sábado, 15 de outubro de 2016

É TENTAR A DEUS, E TENTAR-NOS A NÓS MESMOS CONTRA A ORDEM DE DEUS, O PREVERMOS OS COMBATES A QUE PODEREMOS ESTAR EXPOSTOS COM O CORRER DO TEMPO.


Mas afinal, dizem certas pessoas, é mes­mo preciso que eu esteja na disposição de cumprir as minhas obrigações? Ora, quan­do eu mas represento, não sinto na minha vontade força para sustentar esse com­bate, tão penoso, durante a minha vida toda. Como então não tremer, não cair no desânimo?

Primeiramente, já fizemos notar que es­sa pena não dura sempre com a mesma força, e nem causa sempre impressões tão sensíveis. Não deveis, pois, julgar da di­ficuldade que tereis em perseverar pela pena que experimentais neste momento. Começai com os socorros presentes, e espe­rai os mesmos socorros para o futuro.


Mas, em segundo lugar, Deus proíbe nos pormos temerariamente na ocasião da tentação. Ele não prometeu o Seu concur­so àquele que, prevenindo por uma previ­dência insensata as provações a que pode ser submetido, reúne na sua imagina­ção tentações que talvez nunca experi­mente, e que certamente não experimen­tará assim reunidas num só momento. Hoje não tendes a força de encará-las porque, ainda não havendo chegado o tem­po de sustentar o combate, não tendes a graça que só vos é preparada para esse tempo de prova: de admirar não é, pois, que essas tentações vos assustem de an­temão. Mas então por que vos tentardes assim a vós mesmo contra a vontade de Deus?

Por que procurardes sondar o vosso co­ração sobre as cruzes pesadas, sobre as tentações violentas, sobre os combates obstinados que outros tiveram de susten­tar, e que, absolutamente falando, podem vos sobrevir, para saberdes qual é a vossa disposição a esse respeito? Porquanto Deus, que vos prometeu robustecer a vos­sa vontade quando Ele exigir esses sacrifí­cios, não vos prometeu as mesmas graças quando, por vossa vontade própria, sem a isso serdes por Ele chamada, vos colocais pela imaginação nessas circunstâncias que não existem, e que talvez nunca venham a existir para vós.

Uma alma sólidamente cristã é humilde; teme e evita o perigo, bem longe de pro­curá-lo; é temerariamente, é por uma presunção secreta, é por um amor-próprio oculto, que vos colocais nesse estado de tentação: será então surpreendente que só sintais fraqueza, incerteza na vossa von­tade? Deus não nos dá Sua graça segundo os nossos caprichos, mas segundo a ne­cessidade que temos dela, submetendo-nos às ordens da Sua Providência. É por aí que a tentação ilude e seduz almas ou im­prudentes ou mal instruídas. Entretém-nas com sacrifícios ou quiméricos ou remotos, sobre os quais o Senhor não lhes inspira nada; e desvia-as da atenção que elas de­vem dar aos sacrifícios presentes que Deus pede delas. Assim, elas correm atrás de sombras, e perdem a realidade.

A disposição da alma fiel, para agradar a Deus, não deve, pois, ser a de procurar na sua imaginação tudo o que lhe pode suceder de rigoroso, a pretexto de o acei­tar com generosidade. Essa investigação Deus não a aprovou, proíbe-a mesmo. De algum modo, isso é tentar a Deus. Por melhor que vos pareça a intenção que a isso vos leva, deveis desconfiar dela, e dela desviar-vos. O que Deus exige é que o homem esteja na disposição geral de evitar todo pecado mortal e tudo o que a este pode conduzir; de suportar com submissão as cruzes que a Sua Providência lhe apresenta cada dia; e de não fazer para si cruzes na sua imaginação, para carregá-las antes de elas chegarem.

Sempre será tempo de sofrer, quando o Senhor o permitir, sem querermos sofrer por antecipação penas que Deus ainda não nos dá para suportarmos, e que tal­vez nunca nos imponha. Essas penas ima­ginárias, ou imprudentemente previstas de antemão, tornar-se-nos-ão tanto mais pesadas quanto as carregaremos sós, sem o socorro de Deus.

E, se essas cruzes se apresentarem por si mesmas, e sem que as procuremos, o sentimento que então deve elevar a alma a Deus deve ser o de lhe dizer com con­fiança e com amor: “Ó meu Deus, se per­mitirdes que essas cruzes me sobrevenham, espero que, segundo as Vossas promessas e pelos merecimentos de Jesus Cristo, me ajudareis a carregá-las”. Após esta curta oração, deve ela deixar cair essas imagina­ções perigosas, e aplicar-se aos deveres presentes que tem a cumprir; a se mor­tificar nas ocasiões que se apresentarem, e a dar, por essa fidelidade, provas do seu amor bem mais seguras e mais úteis.

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