quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Capítulo I - Confiança!

 


Nosso Senhor Jesus Cristo convida-nos à Confiança


Voz de Cristo, voz misteriosa da graça que ressoais no silêncio dos corações, vós murmurais no fundo das nossas consciências palavras de doçura e de paz. Às nossas misérias presentes repetis o conselho que o Mestre dava, freqüentemente, durante a sua vida mortal: “Confiança, confiança!”

À alma culpada, oprimida sob o peso das suas faltas, Jesus dizia: “Confiança, filha, os teus pecados ser-te-ão perdoados!” (1). “Confiança”, dizia ainda à doente abandonada que só dEle esperava a cura, “a tua fé te salvou” (2). Quando os apóstolos tremiam de pavor vendo-O caminhar, de noite, sobre o lago de Genesaré, Ele tranqüilizava-os por esta expressão pacificadora: “Tende confiança! Sou Eu, nada temais!” (3). E na noite da Ceia, conhecendo os frutos infinitos do seu Sacrifício, lançava Ele, ao partir para a morte, o brado de triunfo: “Confiança! Confiança! Eu venci o mundo!...” (4).
Esta palavra divina, ao cair dos seus lábios adoráveis, vibrante de ternura e de piedade, operava nas almas uma transformação maravilhosa. Um orvalho sobrenatural fecundava-lhes a aridez, clarões de esperança dissipavam-lhes as trevas, uma calma serenidade afugentava delas a angústia. Pois as palavras do Senhor “são espírito e vida” (5). “Bem-aventurados os que ouvem a palavra de Deus e a põem em prática” (6).
Como outrora aos seus discípulos, é a nós, agora, que Nosso Senhor convida à confiança. Porque recusaríamos atender à Sua voz?

Muitas almas têm medo de Deus

Poucos cristãos, mesmo entre os fervorosos, possuem essa confiança que exclui qualquer ansiedade, qualquer hesitação. Várias são as causas dessa deficiência. O Evangelho narra que a pesca miraculosa aterrou São Pedro. Com a impetuosidade habitual, ele mediu de relance a distância infinita que separava da sua própria pequenez a grandeza do Mestre. Tremeu de terror sagrado, e prosternando-se, a face contra a terra: “Afastai-Vos de mim, Senhor, exclamou, que sou um pecador!” (7).
 
Certas almas têm, como o Apóstolo, esse terror. Elas sentem tão vivamente a própria indigência e as próprias misérias, que mal ousam aproximar-se da Divina Santidade. Parece-lhes que um Deus assim puro deveria sentir repulsa ao inclinar-se para elas. Triste impressão, que lhes dá à vida interior uma atitude contrafeita, e, por vezes, a paralisa completamente.
 
Como se enganam essas almas!
 
Logo aproximou-se Jesus do Apóstolo assustado: “Não temas!” (8) disse-lhe, e o fez levantar-se.
 
Vós também, cristãos, que do seu amor tantas provas recebestes, nada temais! Nosso Senhor receia acima de tudo que tenhais medo dEle. As vossas imperfeições, as vossas fraquezas, as vossas faltas, mesmo graves, as vossas reincidências tão freqüentes, nada O desanimará, contanto que desejeis sinceramente converter-vos. Quanto mais miseráveis sois, mais Ele tem compaixão da vossa miséria, mais deseja cumprir, junto a vós, a sua missão de Salvador...
 
Não foi sobretudo para os pecadores que Ele veio à terra? (9).


 A outras falta-lhes Fé


A outras almas falta-lhes fé. Elas têm certamente essa fé comum, sem a qual trairiam a graça do Batismo. Crêem que Nosso Senhor é todo-poderoso, bom e fiel às Suas promessas; mas não sabem aplicar essa crença às suas necessidades particulares. Não são dominadas pela convicção irresistível de que Deus, atento às suas provações, para elas se volta a fim de socorrê-las.
 
Jesus Cristo pede-nos, por conseguinte, esta fé especial e concreta. Ele a exigia outrora como condição indispensável dos seus milagres; espera-a ainda de nós, antes de nos conceder os seus benefícios.
 
“Se podes crer, tudo é possível àquele que crê”... (10), dizia ao pai do pequenino possesso. E, no convento de Paray-le-Monial, empregando quase os mesmos termos, repetia a Santa Margarida Maria: “Se puderes crer, verás o poder do meu Coração na magnificência do meu Amor”.
 
Podeis crer? Podereis chegar a essa certeza tão forte que nada a abala, tão clara que equivale à evidência?
 
Isso é tudo. Quando chegardes a esse grau de confiança vereis maravilhas realizarem-se em vós.
 
Pedi, pois, ao Divino Mestre que aumente a vossa fé. Repeti-Lhe com freqüência a prece do Evangelho: “Eu creio, Senhor, mas ajudai a minha incredulidade!” (11).
_______________________________
1 ) “Filho, tem confiança, os teus pecados estão perdoados” (Mt. 9, 2).
2 ) “Filha, tem confiança, a tua fé te salvou” (Mt. 9, 22).
3 ) “Tende confiança, sou Eu, não temais” (Mc. 6, 50).
4 ) “Tende confiança! Eu venci o mundo” (Jo. 16, 33).
5 ) “As palavras que Eu vos disse são espírito e vida” (Jo. 6, 63.
6 ) Lc. 11, 28.
7 ) “Afasta-Te de mim, Senhor, porque sou um homem pecador!” (Lc. 5, 8).
8 ) “Não tenhas medo” (Lc. 5,10).
9 ) “Eu não vim chamar os justos, mas os pecadores” (Mc. 2, 17).
10 ) “Se podes...! Tudo é possível a quem crê” (Mc. 9, 23).
11 ) “Eu creio! Ajuda a minha incredulidade” (Mc. 9, 24).

Livro 
Confiança! - Pe. Thomas de Saint Laurent

Nenhum comentário:

Postar um comentário