sexta-feira, 2 de setembro de 2016

Maria Santíssima, modelo de mortificação.

Manus meae stillaverunt myrrham, et digiti mei pleni myrrha probatissima — «As minhas mãos distillaram myrrha, e os meus dedos estavam cheios da myrrha mais preciosa» (Cant. 5, 5).


I. É uma verdade de nossa fé que a Santíssima Virgem, por ser concebida isenta de pecado, não teve nenhuma desordem interior a combater. Apesar disso o Senhor quis que em toda a vida ela se houvesse de tal forma que se tornou um modelo perfeito de mortificação.
Sumario. Na Santíssima Virgem tudo estava em perfeita harmonia, porque estava isenta do pecado original e cheia de graça. A carne obedecia prontamente ao espírito; e o espírito a Deus. Contudo ela foi tão amante da mortificação que se tomou um modelo perfeito desta virtude. Quanto mais mortificados não devemos ser nós que temos tantas más paixões a exprimir e quiçá tantas culpas a expiar. E somos tão delicados e tão amantes de nossa comodidade. A continuarmos assim, como nos poderemos gloriar de ser filhos de Maria?
Com efeito, Maria praticou a mortificação interior, conservando o coração sempre desprendido de todas as coisas terrestres: desprendida estava das riquezas, querendo sempre viver pobre e ganhando o sustento com os trabalhos de suas mãos; desprendida das honras, amando a vida humilde e obscura, posto que lhe coubesse o titulo de nobreza, por ser descendente dos reis de Israel; desprendida afinal dos seus santos pais, porque na idade de três anos os deixou resolutamente, para ir encerrar-se no templo.



Quanto á sua mortificação exterior, na verdade é pouco o que a este respeito sabemos; mas esse pouco é mais do que suficiente para a nossa edificação. Maria mortificava de tal maneira a vista, que tinha os olhos sempre baixos, e jamais os fixava em alguém, como dizem Santo Epiphanio e São João Damasceno, e acrescentam que desde menina foi tão recatada, que admirava a todos. Que direi da escassez do nutrimento e da redundância dos trabalhos? esta excedendo as forças da natureza, aquela lhe quase faltando; esta não lhe permitindo tempo algum livre, aquela continuando os dias em jejum. E quando veio a vontade a refazer-se, a comida foi a mais óbvia só para afastar a morte, não para prestar delicias. Não se deu ao sono senão obrigada pela necessidade, mas quando o corpo repousava, o animo vigiava.

Finalmente, quanto a Bem-aventurada Virgem foi mortificada em tudo o mais, bem se infere do que ela mesma revelou a Santa Isabel benedictina, conforme se lê ema São Boaventura: «Sabe», disse-lhe, «que não recebi de Deus nenhuma graça sem grande trabalho, oração continua, desejo ardente e muitas lágrimas e penitencias.» Em suma, foi Maria em tudo mortificada, de modo que foi dito della que suas mãos distillaram myrrha, a qual na explicação dos interpretes é símbolo da mortificação: Manus meae stillaverunt myrrham.

II. Se Maria, a mais inocente de todas as virgens, quis praticar a tal ponto a mortificação, quanto mais não devemos nós pratica-la, nós que temos tantas más inclinações que reprimir, e quiçá tantos pecados que expiar! Seja, pois, o fruto da presente meditação o exercício da mortificação cristã.

Quanto ao interior, vejamos qual seja a nossa paixão dominante, e esforcemo-nos por vencel-a, pois quem não a subjugar, está em grande perigo de se perder; ao contrario, aquele que vencer a paixão dominante, facilmente vencerá todas as outras.

Pelo que respeita á mortificação exterior, devemos, antes de mais nada, mortificar a vista, por cuja causa já muitos se acham no inferno. Notemos o que diz São Francisco de Sales: «Não é tanto, o ver, como o olhar, que é a causa da perdição.» — Devemos em seguida mortificar a língua, abstendo-nos de toda a critica e de palavras injuriosas e livres. Uma palavra livre, embora dita só para rir, pode ser causa de escândalo e de mil pecados. — Em terceiro logar devemos mortificar a gula, comer para viver, e não viver para comer. Afirma Cassiano que é impossível que não esteja sujeito a muitas tentações impuras o que se farta de comida ou de bebida. — Devemos afinal mortificar o ouvido e o tato, evitando escutar conversas maliciosas e murmurações, e usando de toda a cautela tanto para com os outros como para nós mesmos, fugindo de todo o brinquedo de mãos. Imitando Maria Santíssima, devemos praticar a mortificação em todas as coisas e assim mostrar-nos seus dignos filhos: Filii Mariae, imitatores eius.


Se não te sentires com força para tanto, recorre com confiança a esta Mãe amaríssima; põe-te debaixo de sua proteção especial e dizer muitas vezes com São Bernardo:  «Lembrae-vos, ó misericordiosíssima Virgem Maria, que jamais se ouviu dizer fosse por vós desamparado algum daqueles que tem recorrido á vossa proteção, implorado o vosso auxilio, e exorado o vosso, valimento. Animado eu, pois, com igual confiança, a vós, ó Virgem das virgens, ó minha Mãe, recorro; a vós me acolho; e gemendo sob o peso dos meus pecados, me prostro aos vossos pés. Não queirais desprezar as minhas suplicas, ó Mãe do Verbo incarnado, mas escutae-as favoravelmente e dignae-vos de atendel-as. Assim seja.». (Indulg. De 300 dias cada vez, e plenária uma vez por mez, para quem a rezar cada dia)



Fonte: Santo Afonso de Ligório - Meditações para cada dia do ano

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