terça-feira, 28 de junho de 2016

Do escândalo ou sedução



A palavra escândalo, em sentido próprio, significa obstáculo. Em linguagem teológica significa a palavra, ação ou omissão, que é para o próximo ocasião de pecado. O escândalo diz-se direto, quando premeditada e deliberadamente se intenta o pecado do próximo; indireto, quando, embora não se intente o pecado do próximo, suficientemente se prevê que as nossas palavras, ações ou omissões o induzirão a pecar. 

Do escândalo direto 

Há escândalo direto quando se induz o próximo ao mal, aconselhando, ajudando, mandando, aprovando ou aplaudindo. Quem deliberadamente induz o próximo a pecado grave, peca gravemente contra a caridade e contra o preceito ou virtude a cuja violação o induz. Quem aconselhar outro a cometer um furto, deve na confissão declarar «induzi o meu próximo a furtar», e acrescentar logo a qualidade e quantidade do furto. 

O amo que sem justo motivo induz os criados ou operários a trabalhar ao domingo e dias de festa, peca, e deve dizer na confissão que obrigou seus súditos a trabalhar em dia de festa de preceito. 

É evidente que uma coisa é induzir o próximo a roubar e outra a jurar falso; uma coisa é levá-lo a trabalhar ao domingo; outra violar a castidade; e por isso na confissão se deve declarar qual a espécie de pecado que se induziu alguém. 
Do escândalo indireto 

Há escândalo indireto, quando, não havendo intenção de induzir o próximo a pecar se faz ou omite, sem justo motivo e causa suficiente, qualquer coisa que se prevê irá servir de ocasião de pecado ao nosso semelhante. 

É escândalo indireto falar mal dos superiores eclesiásticos e civis; porque de tais palavras se segue nos que as ouvem, o desprezo da autoridade, e com o desprezo vem a perda de influência da mesma autoridade e o desprestígio da Religião. 

Dá ocasião ao pecado, e por isso escandaliza, quem distribui livros maus, imagens indecentes. Este escândalo será direto ou indireto, segundo houve ou não intenção de induzir os outros a pecar ou apostatar da fé.

Se houve tal intenção, além do pecado de escândalo, também se pecou contra a caridade num caso, e no outro contra a fé. 

O escândalo indireto também pode nascer do mau exemplo. De fato, não poucas vezes o nosso mau exemplo arrasta os outros ao mal e enfraquece, se não é que de todo apaga nas almas débeis e frouxas, todo o temor do pecado. 

Essas almas facilmente raciocinam dessa forma: «Se os outros não fazem caso desse ou daquele pecado, para que hei-de eu ser escrupuloso onde os outros não vêem motivo de reparo? Não serei eu o primeiro nem o último a fazer isto». É, pois, inegável a sedução e perniciosa influência do mau exemplo. Essas almas tenras e débeis nunca cometeriam tais pecados, se não fossem os maus exemplos que lhes deram. 

Trabalhar nos dias de festa sem necessidade e em lugar onde todos podem ver, transgredir publicamente o preceito da abstinência, é dar ocasião de que outros cometam as mesmas faltas e por isso é escândalo. É também escândalo pronunciar más palavras, rogar pragas diante de crianças, porque tomam daí ocasião de as aprender e de contrair o mau costume de as repetir. 

Outra coisa será transgredir os citados preceitos ou pronunciar essas más palavras diante de cristãos fervorosos, que com certeza se não deixarão arrastar do mau exemplo; ou de maus cristãos, que, sem o mau exemplo, já transgridem esses preceitos e já têm o mau costume de profanar os nomes santos. Nestes casos o mau exemplo não seria ocasião de pecado, e por isso não se juntaria o pecado de escândalo aos pecados que foram cometidos. 

Malicia do escândalo indireto 

A vida da alma é muito mais nobre e preciosa do que a do corpo. Se temos obrigação de não danificar a esta, muito mais a temos de não prejudicar aquela. 

Portanto falta se ao amor do próximo, se, sem motivo, se lhe dá ocasião de pecar. 

Dar ocasião a faltas leves dos outros, é pecado venial. Se não se advertiu na malicia de ato gravemente escandaloso, o pecado será ainda leve. E quem não conhece nem sabe que dá escândalo, não comete pecado algum.

E necessário evitar o escândalo a todo o custo, e não dar ao próximo ocasião de pecado nem mesmo venial. Se, para tanto, fosse preciso omitir uma ação de si indiferente, ou mesmo boa, ou até às vezes prescrita pela Igreja, teríamos obrigação de omiti-la para evitar o escândalo. 

Vejamos alguns exemplos: Uma pessoa sabe por experiência que sua presença num passeio público em determinadas circunstâncias é ocasião de pecado grave para outra. A caridade cristã exige-lhe que durante algum tempo não apareça em tal passeio, se o puder fazer sem grave incômodo. 

Disse «por algum tempo», e «sem grave incômodo», porque ninguém está obrigado a privar-se dum passeio honesto por muito tempo, o que de per si seria incômodo grave e um sacrifício extraordinário que Deus não exige de nós para evitarmos os pecados dos outros. 

Animado de sincero e ardente desejo de perfeição, desejarias receber freqüentemente os Sacramentos, mas prevês que teu procedimento dará aso a escárnios contra a religião e a calúnias contra ti ou outras pessoas. Que fazer? 

