improvisados. Porém, o Sr. René, muito patriótico, queria se alistar e para tal teve que sair do país (com certeza clandestinamente), controlado pelos alemães, até o sul da França para aí ingressar no exército e poder lutar na guerra. Claro, com muito sacrifício para a família, pois a mãe se viu só com as crianças. Mons. Lefebvre me contava que na escola lhe custava escrever porque tinha os dedos inchados pelo frio, além de falta de ar, e que recebiam carregamentos de coelhos já meio podres e tinham que se alimentar com isso. Além de escutarem bombardeios, durante o dia e a noite, sem parar, durante 4 anos.
     Eles dividiram a casa com alemães, pois tinham que deixar parte dela para eles habitarem. Neste caso eram mulheres (diaconisas protestantes), pois era uma casa com uma senhora e crianças. Se nota, todavia, que havia alguma discrição, por parte dos alemães. Não existia, contudo, nenhuma amizade. A Sra. Gabrielle havia deixado os quartos da parte de cima da casa para uso das alemães, e estes deveriam estar mobiliados, porém a senhora se recusou a isso e não lhes deixou nada. O Sr. René volta finalmente à casa e nasce o oitavo filho, Maria Teresa. Depois da guerra veio um período difícil para os negócios e a fábrica da família quase teve de fechar. A Sra. Lefebvre trabalhava na 
contabilidade e foram anos muito difíceis, pode-se dizer com certa pobreza. Antes de morrer (pouco depois da 2a Guerra Mundial) a Sra. disse a seu marido: “Tu serás muito rodeado (disse isso ao momento de morrer), depois ficará só e um pouco de tempo mais nos encontraremos em uma grande felicidade”. E assim se deu, pois o Sr. Lefebvre foi preso pelos alemãs na 2a Guerra Mundial, em 1941, e esteve em um campo de concentração. Primeiro nos cárceres de Bruxelas, onde foi acusado de resistência, o que é em parte certo, pois estava espionando os alemães. Foi então descoberto e preso, e finalmente morreu em um campo de concentração.

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