terça-feira, 18 de outubro de 2016

QUERERÍAMOS QUE DEUS FIZESSE TU­DO EM NÓS, E NOS DESSE A VITÓRIA SEM QUE ISSO NOS CUSTASSE NENHUM ESFORÇO; ERRO PERNICIOSO, PRETEN­SÃO INJUSTA, CAUSA COMUM DO DESÂNIMO.

Dirá uma dessas almas que se queixam de não ser atendidas: Eu ficaria satisfei­ta se sentisse os efeitos dessa Providência misericordiosa: mas não vejo que Deus me torne mais fiel aos, meus deveres.
Para esclarecer esta dificuldade, consul­temos os princípios da Religião, que de­vem dirigir os nossos juízos; andemos à luz da Fé, que deve iluminar-nos; e ve­reis que, se não sois fiel aos vossos deveres, não é Deus que falta a vós, sois vós que faltais a Deus.
Consoante a Religião, Deus não faz sozinho o bem em nós. Ele vos criou sem vós, mas não quis salvar-vos sem vós. Quis que, pela escolha livre da vossa vontade, O preferísseis a tudo. Pôs, portanto, diante de vós o bem e o mal, a vida e a morte, e disse-vos: Tomai o que quiserdes. Para vos determinar ao bem, dá-vos mil luzes, que vos apresentam os motivos disto: o amor, a gratidão, a recompensa; excita em vós mil sentimentos que vos fazem amar esse bem, que vos afeiçoa a ele. Assim vos previne Ele por Suas graças: apresen­ta-vos o Seu socorro para vos ajudar na ação. Eis aí o que Deus vos prometeu e o que faz. Para corresponder a isso, bem longe de vos desviardes desses motivos, desses sentimentos (coisa que ordinariamente fazeis para não vos constrangerdes), deveis ocupar-vos deles, compene­trar-vos deles, aprofundá-los, e, dócil à voz do Espírito Santo, fazer-vos violência para seguir as Suas inspirações, visto que sem isso não se faz o bem nem se chega ao Céu.
Pergunto-vos: teríeis motivo de vos queixar de um amigo que vos tivesse dado os conselhos mais seguros para vos fazer evitar uma desgraça, se não houvésseis querido escutá-lo pelo fato de vos custar algum incômodo o segui-lo? e não se di­ria, com razão, que nesse caso a vossa perdição só vem de vós mesmo?

Eis aqui o que vemos todos os dias. Uma alma teme a pena que experimenta em combater as suas inclinações: pede a Deus ser livrada dela; mas com a condição de que Deus faça tudo, e de que isso nada custe a ela. Pretende ela o milagre ope­rado em S. Paulo. Ouvimo-la dizer: Se essa inclinação desagrada a Deus, por que então Ele não ma tira? Ele não é o se­nhor? Por que não susta os sentimentos do meu coração? Ele transformou outros de chofre. Enquanto aguarda esse mila­gre, ela nada faz para seguir a voz de Deus e para se tornar melhor. Compreen­deis que semelhante disposição não é pró­pria para atrair sobre essa alma as mise­ricórdias de Deus.

Quem quer servir a Deus sem fazer vio­lência a si mesmo contradiz a palavra de Jesus Cristo. Quem só quer servi-lO sob condição de um milagre, disparata, e não merece ser escutado.

Outras pessoas não incidem nessa ri­dícula presunção: o que as detém na prá­tica das virtudes é que elas ficam tão for­temente perturbadas com as suas penas, tão fortemente persuadidas de que, nesse estado, nada podem fazer de bem, que só pensam nisto: toda a sua ocupação inte­rior gira em torno disto. Absorta nessa pena, a sua alma não sabe pedir a Deus nenhuma outra coisa senão o ser livrada dela. Elas não ousam apegar-se às luzes e aos bons sentimentos que Deus lhes dá, porque, não achando neles essas graças que elas pretendem a todo custo, que elas pedem com obstinação, receiam ser iludidas. Tornam, assim, inúteis as graças que recebem, ou pela sua desatenção ou pela sua resistência. Se aproveitassem delas, embora elas não sejam o objeto das suas preces, em breve alcançariam o que de­sejam, e o que não podem lisonjear-se de obter enquanto resistirem a Deus.

Estudemos os desígnios da providência de Deus e a economia das Suas graças, e veremos claramente a armadilha em que a tentação faz cair essas almas a quem o erro, junto à infidelidade, faz incidir no desânimo.

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