quarta-feira, 20 de abril de 2016

A alma simples não procura em nada a sua glória

A alma que se esqueceu de si própria mora no seio de Deus. A sua vida, na sua simplicidade, está cheia de maravilhas, mas escapa à vista do vulgo.

Uma alma inteiramente entregue a Deus é o mesmo que uma alma simples: só tem um olhar, e esse olhar está fixo em Deus. Só tem um móbil, e esse móbil leva-a a Deus em todas as suas ocupações, sem permitir-lhe que se preocupe consigo mesma. É um fluxo constante e sem retorno para o oceano divino.

A simplicidade exclui por natureza o dobrar-se sobre si próprio. A alma entregue a Deus não pensa nas suas boas obras, na pureza da sua vida, nos méritos que acumula. Não se interessa em saber o que pensam dela. Não procura chamar a atenção para a sua pessoa, para os seus atos, nem mesmo para os seus defeitos e faltas. Não procura para si a aprovação, os favores ou a benevolência alheia, porque, nada sendo, nada pode pretender.
A alma que se entregou ama ardentemente o seu divino Mestre. Expressa-Lhe este amor de mil modos diversos e encontra a todo o instante novos meios de agradar-Lhe, pois o amor é engenhoso. Mas este amor também é singelo e exclui quaisquer artifícios.

A alma simples nunca pede a Jesus explicações sobre o modo como Ele a trata. Está nas mãos dEle como o barro nas mãos do oleiro. Nota que o Senhor lhe imprime formas muito singulares, mas pode o vaso dizer a quem o moldou: "Por que me fizeste assim?"

Vê também que os caminhos por onde o divino Guia a leva são impenetráveis, mas quem pode dar conselhos à eterna Sabedoria? Avança destemida sob a Sua direção, sem lançar olhares inquietos para o futuro que desconhece, sem se preocupar com um passado que só em Deus vive.

Só se ocupa com o presente, com entusiasmo, mas sem ansiedade. Sabe que, neste mundo cuja glória passa, todo o trabalho e ocupação é veículo para a glória de Deus. Por isso não faz distinção alguma entre as diversas ocupações que o dever lhe impõe. Tudo é bom para ela, por ser tudo Vontade de Deus.

A simplicidade e o desinteresse dessa alma são muitas vezes objeto de admiração neste mundo, onde tudo  é duplicidade e egoísmo. As pessoas procuram às vezes explorar em proveito próprio essa retidão e simplicidade. Armam-lhe laços e procuram surpreender a sua boa fé. Mas a alma simples, não se tendo em nenhuma conta, vivendo esquecida de si mesma, não é vulnerável às surpresas. Não é com ela que as pessoas lidam, mas com Deus; não é a ela que procuram embaraçar, mas ao próprio Deus.

(O dom de si, vida de abandono em Deus, pelo Pe. Joseph Schrijvers)

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