quarta-feira, 6 de julho de 2016

Da vida penosa de Jesus Cristo

Defecit in dolore vita mea, et anni mei in gemitibus – “A minha vida tem desfalecido com a dor, e os meus anos com os gemidos” (Sl 30, 11)

 O nosso amável Redentor, desde o primeiro instante da sua vida, teve sempre presentes os ultrajes e as dores que o esperavam pela vista horrível de todos os males que o deviam afligir. Quando nos sentirmos oprimidos pelas cruzes que se nos afiguram longas ou pesadas demais, lancemos um olhar para Jesus Cristo e lembremo-nos da vida penosa que ele levou. Assim de certo não nos ousaremos queixar da mão paternal que nos fere para nosso bem.

I. Deus, usando de compaixão para conosco, não nos faz conhecer, antes do tempo, as penas que nos esperam. Se a um criminoso, que expira sobre o patíbulo, tivesse sido revelado, desde o uso da razão, o suplício que o esperava, teria jamais podido experimentar alegria? Se, desde o princípio do seu reinado, tivesse sido mostrada a Saul a espada que o devia traspassar, se Judas tivesse visto de antemão o laço que o devia estrangular, quão amarga teria sido a sua vida!
O nosso amável Redentor, porém, desde o primeiro instante da sua vida, teve sempre presentes os açoites, os espinhos, a cruz, os ultrajes da sua Paixão e a morte desolada que o esperava. Quando via as vítimas sacrificadas no templo, bem sabia que eram outras tantas figuras do sacrifício que ele mesmo, o Cordeiro sem mancha, devia consumar sobre o altar da cruz. Quando via a cidade de Jerusalém, bem sabia que era ali que devia perder a vida em um mar de dores e de opróbrios. Quando lançava os olhos para a sua amada Mãe, já imaginava vê-la agonizante de dor ao pé da cruz, na qual Ele expirava.
Assim, ó meu Jesus, a vista horrível de tantos males Vos teve num tormento e numa aflição incessantes, muito tempo antes da vossa morte. E Vós aceitastes e sofrestes tudo isso por meu amor. – Ó Senhor, só a vista de todos os pecados do mundo, particularmente dos meus, fez com que a vossa vida fosse a mais aflita e penosa, de todas as existências passadas e futuras. – Mas, ó Deus! Em que lei bárbara está escrito que um Deus ame tanto a uma criatura e que depois disto a criatura viva sem amar a seu Deus; mais ainda, viva a ofendê-Lo e contrista-Lo? Ah, Senhor! Fazei-me conhecer a grandeza do vosso amor, afim de que eu deixe de Vos ser ingrato. Se eu Vos amasse, ó meu Jesus, se eu Vos amasse verdadeiramente, quão doce me seria sofrer por Vós!
II. Jesus crucificado apareceu um dia a soror Magdalena Orsini, que havia muito tempo estava na tribulação e a exortou a sofrer com resignação. A serva de Deus respondeu: “Mas, Senhor, Vós não estivestes na cruz mais do que três horas e eu há tantos anos que sofro estas penas!” Jesus repreendeu-a, dizendo: “Ah! Ignorante, que dizes? Desde o primeiro instante que estive no seio de minha Mãe, sofri no coração tudo que sofri mais tarde na cruz.”
E eu, meu amabilíssimo Redentor, à vista de tudo que tendes sofrido por meu amor, durante toda a vossa vida, poderei ainda queixar-me das cruzes que Vós me enviais para meu bem? Agradeço-Vos por me haverdes resgatado a preço de tanto amor e de tantas dores. Para me animar a sofrer com paciência as penas desta vida, quisestes tomar sobre Vós todos os nossos males. Ah, Senhor! Fazei-me lembrar muitas vezes as vossas dores, afim de que eu aceite e deseje sempre sofrer por vosso amor. Scitis quid fecerim vobis? (1) – Meu Jesus, já sei quanto fizestes e sofrestes por meu amor; mas Vós sabeis igualmente que eu até agora não tenho feito nada por Vós. Ajudai-me a sofrer alguma coisa por vosso amor antes que chegue a hora da minha morte.
Ó Senhor, tenho vergonha de aparecer diante de Vós, mas não quero continuar a ser ingrato para convosco, como tantos anos tenho sido. Por amor de mim Vós Vos privastes de todo o prazer, e eu, por vosso amor, renuncio a todos os prazeres dos sentidos. Por amor de mim Vós sofrestes tão grandes dores; por vosso amor quero sofrer todas as penas da minha vida e da minha morte, como Vos agradar. Vós fostes abandonado; eu consinto em que todos me abandonem, contanto que não me abandoneis, meu único e soberano Bem. Vós sofrestes perseguição; eu aceito toda e qualquer perseguição. Vós, finalmente, morrestes por mim; eu quero morrer por Vós. – Ah, meu Jesus, meu tesouro, meu amor, meu tudo, eu Vos amo; dai-me mais amor e nada mais Vos peço. – Ó minha Mãe de dores, peço-vos a mesma graça; obtemde-m’a pela Paixão do vosso Filho.
Referências:
(1) Jo 13, 12

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo II: Desde o Domingo da Páscoa até a Undécima Semana depois de Pentecostes inclusive. Friburgo: Herder & Cia, 1921, p. 244-247)

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