terça-feira, 23 de agosto de 2016

A MORTE ESTÁ PRÓXIMA


1. - "Muitos são chamados, poucos na verdade escolhidos" (Mt 20,16)
Muitos são os chamados, poucos os escolhidos. Pensai bastante, reflitais, considerai que se trata da alma, trata -se de uma eternidade; ou uma eterna alegria ou um eterno pranto. No entanto, a um eterno gáudio, que haverá no Céu, muitos são chamados, poucos escolhidos.
O ter nascido na Igreja católica, a quem foram feitas promessas de vida eterna, quer dizer, vós terdes sido chamados com muitos, já não eleitos com poucos, quantos balizados se perdem! Quantos que professam a verdadeira religião se perdem!
Mesmo no santo Evangelho entre muitos, tinha sido convidado às núpcias reais, antes, introduzido e admitido à sala, aquele que foi excluído do banquete no instante que estava para sentar-se à mesa com os outros, porque foi encontrado sem a veste nupcial (Jo 22, 11-14).
Oh! Deus! Quantos convidados para a glória, que já a esperam, que já estão preparados e prontos para assumir, no último instante da vida a perfeita posse, serão ao invés atirados nas trevas a ranger os dentes e chorar para sempre, como aqueles que foram surpreendidos sem a veste conveniente àquele celeste banquete, isto é, sem a graça de Deus! Pecadores, pecadores, se Cristo viesse a vós neste instante, como virá certamente no da vossa morte, que vos adiantaria ter sido chamados, convidados e quase levados à força até a soleira do Paraíso, se encontrando-vos agora despidos da graça sereis banidos eternamente? Muitos são os chamados, poucos os eleitos.
Vós pensais ter muito tempo ainda deixando para o fim, o atender o propósito da salvação. Falso, falso. Não tendes mais que o tempo presente; porque a morte já está à porta, está próxima, está iminente.
2. - Iminência da morte
Eu não falo com aqueles que, já transcorrida a maior parte de suas vidas, percebem facilmente estarem para sair daqui bastante próximo.
É muito claro que estes não têm tempo a perder, se querem pensar na alma.
Falo convosco, jovens floridos, donzelas vivazes, homens, mulheres fortes de compleição, vigorosos pela saúde. A vós eu lembro, a vós anuncio que a morte não somente virá, não somente está para vir, mas vem: "Eis que venho". E vem tão depressa, que se quiserdes esperar, podeis dizer como de um que se sabe que vem e se espera na rua, e chegando e sendo avistado, se diz: "ei-lo, ei-lo, é ele que vem". E a morte poderá dizer levantando a voz para vós: vós não me esperáveis assim tão depressa; mas eis-me aqui, eis-me aqui: eu estou aqui, olhai-me, reconhecei-me. "Eis que venho, que venho depressa" (Ap 22, 12, 20).
Nem penseis que havê-la descoberto com os olhos ainda distante de vós, embora vindo para vós, deva demorar grande tempo para chegar.
Não, vem logo: "depressa"; pois vem a cavalo. "Olhei e vi um cavalo amarelo.
O que estava montado sobre ele tinha por nome Morte" (Ap 6, 8). Corre com tanta agilidade que vence os corredores mais ligeiros e mais velozes. Antes não corre não, mas voa como os pássaros que fendem os ares com asas ligeiras: "como a águia voando para a presa"; mas foge como navio que rasga o mar impelido pelos ventos: "passaram como navios" (Jó 9, 25-26): mas passa como não deixando marca ou visão de sua rapidíssima passagem: "foge como a sombra" (Jó, 14, 2).
3. - Lembra-te que a morte não tarda
E notai que ele não para mais, nem se atrasa pela viagem. A este respeito foi muito solícito o Espírito Santo: "Lembra-te de que a morte não tarda" (Eclo 14, 12). A morte não tem necessidade de repousar, de restaurar-se ou de se refrescar, porque jamais se cansa de correr. Antes - o que é mais admirável - quanto mais - viaja, mais corre e se fortifica. Como uma rápida torrente que quanto mais avança pelo caminho, recebendo de várias partes no seu curso mais água, cresce de vigor a cada passo, de ímpeto, de ação. "Nós todos estamos morrendo, e corremos pela terra como as águas.](2Re 14, 14).
Vede, pois, se a morte já está em viagem para vós, se é chegada até vossa vista, se vem correndo com indizível velocidade, e jamais para, e não atrasa um passo, quão perto ela está para chegar, e surpreender-vos!
4. - Nada pode deter a morte
Sei no que confiais; na esperança de poder detê -la pelo caminho, de modo que não vos aflija senão tarde.
Acreditais que seja boa oposição à morte a robustez, o vigor dos membros?
Mas quantos fortes e bem robustos, muito sadios como vós, não morrem todos os dias! Pensais que as comodidades da vida, o lucro que vos dá o vosso estado ou o amor próprio vos procura, sejam defesas suficientes contra seus assaltos. Mas quantos abastecidos abundantemente destas coisas não devem ceder apenas ela se aproxima!
