sábado, 30 de janeiro de 2016

Gabrielle Lefebvre: Uma mãe de família - Parte II


     Dois de seus filhos foram missionários do Espírito Santo (um deles Mons. Lefebvre) e três filhas religiosas, uma na Congregação de Maria Reparadora, a segunda nas Irmãs Missionárias do Espírito Santo e a terceira no Carmelo (esta fundou vários conventos, inclusive quando adveio a crise da Igreja, fez cinco fundações). Aí se vê o resultado da educação recebida, educação com exemplos de uma vida católica perfeita, e não somente com palavras. O senhor Lefebvre era um pouco severo e a mãe, claro, era a responsável por equilibrar as coisas. A Sra. Lefebvre dizia aos meninos, quando tinha que vencer uma obstinação: “Jesus ficará contente”, “Deus quer que tu faças isso”; e para obter um sacrifício buscava o caminho do coração: “Aí estão almas para salvar ou para conservar (no caso de enfermos)”, etc. E assim conseguia que as crianças fizessem pequenos sacrifícios. Quando tinha que fazer uma reprovação evitava humilhar as crianças, tratava de encontrar uma maneira de dizer as coisas de uma forma relativamente amável, para evitar a humilhação. Também estimulava os filhos para se corrigirem uns aos outros, mas sempre amavelmente. Quando se fazia necessário castigar, a punição era exemplar. Um dos meninos, se recordou durante toda sua vida, de uma forte bofetada que recebeu depois de ter dito uma mentira diante de sua mãe. Nele ficou gravado para sempre o respeito à verdade.
    Como o ócio é a mãe de todos os vícios, a Sra. Lefebvre estava sempre preocupada que as crianças tivessem o que fazer (jogar, por exemplo) e havia que se encontrar ocupações interessantes para eles. Às vezes, ela também participava de suas recreações. Era muito útil para as crianças as férias de verão perto do mar, porém não há relatos de que nadavam (pois a água era muito gelada e geralmente, não faz muito calor, mesmo no verão).
     Em princípio, na escola, ela sempre estava do lado dos professores. Quando havia alguma injustiça, depois falava com as autoridades, mas diante dos meninos nunca tomava a defesa deles. 
Eram obrigações importantes das crianças a missa e a comunhão de cada dia. Ela mesma acordava os meninos fazendo-lhes um sinal da cruz na fronte. Quando iam para as férias nas montanhas, a Sra. Lefebvre não permitia que se deixasse a comunhão para ir admirar o nascer do sol. Primeiro a comunhão. Todas as noites havia também a oração em comum seguida da benção dos meninos. Durante o tempo do Advento, diante do Presépio, cada criança tinha uma “caixinha” com um cordeiro e uma pequena vela. Se o comportamento naquele dia fosse bom, a criança podia avançar com sua “caixinha” para mais perto do Menino Jesus. No final desta pequena “cerimônia” rezavam e cantavam alguns cânticos. É muito importante ensinar as crianças a cantar!  Na Natal, os filhos, desde a idade dos cinco anos, tinham que assistir às três missas do dia (e isso num frio tremendo, em pleno inverno). Nestas ocasiões, às vezes, deixavam o filho mais novo em casa, sozinho, sob a custódia do seu Anjo da Guarda.
    A mãe sempre buscava o que era a vontade divina para eles, não se preocupava com suas vocações, deixava isso para Deus.  Dizia ela em uma carta a uma de suas filhas que estava interna com as Irmãs Bernardinas do Bom Socorro : “A vocação religiosa é mais elevada e é objeto de graças particulares do bom Deus. A vocação do matrimônio é menos perfeita, e em si mesma, menos santificante. Enquanto as almas religiosas acham em tudo alimento para sua piedade, ao contrário, a alma piedosa, mas que vive no mundo, encontra, frequentemente, vezes ao redor dela elementos contrários, o que dificulta muitas vezes a piedade. Porém, o bom Deus não chama a todos à vida religiosa e uma pessoa pode ser santa em qualquer estado de vida que escolha.” Dizia que não havia que se preocupar: “Eu vou fazer tal coisa” ou “Eu vou casar”. Dizia que não há que se pensar nessas coisas, senão pouco a pouco. É o bom Deus que decidirá por um sentido ou por outro. Ela escreveu essa carta em 1922.
    Curiosamente, para apoiar seu filho mais velho, que acabava de receber a batina, ela também quis romper com os laços do mundo, e sem se importar com o que diziam os outros, passou a se vestir de preto. Mais tarde, inclusive, ela se esforçará para rezar o breviário, para imitar seus filhos, como ela dizia. As filhas, que tinham vocação, se preparavam já em casa, antes de entrarem no noviciado. 
Em um período de dificuldades e desolações disse a uma delas: “Agora sim está começando o seu Noviciado, tens que pensar em uma coisa: trate de ser como Jesus.” Como disse São Paulo, um outro Cristo.
    Encontrou-se duzentas cartas da senhora Gabrielle, inclusive algumas bem extensas, então se calcula que escreveu, provavelmente, um total de mil cartas, a seus filhos, tias, parentes, etc. E, claro, seguiu escrevendo a seus três filhos missionários (dois homens e uma mulher) e às duas religiosas, porém tinha pouco tempo, devido ao muito trabalho: a fábrica seguia funcionando, tinha parte na contabilidade, além de se ocupar dos afazeres domésticos, dos meninos. Enfim, quando acabou de escrever uma de suas cartas, já beirando a meia noite, disse “Começo pelo fim”, devido ao horário. E se levantava muito cedo, às 4h30m. Eram vidas realmente exemplares. Assim podemos ver que quando aparece um santo, como Monsenhor Lefebvre, há sido preparado por gerações de esforços, sacrifícios, orações.

