sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

O PECADO E O PECADOR FORMAM UM SÓ – NÃO EXISTE PECADO ETÉREO, NO MUNDO DAS NUVENS INCREPA ILLOS DURE (São Paulo)


Alguns entendem a frase de Santo Agostinho – “Odiai o pecado, amai o pecador” — numa acepção eivada de liberalismo e de sentimentalismo relativista. De fato, em que sentido compete amar o pecador? No sentido em que desejamos a cada qual que obtenha a salvação eterna, isto é, a posse do Bem absoluto, que é Deus, ou de tudo que seja em ordem à Deus. Isso significa amar, ou seja, QUERER O BEM. Eis porque os termos caridade e severidade, de si, não são necessariamente antitéticos (opostos). Afirma Santo Tomás de Aquino: “Pertence, com efeito, ao que aceita um dos termos contrários refutar o outro, como, por exemplo, acontece na medicina: esta trata da saúde e afasta a doença.” (Suma Contra os Gentios. Livro I. Cap. I). Santo Tomás explica que amar é querer bem, ressaltando existirem duas espécies de bem: 1) o Bem Absoluto, que é Deus; 2) os bens relativos, que são todos os demais bens contingentes (vida, saúde, bem estar, riqueza, prazer, talentos, prestigio, etc..); no tocante a estes, podemos fazer bom ou mau uso. Odiar é desejar a alguém que perca um bem. Quando se deseja que a pessoa perca a Deus, ou se afaste de Deus (ou de algo que Lhe seja afim), por meio da perda da Fé ou da virtude, tem-se por essa pessoa um ódio absoluto, o que é pecado. Quando se deseja que alguém perca algum bem relativo, e que também perca a Deus (ou de algo que Lhe seja afim), esse ódio é pecaminoso porque inclui a perda ou privação da graça de Deus (ou de algo que lhe seja afim), juntamente com a perda de um bem relativo. Contudo, o oposto também é verdadeiro, embora não seja comumente posto no devido realce.
Nessa linha de raciocínio, constitui pecado desejar a alguém que obtenha a posse de algum bem relativo (riqueza ou prazer, por exemplo), mesmo que daí decorra a perda e o afastamento de Deus (ou de algo que lhe seja afim). O que, em relação a outro, manifesta essa disposição de alma, revela ter pelo mesmo, de um lado, amor relativo, ao desejar que o próximo obtenha um bem relativo (isto é, riqueza, prazer, entre outros); MAS, de outro lado, ESSE AMOR RELATIVO PODE VIR CONJUGADO COM UM ÓDIO ABSOLUTO, UMA VEZ PREVENDO OU CONHECENDO QUE A POSSE DESSE BEM RELATIVO, POR PARTE DO OUTRO, SERÁ OBTIDA MEDIANTE A PERDA DO BEM ABSOLUTO, QUE É DEUS (OU DE TUDO QUE LHE SEJA AFIM). A contrario sensu, o que deseja a alguém a perda de um bem relativo (ódio relativo), com o objetivo de preservar a determinada pessoa a posse do Bem absoluto (ou de tudo que lhe seja afim), esse age com caridade. É, figurativamente, o caso do pai ou do professor que pune o menino porque procedeu mal. Agindo dessa forma, faz-lhe sentir (digamos, pelo recurso didático de uma palmada), que deve corrigir-se. Neste caso, produzindo um mal relativo — por exemplo, a dor —, concorre para que o menino adquira ou conserve a posse do Bem Absoluto (que é Deus, ou tudo que lhe seja afim), retificando nele uma má conduta. Objetará alguém: então, odiar, de si, pode não ser pecado? Fornece-nos a resposta, por exemplo, o santo rei David, escrevendo àquele de quem Saul era inimigo: "Por ventura não odiei eu, Senhor, os que te odiavam? E não me consumia por causa de teus inimigos? COM ÓDIO PERFEITO EU OS ODIEI; E ELES SE TORNARAM OS MEUS INIMIGOS." (Ps. CXXXVIII, 21-22). Nos salmos do rei David, consta esta passagem: "Não me sentei na assembleia da vaidade, e não tratarei com os que praticam a iniquidade, e não me sentarei com os ímpios. ABORREÇO A SOCIEDADE DOS MALIGNOS E NÃO ME SENTAREI COM OS ÍMPIOS" (Ps. XXV,4-5). Encontramos passagens similares também no Novo Testamento. Assim, por exemplo, São Paulo, quando diz: "PORQUE HÁ AINDA MUITOS DESOBEDIENTES, VÃOS FALADORES E SEDUTORES, PRINCIPALMENTE ENTRE OS DA CIRCUNCISÃO -- [OS JUDEUS] -- AOS QUAIS É NECESSÁRIO FECHAR A BOCA" (SÃO PAULO, EPÍST. A TITO, I, 10-11). Continua São Paulo: "... [É PRECISO] FECHAR A BOCA, A ELES QUE TRANSTORNAM CASAS INTEIRAS, ENSINANDO O QUE NÃO CONVÉM, POR AMOR DE UM VIL INTERESSE. (... ) PORTANTO, REPREENDE-OS DURAMENTE" - INCREPA ILLOS DURE! " (EP. A TITO, I, 11- 13). *** *** *** A causa do ódio é o amor a um bem. Quanto mais se ama um bem, tanto mais se detesta perdê-lo. Porque amamos a vida, tememos perdê-la; logo, detestamos o que nos leva à morte. Porque amamos a saúde, detestamos a doença. Analogamente, o que ama a verdade, odeia a mentira, assim como o homem virtuoso odeia o vício. E assim por diante. Assim como não há amor sem ódio, também não há admiração sem execração. *** *** *** DEUS QUER SALVAR A TODOS. ESTÁ DITO, PORÉM: "AINDA QUE PISASSES O ESTULTO NUM PILÃO, COMO SE PISAM OS GRÃOS DE CEVADA, NÃO SEPARARIAS DELE A SUA ESTULTÍCIA". (PROV. XXVII, 22). NO MESMO SENTIDO, "DEUS ODEIA IGUALMENTE O ÍMPIO E A SUA IMPIEDADE." (SAB. XIV, 9 ) Jesus Cristo, convidado por um fariseu a comer em sua casa acusou os fariseus de hipócritas e de serpentes. Quando um Doutor da Lei reclamou dizendo: “Mestre, falando assim, também ofendes a nós, Doutores da Lei” (Luc. XI, 52), Nosso Senhor teve a seguinte réplica: “Malditos vós também, Doutores da Lei” (Luc. XI, 52). Observe-se que, mediante as palavras dirigidas a São Pedro (“Afasta-te de mim, Satanás”), Nosso Senhor faz entender que, mesmo quando bem intencionada, uma pessoa pode sugerir algo de mau ou de errado. Em tal caso, estará “fazendo o jogo”, por assim dizer, ou exercendo o papel de Satanás.

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