Vós confiais nos segredos e preciosas descobertas da arte. Mas quantos, consumido todos seus haveres em procrastiná-la, quando se acreditavam mais preparados que nunca, se encontraram descobertos e inermes entre suas mãos!
Não existe remédio contra a morte, não há defesa, não há impedimento que a detenha um só ponto.
5. - "Na hora em que não esperais"
Se vós vos assegurais que nesta idade a morte não virá a vós, quereis fazer parecer mentiroso o Evangelho, mentiroso o próprio Cristo que vos nega abertamente a segurança de um dia e de uma hora só: "Não sabeis nem o dia, nem a hora" (Mt 25, 13). Antes na hora que vós menos temeis a morte, que menos nela pensais, aquela é a hora em que ela mais provavelmente virá: "Na hora em que não esperais o Filho do homem virá" (Lc 12, 40). "Vigiai, pois" (Mt 25,13). Não percais tempo. Ficai alerta. Não confieis na idade, não confieis na robustez, na compleição, presumindo quase deter a morte já a caminho. Ela vem trazendo na mão os
decretos marcados pelo Onipotente. Não pode ser retardada de um só dia, de uma hora, de um momento. Pouco vale fechar-se numa fortaleza inexpugnável, se, chegando ela, é preciso abrir as portas mesmo as mais fechadas, ou antes, estas se abrem por si mesmas, fossem do mais forte bronze e do mais sólido jaspe. Não há coisa que resista os decretos imutáveis de Deus.
6. - A morte vem em qualquer lugar, em qualquer tempo, de qualquer modo
Não há, portanto, outra salvação que fugir dela. Mas em que lugar estaremos seguros se ela reina em todo lugar com domínio absoluto e universal? Jó no-la descreve quase como um rei que calca sob seus pés os súditos medrosos sem que estes ousem mover-se ou revoltar-se: "e a morte como um rei o calcará" (Jó 18, 14).
Ela nos pode pegar na terra, no mar, em casa, na rua, no quarto, na praça, na cidade, nas planícies, nos montes, nos jardins nas matas.
Não só em qualquer lugar, mas em qualquer tempo, de dia, de noite, de manhã , à tarde, na primeira ou na última vigília.
Não só em todo lugar, em qualquer tempo, mas de qualquer modo. Pode nos assaltar com alguma doença, com febres, com catarro, com dores, com paralisias, com convulsões, com cálculos, com apoplexias, com cânceres, e com infinitos outros tipos de doenças e de acidentes. Pode servir-se de todas as criaturas, como
de causas externas, para levar-nos a vida de um momento para outro, mesmo de improviso. Eis pronta a terra com seus terremotos, o mar com suas procelas, os rios com seus remoinhos, os ares com seus hálitos mortíferos, o fogo com seus incêndios. Entre os animais, alguns ferozes saem das selvas para dilacerar com
unhas e dentes, outros venenosos ora se escondem entre as flores e ervas de um jardim, de um vaso florido, como a víbora; ora se alimentam em vossa, própria casa, como aquele cachorro que uma mordida improvisa transmite para vós o veneno de sua raiva, e vos mata. Entre os próprios homens alguns vos atravessam com armas, outros com traições; lá os assassinos, aqui os ladrões noturnos, na rua um rival, em casa um amigo ou um criado infiel.
Embora a morte não tenha necessidade nem de ferro, nem de fogo, nem de veneno para tirar-vos a vida num instante. Dentro de vós há o quanto basta para matar-vos. Como as roupas geram suas traças, assim o nosso corpo gera a podridão de que deve ser consumido: "Serei consumido como a podridão, como
uma roupa que é comida pela, traça" (Jó 13, 28). Isto é próprio da traça: roer a roupa sem barulho, assim que se percebe roído, antes que se perceba que ela a rói. Quem sabe se dentro de vós a vossa vida, insensivelmente enfraquecendo-se, não esteja próxima de ser consumida?
Nada de esperar a morte distante! Nada de temê-la como em viagem! Nada de suspeitá-la próxima! Já podeis estar atingidos. Pode ser que já há muito tempo em vossas vísceras esteja trabalhando uma improvisa, dissolução. Pode estar já iminente a hora em que vos vejais consumido no corpo, sem jamais ter percebido os dentes atrozes que dia e noite maldosamente o roíam.
E se é assim, parece-vos que há tempo para perder? Que prudência é a tua, ó pecador, sejas quem for, confiar no tempo para não se converter logo e salvar a alma agora que tu podes, em um perigo tão grave que não possas mais fazê -lo e perder-te para sempre? Tanto mais que para ti a morte não deve vir no curso normal e por via ordinária, mas deve vir antecipada, deve chegar improvisa.
