quinta-feira, 25 de fevereiro de 2016

É mister sofrer tudo para agradar a Deus

 
Caritas patiens est... omnia suffert... omnia sustinet — “A caridade é paciente... tudo sofre... tudo suporta” (1 Cor. 13, 4).

Sumário. Para se tornarem agradáveis a Deus, os santos desapossaram-se de seus bens, renunciaram às mais altas dignidades da terra e acolheram como tesouros as enfermidades, as perseguições, e despojamento de tudo, e a morte mais dolorosa e triste. E que fazemos nós para um fim tão sublime? Ó miséria! Recusamo-nos até a sofrer com paciência um leve incômodo, uma pequena contrariedade, um desprezo, uma palavra mordaz. Quão diferentes dos santos somos nós!

I. A maior preocupação, para não dizer única, dos santos foi: desejarem com todo o afeto sofrer por amor de Deus todo o trabalho, todo o desprezo e toda a dor a fim de tornarem-se desta sorte agradáveis ao Coração divino que tanto merece ser amado e tanto nos ama. — Com efeito, toda a perfeição e todo o amor de uma alma para com Deus consiste em sempre procurar o agrado de Deus e fazer o que mais Lhe agrada. Ó feliz de quem sempre pudesse dizer com Jesus Cristo: Ego quae placita sunt ei facio semper (1) — “Eu faço sempre o que Lhe agrada.
Que honra mais sublime, que consolação maior pode ter uma alma, do que fazer qualquer trabalho, ou aceitar alguma pena, alguma enfermidade, com o pensamento de dar assim gosto a Deus? Temos sobeja obrigação de dar gosto ao Deus que nos amou tanto, nos deu tudo o que possuímos, e, não satisfeito com dar-nos tantos bens, chegou a dar-se a si mesmo, primeiro sobre a cruz, na qual morreu por nosso amor, e depois no Santíssimo Sacramento do altar, no qual se nos dá todo inteiro pela santa comunhão, de sorte que não Lhe resta mais nada para dar.

Para se tornarem agradáveis a Deus, os santos não souberam que fazer. Quantos jovens não deixaram o mundo para se darem inteiramente ao Senhor! Quantas donzelas, mesmo de estirpe régia, não renunciaram consórcios com os personagens mais altos, para se encerrarem num convento! Quantos anacoretas não se internaram no fundo dos desertos ou em espeluncas, para pensarem somente em Deus! Ainda para darem gosto a Deus, quantos mártires não aceitaram os açoites, os ferros em brasa e os tormentos mais cruéis dos tiranos! Numa palavra, por amor de Deus, os santos desapossaram-se de seus bens, renunciaram às dignidades mais altas da terra, e acolheram, como se fossem tesouros, as enfermidades, as perseguições, o despojamento de tudo e a morte mais dolorosa e triste. E para um fim tão sublime nós nos recusaremos a sofrer com paciência um leve incômodo, uma pequena contrariedade, um desprezo, uma palavra mordaz?

II. Se temos verdadeiro amor a Deus, devemos preferir a sua satisfação à aquisição de todas as riquezas, das glórias mais altas e de todas as delícias da terra e mesmo do paraíso. Pôs-nos o Senhor neste mundo a fim de que nos apliquemos a agradar-Lhe e promover a sua glória. O beneplácito de Deus deve, pois, ser o único alvo de todos os nossos desejos, de todos os nossos pensamentos e obras. Com efeito, é bem digno de ser contentado em todas as coisas o Coração de Deus, que tanto nos ama e é tão solícito por nosso bem.

Ó meu Senhor, como foi possível que eu, ingrato, em vez de Vos dar gosto, Vos tenha causado tantos desgostos? Mas o horror que me inspirais das ofensas que Vos fiz, me faz esperar que me queirais perdoar. Perdoai-me e não permitais que torne a ser ingrato para convosco. Ah, meu Jesus, oxalá nunca Vos tivesse ofendido! Se pudesse nascer outra vez, quisera amar-Vos sempre! Mas o que foi feito, já se não pode desfazer. O que posso fazer é consagrar-Vos toda a vida que me resta. Eu Vô-la dou toda e me consagro todo a vosso amor. Afetos terrestres, saí do meu coração, cedei o lugar a meu Deus, que o quer possuir todo. — Sim, possui-me todo, ó meu Redentor, meu amor, meu Deus. Daqui por diante não quero pensar senão em Vos agradar; ajudai-me com a vossa graça; a minha esperança está em vossos méritos. Aumentai em mim cada vez mais o vosso amor e o desejo de Vos dar gosto. Fazei com que eu vença tudo para Vos agradar. In te, Domine, speravi, non confundar in aeternum (2) — “Em ti, Senhor, esperei, eternamente não serei confundido”. — Ó Rainha do céu e minha Mãe Maria, atraí-me todo para Jesus Cristo. (II 303.)

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1. Io. 8, 29.
2. Ps. 30, 1.

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano, 1921, p. 32-34.)

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