sexta-feira, 19 de fevereiro de 2016

Para beleza da natureza humana Deus concedeu à vontade o governo de todas as faculdades da alma




A unidade na variedade é a ordem; a ordem produz a conveniência e a proporção, e a conveniência no todo constitui a beleza. Um exército é belo, quando os soldados estão por tal modo colocados em sua ordem, que fazem um só exército. Para que uma música seja bela, não é somente necessárío que as vozes sejam sonoras, claras e bem distin­tas, mas que se aliem por tal forma umas às outras. que
produzam uma perfeita consonância e harmonia, pela união que existe na distinção, e pela distinção na união das vozes, a que com razão se chama um acordo discordante, ou antes um desacordo concordante.

Ora, como explica muito bem o angélico S. Tomás , depois do grande S. Diniz, a beleza e a bondade, ainda que tenham alguma semelhança, não são uma e mesma coisa: porque bem é o que agrada ao apetite e à vontade; belo o que agrada ao entendimento e ao conhecimento; ou, para me explicar de outra forma, bem é aquilo cujo gozo nos deleita; belo é aquilo cujo conhecimento nos satisfaz. E é por isso que, falando com propriedade, nós não atribuímos a beleza corporal senão aos objetos dos dois sentidos que mais têm por função conhecer e servem mais ao entendimento: os quais são a vista e o ouvido; e assim, alto devemos dizer: belos perfumes ou belos sabores, mas sim: belas vozes e belas cores.


O belo, sendo belo porque o seu conhecimento nos deleita, além da união e da distinção, da integridade, da ordem e da conveniência de suas partes, deve ter muito esplendor e luz, para que seja conhecível e visível As vozes para serem belas, devem ser claras e límpidas, os discursos inteligíveis, as cores brilhantes e resplandecentes: a obscuridade, a sombra, as trevas são feias e desfiguram todas as coisas, porque nelas nada se torna conhecido, nem a distinção, nem a união, nem a conveniência; o que fez dizer a S. Dinis , que Deus, «como soberana beleza, é autor da formosa conveniência, do primor e do esmero que se encontra em todas as coisas, fazendo resplandecer em forma de luz,
as irradiações e divisões do seu raio ''• por meio das quais todas as coisas se tornam belas, querendo para estabelecer a beleza, que em todas houvesse a conveniência, a claridade e a harmonia.

Sem dúvida, Teotimo, a beleza não traduz efeito, é inútil e morta, se a claridade e o esplendor a não avivam, dando-lhe força; eis a razão porque costumamos dizer que as cores são vivas, quando têm brilho. Mas quanto às coisas animadas e vivas, a sua beleza não é completa sem a harmonia, a qual, à conveniência das partes que constitui a perfeição, acrescenta a conveniência dos movimentos, gestos e ações, que são como a alma e a vida da beleza das coisas vivas. Do mesmo modo, na soberana beleza do nosso Deus, reconhecemos a união, ou antes a unidade da essência na distinção das Pessoas, com uma infinita luz, junta à conveniência incompreensível de todas as perfeições das ações e movimentos, contidas mui soberanamente, e, para assim dizer, juntas e reunidas majestosamente na singularíssima e simplicíssima perfeição do puro ato divino, que é Deus mesmo, imutável e invariável, como o demonstraremos noutra parte. 

Deus, pois, querendo tornar todas as coisas boas e belas, reduziu a multidão e a distinção das mesmas a uma perfeita unidade, ordenando-as todas de modo que os seres se sustentem uns aos outros, e todos nele, que é o soberano Monarca. Reduz todos a um corpo, com uma cabeça; de muitas pessoas forma uma família; de muitas famílias uma cidade; de muitas cidades uma província; de muitas províncias um reino, e um reino inteiro obedece a um só rei. Assim também, Teotimo, entre a inumerável multidão e variedade de ações, movimentos, sentimentos, inclinações, hábitos, paixões, faculdades e potências que existem no homem, Deus estabeleceu uma natural supremacia na vontade, que ordena e domina tudo o que está neste pequeno mundo, parecendo ter dito à vontade o que Faraó a José : Tu governarása minha casa; todo o povo obedecerá ao mando da tua voz; e sem tua ordem não moverá ninguém mão nem pé. Esta dominação da vontade realiza-se de formas mui diversas.

(Teotimo, tratado de amor a Deus, Por São Francisco de Sales)


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