quinta-feira, 13 de outubro de 2016

NÃO SE PODE VENCER SEM COMBATE; E NÃO HÁ COMBATE SEM ESFORÇO.


Facilmente convimos sobre a força dos motivos da Esperança cristã; mas por quantos pretextos não procura o demônio enfraquecê-los na aplicação que a alma desanimada faz deles a si mesma! Naturalmente preguiçoso, o homem teme o esforço. Desde que ele se dá a Deus, quereria fruir dá felicidade do seu estado sem que isso lhe custasse muito. Esquece-se de tu­do o que Jesus Cristo disse: Só os que se fazem violência é que arrebatam o céu. Não presta atenção a que Jesus Cristo não quis entrar na Sua glória senão pelos Seus sofrimentos (Lc 24, 26); que só con­duziu ao céu os Santos pelas cruzes, pelos combates, pelos sacrificios, pela renúncia às suas paixões, à sua vontade.


O Céu é uma recompensa: cumpre merecê-la pela preferência que damos a Deus, à sua vontade santa, sobre aquilo que temos de mais caro, desde que exige o sacrifício disso. É, pois, um princí­pio certo: e S. Paulo no-lo declara alto e bom som da parte do Senhor: Ninguém será coroado se não houver legitimamente combatido até o fim! Pretender a coroa da Justiça sem combate é raciocinar con­tra os princípios da Fé; esperar por combates sem penas é ir contra as luzes da razão.
Não ignoramos o que Deus exige; e é disto que o demônio tira pretexto para desanimar uma alma cristã, servindo-se da preguiça, tão natural ao homem, para desviá-lo do trabalho necessário à salva­ção. Não custa nada seguir os próprios pendores naturais: o que custa é reprimi- los. O inimigo do homem não tem difi­culdade em fazer degustar e seguir o pri­meiro partido.
Para isso, faz-lhe um quadro impressio­nante das dificuldades que ele achará no serviço de Deus, desse constrangimento contínuo em que será obrigado a viver, e sobretudo desses combates que incessante­mente terá de sustentar contra si mesmo. Ocultar-lhe-á com cuidado a paz do co­ração de que se goza quando se obedece a Deus, as sólidas consolações que ele achará nas suas penas pela esperança das recompensas: mostrar-lhe-á em toda a sua extensão a sua fraqueza, lembrar-lhe-á as suas quedas a despeito das suas resoluções, e não lhe deixará perceber a misericórdia de Deus e o braço todo-poderoso por cujo socorro ela sempre triunfou.

Eis aqui os progressos dessa disposição da alma. Compenetrada da sua fraqueza e das dificuldades da empresa, em vez de dizer com o santo rei David: Quando mesmo acampamentos inimigos se elevas­sem contra mim, eu não temeria, ó meu Deus, porque estais comigo, ela cai no abatimento. Este sentimento não lhe dei­xa ver senão fracamente o socorro do Céu; ela conta pouco com ele; quase não ousa pedi-lo; talvez mesmo receie obtê-lo, para não renunciar às suas inclinações, que ama. Nesse estado, não acreditan­do poder constranger-se constantemente pela oposição que encontra, ela nada ou quase nada ousa empreender para se ven­cer. A primeira queda confirma-a no seu modo de pensar, de que não poderá conseguir constranger-se, e de que é pre­ciso aguardar um tempo em que as suas paixões já não sejam tão vivas.

Dessarte, tudo se lhe torna difícil: o aborrecimento, e o espírito de independên­cia com relação aos seus deveres, apoderam-se-lhe da mente e do coração, e lhe tornam esses deveres extremamente pe­nosos. Os exercícios de piedade, ela os omite, ou se desobriga deles com tanta negligência, que eles não podem tornar-lhe favorável o seu Deus, a quem ela es­quece. A dissipação de espírito e de co­ração sucede ao espírito interior que a fazia agir; ela abandona o bem que pra­ticava; resiste às graças, aos remorsos: desvia-se dos bons pensamentos; já não segue senão as suas inclinações, os seus caprichos, o seu temperamento, nos quais não acha obstáculo. Apesar das inquieta­ções que, por misericórdia, Deus lhe pro­porciona nesse estado de preguiça e de ti­bieza produzido pelo desânimo, ela ainda gosta mais dele do que de se constranger por amor de Deus. É o ponto a que o inimigo da salvação queria conduziria: queria impedi-la de pensar, de trabalhar na sua salvação: consegue-o por essa via.

Estes detalhes, quiçá um pouco longos, far-vos-ão conhecer melhor o plano de ata­que do inimigo, e colocar-vos-ão melhor em estado de lhe opor um plano de defesa que lhe inutilize os esforços.

