sexta-feira, 29 de abril de 2016

A Alma Unida

 
Como é que as almas absorvidas na Divindade chegaram ao termo da bem-aventurança? Atravessaram as trevas, caminharam com perseverança durante a noite; procuram pacientemente a verdade e ouviram o Verbo; e guardaram fidelidade às Suas inspirações. «E Jesus, voltando-se para trás, e vendo que o seguiram, disse-lhes: Que buscais? Eles disseram-lhe: Mestre, onde habitas? E ele disse-lhes: Vinde e vede. Foram, e viram onde habitava, e ficaram lá com Ele» (João, I, 38-39).
Elas conversaram com o Filho de Deus: estudaram junto dele. «Senhor, sabemos que sois o Mestre vindo de Deus! (João, III, 2). Aceitaram docilmente a sua doutrina, e a cada uma delas Jesus disse: «Não te maravilhes de eu te dizer: Importa-vos nascer de novo. Se vos tenho falado das coisas terrenas e não me acreditais, como me acreditareis se vos falar das celestes?» (João, III, 7 e 12). Estas almas acreditaram nele; Ele falou-lhes do céu. «O Pai ama o Filho e pôs todas as coisas na sua mão. O que crê no Filho tem a vida eterna» (João, III, 35-36).
Mostrando que queriam fazer o que Ele ordenava, encontraram nele não o rigor dum juiz, mas a delicadeza da misericórdia dum Deus.
Seguiram-no na via dolorosa, às vezes com excessiva solicitude, a maior parte das vezes com demasiada lentidão. Mas nunca deixaram de O seguir. Ele deu-lhes coragem: com suprema delicadeza, ajudou-as nas dificuldades, acompanhando-as em todos os seus passos e mostrando-lhes sempre o caminho. «Pois que, porque ele mesmo sofreu e foi tentado, é que pode socorrer aqueles que são tentados» (Hebr., II, 18).
Elas ouviram as Suas confidências e cumpriram os Seus preceitos, e «permaneceram no seu amor». (João, XV 10). Realizaram as Suas obras, foram purificadas pelo Seu sangue, alimentadas pela Sua carne, santificadas pelo Seu Espírito. Ele desvendou-lhes os Seus segredos, conquistou-lhes o coração, - esse coração que Ele quer receber sem reservas, em troca da pura generosidade do Seu amor. Bastou que Ele lhes abrisse os olhos aos horizontes infinitos do reino na graça, para que elas tomassem consciência de terem recebido tudo. «Recebestes, tudo de graça, dai também de graça!» (Mat., XV, 8).
À medida que o Seu amor se torna mais profundo, compreendem melhor o preço da fidelidade. Que imensa perda se o coração se desvia um momento de Deus e despreza a Sua bondade. Que ofensa para Ele e que prejuízo para o homem! Quantas devastações não são provocadas pelo pecado, expulsando Deus do Seu reino interior e reduzindo a nada os Seus dons infinitos! Estas almas sentem a ofensa feita ao Senhor e sofrem com Ele numa crucifixão quotidiana: para compensar o desprezo do Seu amor, provam de boa vontade o seu cálice de amargura; e esta expiação voluntária, por mais lancinantes que sejam as suas dores, dá-lhes contudo o antegozo da beatitude celeste. O amor inebria a alma que se lhe oferece, ao mesmo tempo que a fere de morte. Vulnerasti cor meum. - «Feriste o meu coração! » (Cânt., IV, 9).
É assim que na economia da graça os próprios pecados cometidos por certos homens são a causa de novas generosidades divinas para com outras almas. «Porque, se pelo pecado de um, a morte reinou por um só, muito mais reinarão na vida por um só, que é Jesus Cristo, os que recebem a abundância da graça e do dom, e da justiça (Rom., V, 17).
Ele provocou nos Seus a sede do Seu amor. Cristo atrai estas almas, Cristo inspira-as, é n’Ele e só d’Ele que elas querem passar a viver. Elas pertencem ao amor, e o entusiasmo ilumina-as com essas chamas libertadoras, «Atraí-os para mim com vínculos próprios de homens, com os vínculos da caridade» (Oséias, XI, 4).
Na intimidade da presença interior, elas adoraram a humanidade de Cristo; acharam força e consolação na sagrada comunhão, no sacrifício da Missa e na oração litúrgica. - Contudo, o sentimento da alegria faltou-lhes nos períodos de provação: a consolação foi-lhes negada pelo próprio Jesus, convidando-as a seguirem-no ao Calvário, a estar presentes na noite do Monte das Oliveiras. Foi com severidade, e segundo a opinião dos homens, com dureza, que elas se viram muitas vezes tratadas pelo Deus de misericórdia. Experimentaram o impiedoso rigor do Pai, que pede a Seu Filho a última gota do Seu sangue e o cego abandono da última hora para satisfazer a Sua justiça, pois as exigências do amor não se moderam. Elas podem dizer por sua vez: «Fui crucificada com Cristo» (Gál., II, 19).