A vida espiritual e sua morte

     Depois de uma confissão geral feita em 1909, a Sra. Gabrielle escreveu uma carta dizendo que Deus a tinha cumulado de favores quando era menina e moça, mas ao fim de sua vida muito mais. E há várias frases que parecem indicar, com descrição, que tinha uma ferida no coração, que era, na realidade, estigmatizada (não disse contudo que era visível ou aparente). Teve durante vinte anos os conselhos de um padre santo, muito eslarecido na direção espiritual, Pe. Huré. Eu espero que o livri-
nho (Nota: “Une mère de famille, do R. P. Louis Le Crom, de onde Mons. retirou a maior parte das informações desta entrevista) seja traduzido, pois conta a vida de uma santa vivendo no mundo, como uma mãe de família. Diz o padre Huré em uma carta à Gabrielle: “O que ocorreu ontem pela manhã e que provocou vosso grito é revelador. Não ao menos digo que vós me escrevas acerca das cicatrizes da Cruz”. Tudo isso parece indicar que ela era realmente estigmatizada. Termina a carta dizendo: “A crucificação vai até seu cumprimento, seu término”. Essas frases são alusões, porém falando sobre “cicatrizes da cruz”, “crucificação”, “parecido extraordinário com Jesus”, de “estigmas”, inclusive, e também sobre a “chaga do coração”, parece bastante claro e provável este fato. Se encontra aqui a grande influência de Santa Tereza de Ávila, de quem ela havia meditado muitas vezes a vida e os escritos.
     Sempre fazer o que parecia ser mais agradável a Deus, esta era a regra. Também foi encontrada em seus papéis a cópia de uma página de São Luiz Maria Grignion de Montfort, sobre o voto  da santa escravidão e da Consagração total à Santíssima Virgem e esta frase: “Fazer as pequenas coisas, assim com as grandes, a causa da majestade de Nosso Senhor, pois Ele mesmo as fez para nós, Ele que vive a nossa vida.” Fez um voto de manter a pureza perfeita da alma, com a graça de Deus, em 08 de março de 1918: “Oh, Jesus, eu, sua esposa, querendo pertencer mais a Vós, e guardar minha alma livre de toda a servidão, segundo as inspirações do Espírito Santo, o qual obedeci no passado, confiando em minha Mãe e por obediência, faço hoje o voto perpétuo de pureza perfeita. Renuncio os meus direitos e minha vontade à toda satisfação natural. Só a obediência poderá diminuir este voto de puro amor. Oh, Jesus, já não pertenço a mim e sim a Ti. Tu és minha vida.”
      Assim que é importante ver seu caráter direito, leal da consciência, fundado sobre o equilíbrio do temperamento, que também se encontrava em Mons. Lefebvre, esse equilíbrio perfeito de todas as virtudes. Sensível na obediência, grande confiança no diretor espiritual, que lhe havia convidado a fazer esses votos. Assim que as características de sua vida espiritual eram uma fé viva, um ardente amor para com Jesus e uma devoção filial à Santíssima Virgem. Religava tudo à Deus: “O que pensa Deus disso?”. E dizia sempre “Deus faz bem tudo o que faz” e isso lhe deixava com uma perfeita serenidade. Dizia, como mãe, “o bom Deus nos dá, com nossos filhos, riquezas espirituais”. “Para as almas que buscam sua perfeição é necessário que tenham não somente a fé, porém que vivam de sua fé. Seus olhos devem sobrepassar o horizonte do tempo e ver acima das coisas passageiras, as que permanecem. Há duas formas para isso, primeiro, colocar-se acima dos eventos, e nas penas e obscuridades deste mundo, tratar de ver as alegrias do paraíso; segundo, não considerar as dificuldades, os sofrimentos em si mesmos, senão dentro da providência e da vontade de Deus que nos ordena essas penas. São Francisco de Sales disse que então elas (as almas) se tornam infinitamente amáveis”.
