segunda-feira, 29 de agosto de 2016

Do amor que Deus nos mostrou

Nos ergo diligamus Deum, quoniam Deus prior dilexit nos – “Amemos portanto a Deus, porque Deus nos amou primeiro” (1 Jo 4, 19)

 São inúmeras as provas de amor que o Senhor nos deu. Amou-nos desde a eternidade, tirou-nos do nada com preferência a tantos outros, e, o que mais é, fez-nos nascer num país católico e no seio da Igreja verdadeira. Quantos milhões de homens vivem privados dos sacramentos, da pregação, dos bons exemplos e de tantos outros meios de salvação! A nós Deus quis dar todos estes meios de perfeição, sem mérito algum da nossa parte; prevendo mesmo todos os nossos deméritos. Porque então correspondemos tão mal ao amor de Deus? Porque não o amamos de todo o coração?

I. Considera primeiro que Deus merece teu amor, porque te amou antes de ser amado por ti e de todos os seres: In caritate perpetua dilexi te (1) – “Com amor eterno te amei”. Os primeiros que te amaram na terra, foram teus pais; mas só te amaram depois de te terem conhecido. Deus já te amava, antes de existires. Ainda não existiam no mundo nem teu pai, nem tua mãe e já Deus te amava. Não era ainda criado o mundo, e já Deus te amava.
E quanto tempo antes da criação já te amava Deus? Talvez mil anos, mil séculos antes? Escusado é contar anos e séculos: In caritate perpetua dilexi te; ideo attraxi te, miserans tui – “Com amor eterno te amei; por isso, compadecido de ti, te atraí a mim”. Numa palavra, Deus te amou desde que é Deus e desde que se amou a si mesmo, amou-te também. Foi, portanto, com muita razão que a santa virgenzinha Inês respondeu às criaturas que a requestavam: Ab alio amatore praeventa sum – “Outro amante vos precedeu”.
Assim, meu irmão, teu Deus te amou desde a eternidade; e é só por amor de ti que tirou do nada tantas outras criaturas formosas, afim de que te servissem e te recordassem sem cessar o amor que te tem, e o que Lhe deves. O céu e a terra, exclamava Santo Agostinho, tudo me prega, ó meu Deus, quanto sou obrigado a amar-Vos. Quando o Santo olhava o sol, a lua, as estrelas, as montanhas, os rios, parecia-lhe que todas estas criaturas lhe diziam: Agostinho, ama a teu Deus, criou-nos para ti, para ganhar o teu amor.
O abade de Rancé, fundador da Trappa, à vista das colinas, das fontes, das flores, dizia que todas estas criaturas lhe recordavam o amor que Deus lhe tinha. Santa Teresa dizia igualmente que as criaturas lhe repreendiam a sua ingratidão para com Deus. Quando Santa Maria Magdalena de Pazzi tinha na mão uma bela flor ou qualquer fruto, sentia o coração ferido por uma seta do amor divino, dizendo consigo:
“O meu Deus pensou desde a eternidade em criar esta flor, este fruto, afim de que eu o amasse!”
II. Considera o amor particular de Deus para contigo, fazendo-te nascer num país cristão e no seio da verdadeira Igreja. Quantos não há que nascem no meio de idólatras, de judeus, de maometanos, os quais se perdem todos! Mas Deus te pôs no número dos que nascem em lugares onde reina a verdadeira fé.
Ó dom inapreciável o da fé! Quantos milhões de pessoas se veem privadas dos sacramentos, das instruções, dos bons exemplos e de todos os outros meios de salvação que nos oferece a nossa verdadeira Igreja! E Deus quis prodigalizar-te todas estas grandes vantagens sem nenhum merecimento de tua parte, ou, para melhor dizer, prevendo os teus desmerecimentos; porque, quando pensava em criar-te e fazer-te estas graças, já previa as injúrias que lhe havias de fazer.
Ó soberano Senhor do céu e da terra, como é que, tendo amado tanto os homens, sois tão desprezado por eles? Entre esses homens, ó meu Deus, amastes-me com amor particular, favorecendo-me com graças especiais, que recusastes a muitos outros, e eu Vos desprezei mais que os outros. Prostro-me a vossos pés, ó Jesus, meu Salvador: Ne proicias me a facie tua (2) – “Não me repilais de vossa presença”. Mereceria ser repelido por Vós por causa de minhas ingratidões; mas dissestes que não sabeis repelir um coração arrependido que volta para Vós: Eum quivenit ad me, non eiciam foras (3) – “Não rejeitarei àquele que vem a mim”.
 Meu Jesus, misericórdia! Outrora não Vos conhecia; mas agora reconheço-Vos por meu Salvador, que morreu para me salvar e ser amado por mim. Agora Vos conheço, Vos adoro e Vos amo por todos aqueles infelizes que Vos ofendem, e nada desejo senão crescer sempre em vosso amor. – Meu Senhor, dai-me o vosso amor; mas um amor ardente, que me faça esquecer todas as criaturas; um amor forte, que me faça vencer todas as dificuldades para Vos agradar; um amor constante, que nunca mais se resfrie entre mim e Vós. Tudo espero dos vossos merecimentos, ó meu Jesus; e tudo espero também da vossa intercessão, ó minha Mãe Maria.
Referências:
(1) Jr 31, 3
(2) Sl 50, 13
(3) Jo 6, 37

(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 78-81)

Nenhum comentário:

Postar um comentário