quarta-feira, 8 de junho de 2016

Curiosidade por Padre Manuel Bernardes


De Demóstenes, orador de Grécia eloqüentíssimo

Orando uma vez em Atenas sobre matérias de importância, e advertindo que o auditório estava pouco atento, introduziu com destreza o conto ou fábula de um caminhante que alquilara um jumento e, para se defender no descampado da força da calma, se assentara à sombra dele, e o almocreve o demandara por maior paga, alegando que lhe alugara a besta, mas não a sombra dela. Estavam os atenienses neste passo mui aplicados, desejando saber a sentença com que se decidira aquele pleito. Porém Demóstenes no mesmo tempo se desceu da cadeira, dizendo: Oh pejo! Oh miséria grande! Folgais de ouvir da sombra do jumento; e não folgais de ouvir do estado e bem público da Grécia!

REFLEXÃO

É paralelo deste caso outro, que conta Cassiano[1] do Monge Machetes, que, fazendo uma prática espiritual das coisas divinas, começaram os ouvintes a bocejar e cabecear, até que ficaram adormecidos. Então o servo de Deus, espertado a voz: Ouvi (lhes disse, interrompendo o fio da prática e pegando de outro muito contrário), ouvi uma coisa maravilhosa: como uma raposa e um bugio se enganaram um ao outro, alternando suas astúcias. Neste ponto logo todos se aplicavam, e sacudiram o sono, e já ninguém tinha tédio nem preguiça. Então Machetes, voltando sobre eles o estímulo do zelo, os feriu com uma correção acre, dizendo: Que é isto, irmãos? Tanto sono para as coisas divinas e de importância para a nossa alma, e tanta alacridade para ouvir fábulas e contos ridículos? Vede que não pode ter este efeito outra causa mais que o demônio e a vossa negligência, consentindo com ele.

Os atenienses eram sumamente afetos à curiosidade de ouvir coisas novas: Ad nihil  aliud vacabant (testifica deles S. Lucas[2], nos Atos dos Apóstolos) nisi aut dicere, aut audire aliquid novi. E Plutarco, que alcançou o tempo de S. Lucas e S. Paulo, imperando Domiciano, diz[3] que eram tão amigos de comédias, por serem oficinas de novidades, que gastavam nelas o que fora bom gastar nas armadas e exércitos; e traz[4] o gracioso caso de um barbeiro que, ouvindo dizer a um seu escravo de uma batalha que os atenienses tinham perdido em Sicília, com geral mortandade sua, saiu logo pela porta fora, a dar a triste nova em público. Com que, amotinado todo o povo, porque apenas havia quem não tivesse no exército filho, ou pai, ou marido, ou irmão, quiseram averiguar a origem e fundamento de tão funesta fama. E, não aparecendo senão o dito barbeiro, que não podia descarregar-se com testemunhas abonadas, investiram a ele, e, depois de cheio de pancadas e opróbrios, o amarraram a um pau, para ser baliza dos escárnios públicos, pois fora alvorotador falso da paz pública. Mas, sobrevindo alguns que escaparam da batalha, verificaram a desgraça, e cada um se recolheu a carpir-se em sua casa, e a ninguém lembrou soltar o miserável barbeiro. Até que já tarde chegou um beleguim, a desatá-lo; e estava ele já tão emendado do seu vício de saber novidades que perguntou ao mesmo beleguim: se sabiam já também de que modo morrera Nícias, general do exército. Pior lhe sucedeu a um cavalheiro florentino que mandou a um criado que nunca viesse para casa sem lhe trazer novas de um inimigo[5]. O criado, achando ocasião, matou ao tal inimigo, e foi mui contente referir estas novas a seu amo. Foi este preso e sentenciado como réu de homicídio, porquanto a sua ordem equivalia a mandato nas circunstâncias do caso. Estes frutos lhe rendeu a sua novidade.

Este vício da curiosidade e afeição a coisas novas passa também aos trajes, aos edifícios, aos comeres, aos estilos, às leis e até às mesmas palavras. Porque não faltam noveleiros que querem emendar ou ilustrar o idioma comum, introduzindo palavras exóticas e termos que lhes parecem mais elegantes, sendo, na verdade, mais ridículos. Dionísio Sículo, sofista, afetava explicar-se por este modo[6]: Às donzelas chamava “Menandros”, isto é que esperam por varão; à coluna “Menecrates”, isto é que sustenta o peso firmemente; e aos esconderijos e buracos dos ratos chamava-lhes mistérios, porque os ocultam e defendem. Alexarco, irmão de Cassandro, rei de Macedônia, chamava ao galo Ortoboas; ao barbeiro Brotoceres; à dracma, que é um dinheiro pequeno de prata, Argirides. Pela mesma toada, Demades não dizia os mancebos, senão “a primavera do povo”; nem dizia muralhas, senão “o vestido da cidade”; nem dizia “trombeteiro”, senão o “galo do exército”.

Os espíritos que não mortificam em si este gênio de curiosidade e afeição a novidades perdem nisso mais do que, porventura, lhes parece. Porque se fazem incapazes de coisas sérias; e, como sempre andam nadando sobre a cortiça da vaidade, nunca descem ao fundo da verdade, antes esta se lhes representa coisa tão cheia de tédio, tristeza e trabalho que sempre diferem o tratar dela pra outro dia. E aos livros espirituais, que tratam os pontos necessários para o nosso desengano, chama livros desesperados, porque não querem que lhes mostre claramente como a esperança com que eles se entretêm acerca das coisas do século futuro é falsa e mal fundada e, por conseguinte, não é esperança teológica, procedida do Espírito Santo, senão presunção temerária, pregada pelo demônio; a qual tanto presta para a salvação como uma nau aberta e rota presta para a viagem longa e feliz. Pelo que, toda a pessoa que quer ajuntar forças de espírito para empreender o alcance das virtudes e persistir no que empreendeu foge muito das zombarias ou nugacidades do século, porque a repetida experiência a ensinou, à sua custa, que enervam e jarretam aquela atividade e eficácia que é necessária para tão superior emprego. E este é um dos sinais que o Doutor Angélico, Santo Tomás aponta para conhecer se um sujeito é virtuoso e trata deste negócio com veras. Faz também grande estimação do tempo: porque sabe que é semente da eternidade que, uma vez malograda, é impossível recobrar-se. E, assim, emprega e aproveita as mínimas partes dele em coisas úteis, proveitosas e honestas, seguindo o aviso do Espírito Santo pelo Eclesiástico: Non defrauderis a die bono; et partícula boni diei, non te praetercat.

Notas:


[1] Lib. v. "Institut.", c. 31.
[2] Act., XVII, 27.
[3] Plutarc., "Tract. de glória Atheniens."
[4] Idem "Tract. de Garrulilat."
[5] Barihot., in L. Siquis mihi bona, § Pater Scio.
[6] Ex Athenaeo, lib. III, c.10.

(Nova Floresta, quarto tomo pelo Padre Manuel Bernardes, Livraria LELLO & IRMÃO, 1949)
 Retirado do Blog A Grande Guerra

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