quarta-feira, 31 de agosto de 2016

A criada devota das almas do purgatório



 "Uma piedosa e humilde criada tinha o costume de todos os meses tirar do seu pobre ordenado uma espórtula para uma missa pelas almas do purgatório. Fazia todo sacrifício, mas não deixava de mandar celebrar cada mês a Missa da sua devoção. Ia assistir ao Santo Sacrifício com muito fervor e pedia pela alma que mais necessidade tivesse de uma Missa para entrar no céu. Deus a provou com uma doença que a fez sofrer muito e ainda perder o emprego. No dia em que saiu do hospital, só tinha consigo a importância necessária para a espórtula de uma Missa. Pôs toda confiança em Deus e andou à procura de um emprego. Em vão. Não o achava em parte alguma. Passou pela igreja de Santo Eustáquio e entrou. Lembrou-se logo de que naquele mês não pode mandar celebrar a Santa Missa pelas almas. Tirou da bolsa o dinheiro e pensou consigo: Se agora mando celebrar a Missa, que me restará hoje para comer? Que será de mim? Que importa! Deus há de ter pena de mim. E demais, as pobres almas sofrem mais do que eu. Foi à sacristia e perguntou se era possível celebrar-se ainda uma Missa. Felizmente, lá estava um sacerdote sem intenção de Missa para aquele dia. Deu-lhe a espórtula, pediu a Missa pelas almas, assistiu-a com todo fervor e se retirou da igreja absolutamente sem vintém e sem saber para onde ir. Estava assim pensando na sua pobre vida quando um moço alto, muito pálido, se aproximou dela e disse:
 —A senhora anda à procura de um emprego? 

— Sim, meu senhor, e necessito muito uma colocação hoje mesmo.
 — Pois então vá à casa de Madame X, rua tal, número tal, e creio que ela vos receberá, porque vai precisar de uma empregada hoje. A pobre criada tão satisfeita ficou, que nem agradeceu ao moço. Quando voltou para trás, nem o viu mais. Foi à procura do endereço e ao chegar à casa indicada deu de encontro com uma mulher que descia a escada furiosa e a gritar contra alguém.
 — É aqui que mora Madame X? Pergunta-lhe.
 — Sei lá! Desta casa não quero ver nem a sombra. Bata na porta. Não quero saber desta mulher. Adeus!. A criada bateu timidamente a campainha e esperou. Apareceu-lhe uma senhora de certa idade e aspecto muito bondoso.
 — Minha senhora, diz a criada, eu acabo de saber esta manhã que a senhora estava precisando de uma empregada e, como estou sem colocação, aqui venho me apresentar, e me disseram que a senhora é muito bondosa e me havia de acolher muito bem...
 — Minha filha, diz a velha, isto é extraordinário! Pois esta manhã eu não disse isto a ninguém e faz apenas meia hora que eu expulsei de minha casa esta empregada insolente que me perdeu o respeito. Só eu sei que tenho necessidade de uma empregada. Quem te disse isto? 
— Encontrei um moço na rua e ele me deu o nome da senhora, rua e número da casa, e aqui cheguei. A velha não podia compreender quem pudesse ser o tal moço que havia indicado a casa. Neste ínterim, a empregada levanta os olhos e vê na parede um retrato.
 — É aquele moço, minha senhora, ele mesmo... A pobre velha empalideceu.
 — É meu filho, e meu filho morto! A criada contou-lhe toda a sua devoção às santas almas, a Missa que havia mandado celebrar. A velha tomou a pobrezinha num longo abraço e banhada em lágrimas lhe disse: "Minha filha, este moço é meu filho já morto. Deveria estar no purgatório. Faleceu há dois anos. Tua Santa Missa o aliviou e libertou. Vamos, daqui por diante, orar juntas e não serás minha criada, não, serás minha filha". Tomou a pobre criada abandonada e adotou-a como membro da família. Eis como Nosso Senhor recompensa os corações generosos para com as santas almas".

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