Compreendo que uma alma que encara todas as penas que podem encontrar-se no serviço de Deus, e que as encara to­das ao mesmo tempo, e por uma longa vida, possa ficar assustada com elas. Mas é assim que se tem de suportar as penas da vida cristã? Não; suportamo-las, combatemo-las a retalho; ora uma, ora outra, conforme as ocasiões. Se há umas que vol­tam com frequência à carga, outras há que só raramente se apresentam. Devemo-nos firmar contra as primeiras em parti­cular, e premunir-nos contra as outras pe­lo exercício frequente do amor de Deus. Seria mister incidir na pusilanimidade mais estranha, para não ousar resistir a um inimigo que ataca sozinho, e que mui­tas vezes só tem de força aquela que ele tira da nossa fraqueza. Acaso o temeis? então ele vos esmaga. Sob a proteção de Deus, a quem invocais, lhe resistis? en­tão ele não se aguenta muito tempo, foge, desaparece por longo tempo.

Nunca encareis como reunidos objetas que só separadamente se apresentam. Uma alma, em cada momento, só tem que responder pela ação que então pratica. Ocupar-se, nesse instante, com as penas que ela pode ter pelo tempo adiante, é atormentar-se com um futuro muito in­certo; é ir ao encontro da tentação, e da tentação mais desarrazoada; é armar ci­ladas a si mesma; não é ser tentada, é tentar-se a si mesma. É sempre contra a razão proporcionar-se antecipadamente, na sua imaginação, males que talvez nun­ca se tenha ocasião de experimentar. A cada dia basta a sua pena; é contra a Religião e contra a Prudência cristã ex­por-se a si mesmo à tentação.

Portanto, se uma alma se faz violência para agradar a Deus, na esperança da recompensa; se, a cada pena que experi­menta, só presta atenção a essa, para fa­zer dela um santo uso, suportá-las-á todas sucessivamente, e mais facilmente, e com maior mérito, pelo socorro do Senhor.

Uma alma religiosa acha repugnância no incômodo, no constrangimento que a obediência e a regularidade pedem. Se, neste sentimento, cuja força experimenta, ela encara esse constrangimento por toda a sua vida, ficará perturbada, desconcer­tada, desanimada. Se o encarar só por um dia, por um meio dia, ou mesmo para cada ação, à medida que esta se apresen­tar, já não o achará tão difícil de pra­ticar. Muitas vezes, é questão apenas de um momento, e toda a pena passa desde que a determinação é tomada.

Outra reflexão que deveis fazer é a de que muito nos enganamos se pensamos que a pena que achamos em nos constrangermos, para cumprirmos os nossos deveres e agradarmos a Deus, durará sem­pre com a mesma vivacidade e com a mes­ma impressão que sentimos no começo. A experiência, fundada mesmo em razões fí­sicas, ensina-nos que, à medida que prati­camos amiúde uma ação, ou que pelo socor­ro da graça nos acostumamos a agir por bons motivos, contraímos o hábito de assim fazer, e achamos nisso sempre mais facilidade. A pena diminui sempre mais, e afinal cessa quase inteiramente. Constran­jamo-nos durante algum tempo a fazer uma ação com fidelidade e com exatidão quanto ao tempo e ao lugar, e em breve fá-la-emos quase sem o percebermos, e o motivo de religião apresentar-se-á por si mesmo; de modo que essa facilidade se torna às vezes um motivo de aflição para certas almas que, sem propósito, imagi­nam não ter merecimento onde não têm dificuldade e onde já não acham motivo algum de sacrifício. Elas não prestam aten­ção a que ê o motivo sobrenatural, sob a influência da graça, que dá o mérito às nassas ações, e não simplesmente a pena que nelas achamos.

Aliás, a Religião nos ensina que o Se­nhor recompensa a fidelidade que pomos em nos constrangermos por Ele, e recompensa-a por graças que nos tornam não somente fáceis, porém doces, as penas que suportamos; ensina-nos que, ainda quan­do essas penas se fizessem sentir por mais tempo, Ele jamais permitirá que a prova­ção seja acima das nossas forças, auxi­liadas pela Sua graça, que Ele nos prome­teu, e que sempre podemos obter pela oração. Contai com essa promessa, visto que não pode ela ser falsa.


Nunca encareis a incerteza da perseve­rança sem pensardes nas promessas que Deus nos fez, quer quanto aos socorros, quer quanto às recompensas, e esta re­flexão bastará para vos tranquilizar e vos reanimar.
 Tratado do Desânimo 

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