Se não se realizasse esta participação nos sofrimentos do Salvador, a união das almas com Deus não seria segura. É necessário que a alma seja separada e quebrada para que Deus a trate como sua igual: enquanto ela pertencer a si própria não poderá receber o dom infinito, não poderá conhecer a plenitude de um puro amor. O caminho da alma para Deus, sem negligências e sem vãs solicitudes, só se torna direito e rápido a partir do momento em que o sensível foi queimado na dor e o espiritual purificado nas provações. Tudo o que agrada ao coração só por ser de uma doçura humanamente consoladora deve ser ultrapassado, para que o homem respire livremente o ar puro da caridade divina. Foi portanto de todas as condescendências com as coisas criadas que estas almas tiveram de se despojar: se, por uma hora, eram tentadas a esquecer a sua profunda fraqueza e a sua miséria essencial, imediatamente a graça as chamava à verdade e as iluminava na sua intimidade. Aprenderam a reconhecer que eram pecadoras, sem sentirem por isso nenhum complexo de inferioridade, sem que a sua consciência tivesse de se perder em análises estéreis, e reconhecem finalmente as maravilhas que Cristo operou nelas, sem tirarem disso a mínima sombra de orgulho. «Jesus Cristo veio a este mundo para salvar os pecadores, dos quais eu sou o primeiro. Mas por isto alcancei misericórdia, para que em mim, sendo o primeiro, mostrasse Jesus Cristo toda a sua paciência, para exemplo dos que hão de crer nele» (l Tim., I, 15-16).
Ninguém pode ser um homem de oração se não tiver o espírito de Cristo. Mas quando a alma recebe este espírito e participa dos sentimentos de Jesus, sente-o crescer dentro de si: basta que ela não Lhe oponha obstáculos para que a transformação divina se torne cada vez mais perfeita sob os raios da Sua graça. «Porém aquelas coisas que eu considerava como lucro, considerei-as como perdas perante o eminente conhecimento de Jesus Cristo meu Senhor. Por seu amor renunciei a todas as coisas e as considerei como esterco, para ganhar a Cristo, - a fim de o conhecer a Ele, e a virtude da sua ressurreição e a participação dos seus sofrimentos, assemelhando-me à sua morte. Não que eu tenha já alcançado o prêmio ou seja mais perfeito, mas prossigo para ver se de algum modo o poderei apreender, porque eu também fui apreendido por Jesus Cristo.» (Filip., III, 7-12).
Que tudo nela seja para Deus e por Deus, é o seu ardente desejo, a suprema necessidade desta alma: não deve ficar nada que o fogo puro não transforme em si próprio! É assim que o homem unido a Deus compreende a exigência do Mestre, garantindo-nos que o amor nos pedirá contas dos nossos atos, e até das palavras mais insignificantes. Pois ele não renuncia a nada do que fazemos ou do que somos: tudo deve ser insuflado de vida divina a ponto que a alma possa dizer: Tudo o que é meu é Vosso, e tudo o que é Vosso é meu. O Verbo leva consigo este homem para onde ele vive desde toda a eternidade no seio do Pai. «Ninguém conhece o Pai, senão o Filho, e aquele a quem o Filho o quiser revelar» (Mat., XI, 27).
Jesus revela o Seu mais profundo segredo ao amigo fiel que sofreu com Ele até à morte na cruz: pode repousar com Ele e n'Ele junto ao coração do Pai. A alma, transbordando de amor filial, contempla a fonte da vida divina; e o Pai olha com indulgência infinita para este filho adotivo que tem as mesmas feições do Seu único Filho. É o Espírito Santo que faz desabrochar o amor em toda a sua plenitude e inspira ao coração esta alegria sem mácula. «A alma participa no dom celeste, prova a doçura da palavra de Deus e as maravilhas do mundo que há de vir» (Hebr.; VI, 4).
O conhecimento vivo ateou um incêndio na alma, que agora se revela em obras e em esplendor. O seu campo de ação é ilimitado: é o domínio de Deus. A fé, fonte de amor, triunfou de todos os obstáculos. A verdade evangélica, caída no que o espírito tem de mais profundo, germinou com força divina até esta vitória que transcende todos os conflitos do devir numa submissão humilde à vontade de Deus. «Todo o que nasceu de Deus, vence o mundo» (I João, V, 4). «E a vitória que vence o mundo é a nossa fé» (I João, v, 4).
O laço da perfeição realiza a mais íntima união entre a alma e o seu amado. Nele e com Ele, a alma pode erguer os olhos para o Pai, cuja vontade é o seu alimento. «Pai, eu faço tudo o que te agrada!» - é assim que falam e vivem os amantes fiéis em quem se consumou este mistério. O Filho, que é o Caminho, a Verdade e a Vida, garante-lhes isto mesmo: «O Pai ama-vos porque vós me amastes e crestes que eu saí do Pai» (João, XVI, 27).
E eles respondem de todo o coração, no júbilo do louvor perfeito: «Visto conhecermos que é perfeita em nós a caridade de Deus, se tivermos confiança para o dia de juízo; pois assim como ele é santo, também nós o somos neste mundo. Nós, portanto, amemos a Deus porque Deus nos amou primeiro» (João, IV, 17-19).  

Por um cartuxo anônimo Intimidade com Deus



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