quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Felicidade eterna do céu

Beati qui habitant in domo tua, Domine; in saecula saculorum laudabunt te – “Bem-aventurados, Senhor, os que moram na tua casa; pelos séculos dos séculos te louvarão” (Sl 83, 5)

Sumário. No céu a alma verá Deus face a face, conhecerá todas as disposições admiráveis da divina Providência para sua salvação e verá que o Senhor a abraça e a abraça sempre como filha querida; pelo que a alma se embriagará de tal amor, que não pensará mais senão em amar seu Deus. Será esta a sua eterna ocupação: amar o bem infinito que possui, louvá-Lo e bendizê-Lo. Quando nos sentirmos oprimidos pelas cruzes, levantemos os olhos ao céu, e lembremo-nos de que nos está reservada sorte igual, se ficarmos fiéis a Deus.
I. Na terra, a maior pena das almas que amam a Deus e se acham em desolação, é o receio de não O amarem e de não serem por Ele amados: Nescit homo, utrum amore an odio dignus sit (1) – “ O homem não sabe se é digno de amor ou de ódio”. Mas no paraíso a alma está certa de que ama a Deus, e de que é amada por Ele; vê que está felizmente abismada no amor do seu Senhor e que o Senhor a abraça como querida filha; vê, enfim, que os laços de seu amor são para sempre indissolúveis. – Estas venturosas chamas desenvolver-se-ão mais ainda pelo conhecimento mais perfeito, que então adquirirá, do amor que levou Deus a fazer-se homem e a morrer por nós, do amor que o levou a instituir o Santíssimo Sacramento, no qual um Deus se faz alimento de um verme.
Demais; verá distintamente todas as graças que Deus lhe prodigalizou, livrando-a de tantas tentações e perigos de condenação. Compreenderá que essas tribulações, doenças, perseguições, revezes, que chamara desgraças e castigos de Deus, foram, ao contrário, manifestações de amor e lances da divina Providência para a levar ao céu. – Verá especialmente a paciência que Deus teve em aturá-la depois de tantos pecados, e as suas misericórdias em enviar-lhe tantas luzes e tantos convites cheios de amor. Do alto desta feliz montanha, verá tantas almas condenadas ao inferno por menos pecados, e a si mesma se verá salva, na posse de Deus, certa de nunca perder no futuro esse bem supremo durante toda a eternidade.

Sempre, portanto, gozará o bem-aventurado dessa beatitude, que durante toda a eternidade e a cada instante lhe parecerá nova, como se então pela primeira vez entrasse a gozá-la. Sempre desejará a sua felicidade e obtê-la-á sempre: sempre satisfeita e sempre desejosa, sempre ávida e sempre saciada. Numa palavra, assim como os réprobos são vasos cheios de ira, assim os escolhidos são vasos cheios de contentamento, de modo que nunca tem coisa alguma a desejar. Pelo que diz Davi: Inebriabuntur ab ubertate domus tuae (2) – “Embriagar-se-ão da abundância de tua casa”. Como se dissesse: A alma, vendo a descoberto e abraçando com transporte o seu soberano Bem, embriagar-se-á de tal sorte de amor, que se perderá felizmente em Deus, isto é, esquecer-se-á completamente de si, e não pensará desde então senão em amar, louvar e abençoar esse bem infinito, que possui.
II. Quando nos oprimirem as cruzes da vida, animemo-nos a suportá-las com paciência, com a esperança do céu. O abade Zosimo perguntou a Santa Maria Egypciaca, como aguentara viver tantos anos no deserto; ao que a Santa respondeu: Pela esperança do céu. Quando a São Filipe Neri foi oferecida a dignidade cardinalícia, a recusou atirando o barrete ao ar e exclamando: Ó paraíso, ó paraíso!
Assim também nós, quando gemermos ao peso das misérias deste mundo, levantemos os olhos ao céu e consolemo-nos, dizendo: Ó paraíso, ó paraíso! Lembremo-nos de que, se formos fiéis a Deus, acabarão um dia todas as nossas penas, misérias e temores e seremos admitidos nessa feliz pátria, na qual estaremos plenamente felizes, enquanto Deus for Deus. Já esperam-nos os santos, espera-nos Maria, e Jesus já tem na mão a coroa para nos coroar reis no seu reino eterno.
Meu querido Salvador, ensinastes-me a rogar: Adveniat regnum tuum (3) – “Venha a nós o vosso reino”. Tal é a oração que Vos dirijo; estabeleça-se vosso reino em minha alma, de maneira que a possuais toda e ela também Vos possua a Vós, que sois o supremo Bem. Ó meu Jesus, nada poupastes para me salvar e para ganhar o meu amor; salvai-me, pois, e consista a minha salvação em Vos amar incessantemente nesta vida e na outra.
Tantas vezes Vos tenho ofendido, e não obstante isto, me afiançais que não Vos dedignareis de me conservar unido convosco durante toda a eternidade, se eu me quiser arrepender. Sim, arrependo-me, e quisera morrer de dor. De hoje em diante só quero pensar em Vos ser agradável. Aceito e abraço todas as mortificações e penas que me quiserdes enviar. Basta-me que não me priveis da vossa graça; basta que um dia possa eu ir amar-Vos, louvar-Vos e bendizer-vos no paraíso. – Ó Maria, quando é que me verei aos vossos pés, seguro de não mais poder perder o meu Deus? Socorrei-me, minha Mãe e não consintais que me condene e tenha de viver para sempre apartado de Vós e do vosso divino Filho.
Referências:
(1) Ecle 9, 1
(2) Sl 35, 9
(3) Lc 11, 2


(LIGÓRIO, Afonso Maria de. Meditações: Para todos os Dias e Festas do Ano: Tomo III: Desde a Décima Segunda Semana depois de Pentecostes até o fim do ano eclesiástico. Friburgo: Herder & Cia, 1922, p. 84-86)

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