7. - A morte do pecador será antecipada
A proposição de que tu morras antes do teu tempo é, em termos expressos, do próprio Deus. Estas são suas palavras no Eclesiástico: "Não sejas insensato, para que não venhas a morrer antes do tempo" (2). E em Jó: "O ímpio perecerá entes que se completem seus dias"' (Jó 15, 32). E ainda: ''Os ímpios foram levados do mundo antes que cumprissem seu tempo" (Jó 17, 16). E no Eclesiástico de novo:
"A quem aborrece a correção terá abreviada a sua vida" (Eclo 19, 5). E nos Provérbios: "Os anos dos ímpios serão abreviados" (Pr, 10, 27). E finalmente : "O aguilhão da morte é o pecado: o estímulo da morte é o pecado" (1Cor 15, 56).
8. - A morte do pecador virá repentinamente
Quanto à segunda proposição de que morrerás de repente, eis as provas das Escrituras; "O homem que despreza com cerviz dura o que o repreende, cairá de repente em total ruína, e não terá mais remédio" (Pr 19, 1); isto é aquele pecador que obstinado persevera no mau costume diante de tantos que o advertem, será colhido por morte improvisa - isto é, quando se tiverem por seguros - então lhes sobrevirá uma destruição repentina" (1Ts 5, 3). E estes são aqueles aos quais sobrevirá de repente a morte "como um ladrão de noite", como temos no Evangelho (Mt 14, 43; Lc 12, 39), pois vivem nas trevas. E no Salmo: "Ó como foram reduzidos a tal desolação! Repentinamente feneceram; pereceram pela sua maldade" (Sl 72,
19).
Mas isto é coisa de fato. Encontraremos nas histórias sagradas que os ímpios pereceram horrivelmente, repentinamente. Repentinamente morreu Faraó com todo seu exército, afogado nas águas. Repentinamente morreram no deserto aqueles Hebreus que desejavam retornar ao Egito. Repentinamente morreram aqueles
rebeldes contra o sacerdócio de Aarão. Repentinamente os murmuradores da Terra prometida, e tantos outros sem número repentinamente levados pela morte por causa de seus pecados.
Dirás que também aos justos acontece a morte improvisa.
9. - Porque também os justos às vezes se submetem à mesma morte dos
ímpios
Respondo que Deus às vezes permitiu e permite isto por altíssimos fins da Providência; como permite também que os justos sejam submetidos a outras penas próprias dos ímpios nesta vida temporal. Isto, porém, não impede que a morte improvisa não seja êxito mais freqüente e mais comum aos ímpios; os quais
"passam seus dias em delícias, e num momento descem ao sepulcro" (Jó 21, 13). Respondo enfim que quando em uma nação os pecados são fatos já comuns e públicos os escândalos, Deus costuma castigar nesta vida todos igualmente, e todos envolve na mesma pena; pois - como refletem S. Agostinho e S. Gregório e outros santos - todos, se poderia dizer, que de algum modo são moralmente culpados; ou porque cometem o mal, ou porque participam consentindo ou aprovando ou não impedindo com todo seu poder o mal nos outros com a correção fraterna, com o bom exemplo, ou ao menos com as mais cálidas orações; como é dever de muitos por justiça, de todos por caridade (3). "Não de outro modo - diz S. João Crisóstomo - que num bairro onde existem muitas casas juntas, quando se pega fogo em uma, se todos os vizinhos não concorrem para extingui-lo, não queima só esse, mas em um só incêndio que se espalha, ficam todas queimadas" (4). E esta é a origem das mortes repentinas acontecidas hoje, não só freqüentes, mas ordinárias e comuns.
10. - "Se queremos pensar na alma, não nos resta tempo a perder"
É preciso, pois começar a obra. É preciso logo se converter a Deus, detestar o pecado, confessá-lo aos pés do sacerdote, chorá-lo, deixá-lo, abandonar as ocasiões, apegar-se a todos os meios que forem úteis para manter firme a nossa resolução; especialmente com freqüentes e assíduas orações pedir a Deus luz e força para resistir às tentações e velar sobre nós mesmos com o exercício das virtudes cristãs; dar-nos enfim solicitude para satisfazer com voluntárias penitências e mortificações os nossos pecados até agora cometidos. Em suma reformar os costumes, instituir uma nova vida, para nos vestir com a veste nupcial que só ela nos introduz no número dos eleitos.
Trata-se da alma, trata-se da eternidade. É preciso que ceda o amor às coisas caducas e terrenas.
Trata-se de comparecer em breve diante de um Juiz terrível e inexorável. É preciso que cedam as conveniências e os respeitos do mundo.
Poucos são os escolhidos. Aquela grande multidão que segue o mundo, se porém é entre o número maior dos chamados, não é porém entre o menor e escasso dos eleitos, antes é abertamente excluída, como vimos pelo Evangelho.
Quem quer salvar-se com os poucos, viva com os poucos.
A graça de Jesus Cristo, que pelo meu ministério vos chamou novamente, vos ajude a começar, e vos conforte a perseverar. Assim
Fonte: São Pio V

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