terça-feira, 5 de julho de 2016

O recolhimento e as virtudes

Parece que se pode afirmar, sem medo de erro, que há pouca virtude no mundo, porque há pouco recolhimento também. Onde não há virtude, há, forçosamente, o contrário, pois a alma não pode conservar-se neutra, ou sem direção. Ou se apega às coisas de Deus, ou às coisas do mundo. Ou olha para o céu, ou olha para o lodo.

Não havendo virtude, há fraqueza ou defeitos, pecados ou vícios. Ora, tudo isso é feio e reprovável, não só aos olhos da fé, como também aos olhos da razão.
"Como é feio - dizia o célebre aviador e cristão profundo Jacques D'Arnoux - aquela senhora que mente, aquele cidadão que come e bebe demais, aquele rapaz sem compostura. Outros falam mal do próximo, elogiam-se a si mesmos, têm modos ríspidos, são indelicados, geniosos, egoístas, para não citar coisas piores".

Pois é no recolhimento que a alma descobre tudo isso e muito mais. A sós consigo e com seu Deus, no silêncio e na solidão, ainda que momentâneos, quanto se enxerga! E como tudo, então, toma outras proporções. Já não parecem apenas faltinhas que se bebem como um copo de água, ou que se purificam, com o sinal da cruz. Vê-se, como tudo isso é feio, ridículo, até abominável, às vezes.

De outro lado, a virtude toma feições novas, atraentes, encantadoras. Compreende-se, então, que ela não é tão inacessível, e que, com esforços, se poderá consegui-la.

Entra-se em intimidade com os santos do céu e da terra, e vai-se tomando os seus modos, as suas maneiras. E mais depressa do que se imaginava, se vai alcançando o seu feitio.

Será possível, uma alma recolhida deixar-se levar, habitualmente, pela ira ou impaciência?

De modo algum. Pois impaciência e rispidez são faltas de domínio próprio e o recolhimento, adquirido com tanto esforço, às vezes, é domínio de si mesmo, é equilíbrio, é força de vontade, e de tudo isso, para a paciência e mansidão verdadeiras, é um passo muito pequeno. Louva-se tanto a mansidão proverbial de Francisco de Sales, mas é bom não nos esquecermos de seu recolhimento angélico que se percebe, em seus escritos e em todas as situações de sua vida: era o ambiente próprio de sua paciência inalterável, heróica tanta vez. Para ele não havia surpresas; porque, como o salmista e todo homem recolhido, sua alma estava, sempre, em suas mãos.

Bem-aventurados os puros de coração, porque eles verão a Deus. Ora, é a alma recolhida que não somente vê a Deus, através de sua fé, mas o goza, tendo a túnica da pureza, sem a qual ninguém se aproxima do Altíssimo.

Demais, o recolhimento é abnegação, é penitência, pois é cortar com mil coisas exteriores, é renunciar a mil curiosidades e distrações. Ora, não é este o caminho da pureza verdadeira?

Luiz Gonzaga permanecerá sempre o modelo de pureza, o anjo de carne, mas sabemos até que ponto (que nos poderia parecer exagero) ia o seu recolhimento heróico, não só nos colégios da Companhia de Jesus, mas também em Castiglione ou nas côrtes da Espanha e Itália, onde viveu sem se queimar, como os três moços na fornalha ardente.

O orgulho, a vaidade, a soberba são próprias da cabeça que não pensa. Quem somos nós? Que valor possuímos? Qual é a nossa importância? Nada somos, nada, nada. É a pura expressão da verdade. Não há exagero algum.

Ora, se há alma compenetrada desta verdade, mas que não desanima nem se atrofia, pois sabe que "em Cristo tudo pode", é a alma recolhida que, no silêncio e na solidão, vê claramente, os seus valores e quando são reais, canta como Maria o Seu "Magnificat", atribuindo tudo a Deus Nosso Senhor, conservando-Se, sem fingimentos, na Sua pequenez.

Não foi neste ambiente fechado do santo recolhimento que um grande Agostinho ou Tomás de Aquino ou Boaventura aprenderam a falar, com tal profundeza, sobre a sublime humildade, onde se conservaram toda vida, ainda que rodeados de fama, de louvores, de elogios, que não os atingiam?

"O humilde entra na galeria dos grandes", dizia Madalena Sofia Barat, a santa que soube levar, tão bem, as suas suas filhas ao recolhimento do Coração de Jesus.

Então, compreende-se como as almas recolhidas sabem sofrer. Elas vêem a provação e a dor, seja física seja moral, de outro ponto de vista. E numa aparente fraqueza ou ingenuidade, realizam heroísmos. As almas dissipadas, exteriores, apenas sofrem, logo correm a divulgar as suas dores, mendigando, de todo  modo, consolo e compaixão, quando não espalhando descontentamentos e revoltas.

A alma recolhida se domina. Expande-se perante Deus. Guarda para si o seu segredo doloroso e isso já é princípio de consolo e ânimo que Deus não deixa de enviar, pelos Seus anjos, como no deserto, depois da tentação de Jesus Cristo.

A alma recolhida em Deus é forte e sabe sofrer. Sabe também que é ilusão momentânea a distração que tantos e tantos procuram nas criaturas.

"Saiam as visitas, por favor; leia-me, Padre, a Imitação de Cristo" - dizia-me um doente ilustre. O ambiente se transformava e ele sabia sofrer, no recolhimento admirável, que esse livrinho de ouro sabe despertar.

Convençamo-nos: o recolhimento é a atmosfera própria onde cresce e se desenvolve toda a virtude cristã. E ninguém o duvidará, lembrando-se de que o virtuoso, de verdade, é homem de Deus. Ora, o homem de Deus em Deus vive.
(Recolhimento, por D. Fr .Henrique Golland Trindade, O.F.M, bispo de Bonfim)
Fonte: A Grande Guerra

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