Procura, se podes, com prudentes e ajuizadas observações prevenir o escândalo. Se nada conseguires podes deixar os Sacramentos, se prevês, que será este o meio eficaz de evitar o escândalo. Mas isto uma ou duas vezes, e não por muito tempo, porque a caridade bem ordenada começa por nós; e seria loucura, a pretexto de não prejudicar a alma do próximo, causar grave dano espiritual a ti mesmo. Do mesmo modo, para evitar o escândalo e a ocasião certa de alguém cometer pecado grave, por exemplo, contra a castidade, poderás uma vez por outra deixar de assistir à missa de obrigação. E se para evitar o escândalo se vai até omitir obrigações, com maior razão se deverá ir até omitir certas ações de si indiferentes ou mesmo boas. 

No caso de haver motivos justos e particulares para fazer qualquer coisa de que o próximo se vai escandalizar, devemos explicar o motivo do nosso procedimento, ou, se for possível, esperar melhor ocasião para fazermos o que desejávamos. 

É dia de abstinência e vais comer carne publicamente porque estás dispensado do preceito: Tens de explicar aos que estão presentes, os motivos do teu proceder. 

Impossível seria, mesmo com a melhor boa vontade, evitar ao próximo toda a ocasião de pecado. Nunca faltarão olhos perversos que vejam ou finjam ver ocasião de pecado nas mais santas das nossas ações.  

O Divino Salvador foi acusado de escandaloso pelos judeus; e os fariseus até dos seus milagres a favor dos que sofriam, tomavam motivo de escândalo. Para evitar escândalos assim, seria preciso, como disse S. Paulo aos Coríntios, andar fora deste mundo. De nenhum modo, por exemplo, estarás obrigado a sujeitar-te às exorbitantes exigências dum artista ou operário, embora prevejas que vai romper em pragas e imprecações.

Ao prejuízo que sofrias, acrescia ainda dares-lhes ansas para na vez seguinte mais exorbitar. Os pais podem e devem corrigir seus filhos, mesmo quando prevêem que se vão zangar ou amuar. 

Antes esses seus arrebatamentos ou amuos, do que ficarem com o caminho aberto para faltas mais graves. 

E para terminar, advertimos que nem sempre o autor do escândalo indireto está obrigado na confissão a declarar expressamente que escandalizou. 

Acusa-se alguém, por exemplo, de ter dito palavras obscenas diante de crianças. Não precisa de dizer mais nada; já assim vai tudo confessado, pois sempre as crianças se escandalizam quando ouvem conversas desonestas.

Também pela mesma razão não é obrigado a declarar o pecado de escândalo quem se acusa de ter trabalhado publicamente no domingo. 

«O que escandalizar a um destes pequeninos que crêem em Mim, melhor lhe fora que se lhe dependurasse ao pescoço uma mó de atafona e o lançassem no fundo do mar. Ai! do mundo por causa dos escândalos! Ai daquele homem por quem vem o escândalo!» (Mat. 18,6-7) Duras e terríveis, estas palavras do Salvador, sempre todo mansidão e doçura! Pensa, porém, no que é o escândalo e nas suas terríveis conseqüências, e compreenderás a dureza do Seu falar. 

O escandaloso é verdadeiro assassino, no diz de Santo Agostinho: «quem dá escândalo, é um assassino», porque mata a vida da alma. Por isso a Escritura chama ao demônio «homicida desde princípio». O demônio foi o primeiro sedutor e o pai de todos os sedutores e escandalosos, seus instrumentos e auxiliares e em tudo seus semelhantes, quando procuram arrastar à perdição as almas puras e inocentes.            

Mas o crime do escandaloso vai mais longe. 

Um só pecado de escândalo pode ser causa da ruína espiritual de centenares de pessoas. Escandalizaste a uma pessoa, esta a outra, e assim por ai fora; e foi o teu pecado a causa remota de todos estes pecados. Sucederá até, que, morto o escandaloso, sepultado de há muito, esquecido pelos homens o seu nome, continue ainda a ser causa da ruína de muitas almas. A semente por ele lançada à terra germinou, cresceu e produziu frutos de morte eterna, entre os homens! 

Não te iludas, parecendo-te que o escândalo e coisa de pouca monta; nem o consideres ao de leve. Examina com cuidado se tens dado escândalo, onde e de que modo. Suposto mesmo que não tenhas sido absolutamente responsável diante de Deus porque não advertiste no pecado ou nas suas conseqüências, procura reparar do melhor modo possível, e evitar completamente para o futuro, todo o escândalo. "Não percas aquele por quem Cristo morreu». (Rom. 14,15) 

Se conheceres que alguém arma ciladas à tua virtude, ou que sua amizade é perigosa para a tua alma, foge com o maior cuidado, porque também Jesus Cristo morreu por ti sobre a Cruz... 

Como se há-de reparar o escândalo

Aquele que, sem justo motivo, deu ao próximo ocasião de pecar, está obrigado a reparar, quanto puder, o dano espiritual que lhe causou. Se, por tua culpa, alguém se apartou do caminho do bem, cuida por todas as maneiras de o trazer de novo à virtude, exortando-o, instruindo-o, orando por ele e dando-lhe bom exemplo. Que ele veja nas tuas palavras e obras, que repudias todo o mal que fizeste e dele estás arrependido de todo o teu coração.

O melhor meio de reparar o mal, será converteres-te de pedra de escândalo que eras pelo teu mau exemplo, em pregador mudo, mas eloqüente da virtude pela tua vida exemplar e verdadeiramente cristã.

Nas dúvidas que te ocorrerem sobre qualquer ponto particular, aconselha-te com o teu confessor.

(O Cristão no tribunal da Penitência pelo P. Frutuoso Hockenmaier, O.F.M, 1949.)

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