quarta-feira, 10 de fevereiro de 2016

Meditações para a Quaresma: O TEMPO.


O TEMPO.

I - O que ele é.

1º Nada em si mesmo, uma sombra, um instante rápido, inapreensível, que morre apenas nasceu, uma nada.

2º Tudo, se o encararmos em relação à eternidade. "Ele vale tanto quanto Deus"(S. Bernardo)*. É a moeda com que podemos comprar a eternidade.

3º "Esse velho surdo e cego que anda sempre e sempre com o mesmo passo é o tempo. Com movimento uniforme que jamais diminui, que jamais se acelera, ele arrasta os mortais. Aquele que tem desejos clama-lhe: 'Alto lá!'. Aquele que vai morrer pede-lhe que pare ainda que só um segundo, ele passa; os homens e os mundos passam com ele, afundem-se e perdem-se nas profundezas tenebrosas que olho algum jamais sondou e de onde não sai nenhuma voz". (Lamenais).

4º Rio rápido, mas que secará, carregado de todos os seres vivos, ele os carrega em confusão através das regiões desconhecidas, e atira-os, aqui e acolá, sobre as suas margens.

5º Vasta mortalha que nos envolve a todos para nos depositar lá em cima, sobre outras margens; é como um imenso véu estendido diante da Eternidade que no-la oculta.

II - Suas características.

Ele é:
1º Precioso: Conhece-se o valor de uma coisa medindo o que ela custou e o que ela pode valer. Por causa da queda de Adão e da Redenção que nos reabriu o Céu, o tempo custou o sangue de um Deus. Pode-se, pois, dizer que ele vale o Céu; um minuto, um grito de arrependimento bastam para apagar uma vida inteira de pecados e merecer-nos o Céu. Como também um minuto basta para pecarmos mortalmente e nos perdermos. Se os condenados tivessem uma hora para se arrependerem, o Inferno seria evacuado num instante!...


Assim sendo, por que desperdiçamos o tempo com a despreocupação de uma criança que desfolha uma rosa? Por que querermos "matar o tempo"? Não é, antes, ele que nos mata? Que diríeis de um homem que, tendo uma soma de dinheiro, se divertisse, como uma criança, em perdê-la ou fazê-la boiar na água? Cada minuto nos brada: leva-me em conta, pois Deus me levou em conta para sua glória e para tua felicidade. Leva-me em conta, pois te estou emprestado, e deverás dar a Deus conta deste minuto que Ele te dá. O tempo perdido tem suas vinganças; seu aguilhão será terrível no ocaso da vida. Sim, o tempo é precioso, infinitamente precioso: cada momento contém Deus! Façamos, pois, cada um dos nossos instantes render o seu máximo de valor e de eternidade.

2º Rápido: Que são mil anos em face da insondável Eternidade? Ontem eu não existia! Amanhã não existirei mais! Um momento chegará que, para nós, o tempo terá passado, e nós teremos passado com ele. O passado não mais existe. O futuro só a Deus pertence, e o presente, esse ponto imperceptível, inapreciável, que desaparece mal de mostra, para se tornar passado, é, então, todo nosso? Esse resvalar do minuto sob o ponteiro do relógio é a usura da nossa vida que não sentimos. O tempo? mas é o riachozinho que nasce muito perto de nós e que vai estancar-se um pouco mais adiante. Margeamos-lo, distraídos; mas tornaremos a encontrá-lo na imensa eternidade. Vejo passar outros diante de mim... outros me olham passar. Quanto tempo há em que eu não existia! Ah! Quão pouco lugar eu ocupo no abismo dos anos! Cada hora que soa é uma gota do tempo que cai, que resvala, que passa e se vai para não mais voltar!

3º Irreparável: É este um dos seus característicos mais graves: a hora decorrida evola-se, cheia do bem ou do mal que nela pusemos. Já não pensamos nela. Porém, ela nos aguarda, lá em cima, tal como a fizemos, e lá em cima é que seremos julgados. "Insensato -- exclama Lamenais -- o dia de hoje cava a tua tumba, e o dia de amanhã é a eternidade!". Não podemos voltar atrás, nem retornar ao caminho que havemos seguido. Temos de andar; nem sequer podemos parar no caminho. Vai, vai, pois! De que serves querer parar? Nada de "nos mesmo lugar" na estrada da vida! E, durante o caminho, depende de nós fazer tal coisa; uma vez feita, está irreparavelmente feita. Pecar passa; haver pecado não passa. Davi pôs pouco tempo em cometer a sua falta, e longa foi a sua penitência; no entanto, falar-se-á sempre do seu adultério e do seu homicídio. Sim, o tempo passa, e foge... foge irreparavelmente, levando espetado em si mesmo o bem ou o mal que tivermos feito. Esquecemo-nos fatalmente disto. Mas, um dia, tornarão a nos falar disto lá em cima!


III - Que fazer do nosso tempo. 

1º Não perdê-lo: ele é por demais precioso. Se pudesse haver pesares no Céu, os bem-aventurados sentiriam pesar do tempo que perderam... Quanto aos condenados, é essa uma de suas dores mais pungentes; um minuto ter-lhes-ia bastado para merecer o Céu! Não sejamos o servo de que fala o Evangelho, o qual , em vez de fazer frutificar o seu talento, enterra-o "para não o perder", dizia ele... Por isto, ele foi lançado nas "trevas exteriores". Deitai um olhar aos vossos dias... Nunca perdestes tempo?... Perdê-lo é abusar dos dons de Deus, é desprezar suas graças, é preparar para si mesmo remorsos acerbos; é, talvez, comprometer a própria salvação.

2º Não o matar: Primeiramente, não se pode matar o tempo. É ele quem se vinga, visto que todas as horas nos ferem e que a última nos mata. 

3º Aproveitá-lo para adquirir méritos, para trabalhar na própria salvação, para fazer bem, para salvar as almas, para santificar-se. Então, ele já não será "prata", porém ouro. Colheremos lá em cima aquilo que tivermos semeado neste mundo. 

4º Empregá-lo bem -- desperdiçamo-lo ou não fazendo nada -- ou fazendo o mal -- ou fazendo mal o bem que temos que fazer -- ou fazendo maquinalmente coisas indiferentes (comer, beber, trabalhar), quando, fazendo-as para Deus, podemos merecer tanto! -- ou fazendo boas ações, porém, fora do próprio dever -- fazendo o bem que Deus não pede e descurando aquilo que Deus nos pede. Tudo o que não é feito para Deus é perdido para nós.

5º Trabalhar para Deus -- esteja Deus nos dois extremos das nossas ações, como princípio e como fim. -- Só está "feito" aquilo que é feito para Deus. Nas nossas ações, o Senhor olha mais aos advérbios do que aos verbos; olha não tanto o que fazemos quanto ao grau de amor que pusemos em fazê-lo. 

6º Regulá-lo: Será duplicá-lo, multiplicá-lo. Quanto tempo desperdiçamos por não sabermos fixar um regulamento de vida! Se deixarmos ao capricho, desperdiçamos o tempo, deitamos a perder a nossa vida.

7º Viver dia por dia: O amanhã não nos pertence. "Não cuidemos do amanhã, pensemos somente em fazer o bem hoje; quando o dia de amanhã houver chegado, ainda se chamará hoje, e, então, pensaremos nele. Devemos fazer previsão do maná para cada dia, e não mais" (São Francisco de Sales).


* São Bernardo quer dizer que, com o bom uso do tempo para a nossa salvação, poderemos obter Deus, a eternidade do Céu. 



Fonte: "Meditações para o Retiro do Mês", Padre José Baeteman. 




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