segunda-feira, 17 de outubro de 2016

LIÇÕES DADAS PELAS ALMAS DO PURGATÓRIO


I. Horror ao pecado

Que boas lições, diz o Padre Faber, podemos retirar da meditação do Purgatório! A primeira, a que domina todas as ou traz, é o amor da pureza, em geral, e como consequência, o temor de ofender a Deus, a fuga das ocasiões do pecado, — o desejo de mortificar-se para expiar as próprias faltas, — o zelo em ganhar as indulgências.
Apenas desprende-se do corpo, a alma se encontra, sem poder explicar como se dá isto em face de Deus, a quem vê, a quem conhece... e sente-se naturalmente atraída a ele com uma violência que nada tem de comparável na terra... Mas, de repente, revela-se-lhe a pureza de Deus, — essa pureza que é alguma coisa de indizível em linguagem humana, e, conhecendo-se ainda maculada, embora levemente, concebe tal horror de seu estado e logo tal desejo de se purificar para se unir a Deus, que se precipita incontinente nas chamas do Purgatório onde espera a sua purificação. Assim entende Santa Catarina de Gênova, a qual acrescenta: «Se esta alma conhecesse outro Purgatório mais terrível, em que se purificasse mais depressa, aí é que ela se arrojaria na veemência de seu amor por Deus. Havia de preferir mil vezes cair no inferno a comparecer ante a Divina Majestade com a mais ligeira mancha.» E, no Purgatório, essa alma justa e amante deixa de olhar tudo o mais para fixar duas coisas: a pureza de Deus a quem ama, e a necessidade de se tornar digna dessa pureza. Entretanto, sofre, e sua dor é tanto mais viva quanto ela ignora completamente quando cessará o exílio que a tem longe de Deus! Diz ainda Santa Catarina: «É tão cruciante a pena, que a língua não pode exprimi-la, nem a inteligência conceber-lhe o rigor. Conquanto Deus em sua bondade me tenha permitido entrevê-la um instante, não a posso descrever... Todavia, se uma alma, que ainda não está purificada, fosse admitida à visão de Deus, sofreria dez vezes mais do que no Purgatório; porque não estaria em condições de acolher os efeitos dessa bondade extrema e misericordiosa justiça. » Não é verdade que tal doutrina nos faz temer a menor falta e amar cada vez mais a pureza? Roguemos às almas do Purgatório que nos alcancem o horror do pecado.


II. Reparar os pecados pela penitência


Santa Brígida viu, um dia, ante o Soberano Juiz, uma alma do Purgatório, que estava trêmula e confusa e a quem era intimada que declarasse publicamente os pecados que não tinham sido seguidos de penitência suficiente e que lhe haviam merecido a punição que sofria. A alma exclamava com uma voz que cortava o coração: Infeliz de mim, infeliz! — e em soluços, fazia a enumeração de tudo o que a manchava e prendia tão longe do Céu. Não reproduziremos essa visão, mas dela extrataremos a relação das principais faltas que, como vermes roedores, torturam uma pobre alma do Purgatório. «Perdi meu tempo, esse tempo bem precioso do qual todos os momentos podiam servir para expiar meus pecados, praticar uma virtude, merecer o Céu: eu o perdi em conversações fúteis, em ocupações banais e sem objeto, em leituras recreativas demasiado prolongadas; — é por isso que sofro! Esqueci por negligência minhas penitências sacramentais: as fiz mal por dissipação, e aceitei-as sem espírito de fé: — é por isso que sofro! Caí em murmurações contra meus superiores, meu confessor, meus parentes; murmurações leves, sem dúvida, mas partidas do amor próprio magoado, da falta de respeito, do ciúme; — é por isso que sofro! Consenti em pensamentos de vaidade a respeito do trajar, sobre os acessórios da casa, acerca de predicados de família; vesti-me com orgulho, segui as modas com ostentação, afetei um asseio exagerado; — é por isso que sofro.
Eu me proporcionei, sem nenhuma necessidade, pequenas sensualidades durante minhas refeições e fora delas, num viver voluptuoso e descuidado, num zelo excessivo do bem estar, no abuso do descanso corporal, na fuga de tudo que naturalmente modificaria os sentidos;— é por isso que sofro! Em conversação, atirei ditos espirituosos com o fim de ser elogiado, apreciado, distinguido, e para brilhar mais que os outros; — é por isso que sofro! Faltei à caridade que me chamava em socorro do próximo: faltei à caridade, deixando de o consolar, de o defender, de o aconselhar ao bem; conservando voluntariamente um pequeno pensamento de rancor, de inveja; — é por isso que sofro! Omiti por negligência e incúria muitas comunhões que me eram permitidas: fui remisso em minhas devoções, pouco aplicado em meu terço e na oração; — é por isso que sofro!» Meu Deus! como estas confissões me instruem!

III. Evitar também o pecado venial


Ainda uma lição só, uma das mais úteis para minha alma. É a queixa que se ouve de quase todas as almas do Purgatório, pois quase todas sofrem por não terem compreendido bastante o alcance do pecado venial. «Nós dizíamos na terra: É um simples pecado venial, e nos deixávamos levar por esse pendor de nosso coração, nos deixávamos ganhar por essa pequena satisfação dos sentidos. Mas, como se dissipou essa ilusão, quando, à hora da morte, vimos, na luz do Senhor, as lamentáveis consequências dessas faltas! Felizes, todavia, por não nos terem sido de mais terríveis consequências! Sim, esses pecados veniais podiam nos conduzir ao inferno. Os pecados veniais não condenam, é certo, mas, com inteligência, com malícia, em grande número e sem que se os apague com a devida penitência, conduzem pouco a pouco, por um declive insensível, mas resvaladiço, ao pecado mortal que condena. Conduzem a esse termo fatal pelo enfraquecimento progressivo de todas as forças vivas da alma: Pela diminuição do horror do mal; Pela excitação e desenvolvimento das paixões; Pela subtração de certas graças especiais de distinção;
Por mil caminhos a um tempo.
E quando a alma, neste estado, não se converte, muitas vezes só a morte, vindo-lhe ao encontro, pode livrá-la de rolar até o fundo do abismo: porém, oh! Deus nem sempre usa a misericórdia de enviar a morte bastante cedo para prevenir que o homem nessa voluntária cegueira consuma a sua desgraça! Deus nos fez esta graça: deu-nos a morte em hora oportuna; mas, terrível castigo o nosso! que dura expiação a que sofremos! A cada um dos nossos pecados veniais corresponde uma medida de penas. E, se Deus contou em nossa consciência milhares de pecados veniais, qual será o rigor e a duração das penas que ainda nos estão reservadas!
Considerai também, ó amigos que na terra vos interessais por nós, considerai que o Purgatório não é o castigo só dos pecados veniais, ainda subsistentes na hora da morte, mas o castigo de todos os pecados perdoados e não expiados.
Oh! vivei, pois, na justiça, na santidade no temor de Deus! Vós, que amais, evitai nossa triste sorte: sofrereis muito!»

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