     Para ela, Deus não era um ser abstrato e sim alguém que havia ganhado sua confiança. A fé a fez ver Deus em seus diretores. Perfeita obediência às suas decisões, grande docilidade em seguir seus conselhos, mesmo em questões que não diziam respeito, imediatamente, à sua santificação. Sem embargo, ela não foi uma mística “nas nuvens”, possuía um temperamento perfeitamente equilibrado, muito enraizado, no bom sentido, na realidade, no sentido comum. Disse uma de suas filhas a seu respeito: “Os dons da graça que Deus lhe concedeu foram maravilhosamente apoiados pelos dons da natureza: um juízo seguro, um espírito direito, com muita energia, e um domínio de si mesma pouco comum. Uma alma alegre, de uma grande delicadeza, vibrante, que sabia unir a liberdade com a doçura e possuía essa medida do justo meio”. Essas palavras poderiam definir Mons. Lefebvre. Sua fé sensível, luminosa, era comunicativa. Dizia uma terciária (franciscana): “Nunca a vi sem sentir em mim um grande desejo de aperfeiçoamento.” E muitas outras pessoas sentiram isso ao vê-la, queriam ser melhores.
     Ela esteve em Roma e na volta quis passar por Assis (pois era terciária franciscana), a cidade de São Francisco, e se admirou muito. Até mesmo seu diretor admirava a perfeição de sua alma.  Disse, em setembro de 1909, por ocasião de uma ida a Lourdes, “que nada me tire do sobrenatural, onde quero permanecer.” A grande paixão de sua alma foi o amor de Jesus. Em união com seus filhos religiosos ela rezava todos os dias a oração seguinte: "Eu quisera dizer em cada minuto, em cada segundo, eternamente, oh! Jesus meu, vos amo, e que assim eu faça dia e noite, nos momentos difíceis e também nos mais fervorosos.” Entrega total à Nosso Senhor.
   Sofreu bastante no fim de sua vida e pouco antes de morrer, no último dia, disse com muita alegria: “Que feliz estou de comungar assim.” (Celebrou-se a missa em sua casa e estava rodeada dos filhos e marido). Depois disse aos três filhos mais novos, que estavam ao redor da cama da mãe, pensando em seus futuros: “Meus filhos, quer seja na vida do matrimônio ou na vida religiosa, façam tudo para comprazer ao bom Deus. Desde o Céu eu serei mais presente do que fui sobre à terra e eu os ajudarei. Filhos meus, não sou irmã Teresa do Menino Jesus, porém tudo o que me pedires na oração eu lhes conseguirei”. E se voltando para seu marido: "Para ti também, René”. À um irmão dela disse: “Creio que vou ao Céu.” E a outro: “Estão me chamando no Paraíso.” Também disse em seus últimos momentos: “ Não vou morrer agora. Vou descansar até as 17 horas. Depois me vou.” E assim foi.

 Assim que se vê realmente uma vida extraordinária!

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