domingo, 12 de fevereiro de 2017

IV Consideração, Certeza da morte - PONTO I


Certeza da morte Statutum est hominibus semel mori.
 Foi estabelecido aos homens morrer uma só vez 
(Hb 9,27)

  A sentença de morte foi escrita para todo o gênero humano: É homem, deves morrer. Dizia Santo Agostinho: “Só a morte é certa; os demais bens e males nossos são incertos”. É incerto se o recémnascido será rico ou pobre, se terá boa ou má saúde, se morrerá moço ou velho. Tudo isto é incerto, mas é indubitavelmente certo que deve morrer.

  Magnatas e reis também serão ceifados pela morte, a cujo poder não há força que resista. Resistese ao fogo, à água, ao ferro, ao poder dos príncipes, mas não se pode resistir à morte1. Conta Vicente de Beauvais que um rei da França, achando-se no termo da vida, exclamava: “Com todo o meu poder, não posso conseguir que a morte espere mais uma hora!” Quando chega esse momento, não podemos retardá-lo nem por um instante sequer.  
  Por muitos anos, querido leitor, que ainda tenhas de viver, há de chegar um dia, e nesse dia uma hora, que te será a última. Tanto para mim, que escrevo, como para ti, que lês este livro, está decretado o dia, o instante, em que nem eu poderei mais escrever nem tu ler. “Quem é o homem que viverá e não verá a morte?” (Sl 89,49). Está proferida a sentença. Nunca existiu homem tão néscio que se julgasse isento da morte. O que sucedeu a teus antepassados, também sucederá a ti. De quantas pessoas, que, no princípio do século passado, viviam em tua pátria, nenhuma existe com vida. Até os príncipes e monarcas deixarão este mundo. Não subsistirá deles mais que um mausoléu de mármore com inscrição pomposa que somente serve para nos patentear que dos grandes deste mundo só resta um pouco de pó resguardado por aquelas lajes. São Bernardo pergunta: “Dize-me: onde estão os amadores do mundo? E responde: Nada deles resta, senão cinzas e vermes”.
  É mistér, portanto, que não procuremos essa fortuna perecedora, mas a que não tem fim, já que nossas almas são imortais. De que te serviria ser feliz neste mundo, — ainda que a verdadeira felicidade não se pode encontrar numa alma que vive afastada de Deus — se depois tens de ser desgraçado eternamente? Já tens preparado tua casa a teu gosto, mas reflete que cedo terás de deixá-la para ir apodrecer numa cova. Talvez alcançaste uma dignidade que te torna superior aos outros, mas a morte virá e te igualará aos mais vis plebeus deste mundo.

AFETOS E SÚPLICAS

  Infeliz de mim, que durante tantos anos só pensei em ofender-vos, ó Deus de minha alma! Passaram-se já esses anos; a minha morte talvez esteja próxima, e não acho em mim senão remorso e arrependimento.
  Ah, Senhor, tivesse eu sempre vos servido! Quão insensato fui! Em tantos anos de vida, não adquiri méritos para a outra vida, mas, ao contrário, me endividei para com a justiça divina! Meu amado Redentor, dai-me agora luz e ânimo para acertar minhas contas. Talvez a morte não esteja longe; quero preparar-me para esse momento decisivo da minha felicidade ou da minha desgraça eterna. Mil graças dou-vos por terdes esperado até agora por mim. Já que me haveis dado tempo para remediar o mal cometido, aqui estou, meu Deus, dizei-me o que desejais que faça por vós. Quereis que me arrependa das ofensas que vos fiz? Arrependo-me delas e as detesto de toda a minha alma. Quereis que empregue em amar-vos os anos e os dias que me restam de vida? Pois bem, assim o farei, Senhor. Ó meu Deus, já no passado mais de uma vez formei esta mesma resolução, mas minhas promessas se converteram depois em outros tantos atos de infidelidade. Não, meu Jesus, não quero mostrar-me ingrato a tantos benefícios que me dispensastes. Se agora, pelo menos, não mudar de vida, como é que na hora da morte poderei esperar perdão e alcançar a glória? Tomo, pois, nesta hora, a firme resolução de dedicar-me verdadeiramente ao vosso serviço. Mas vós, Senhor, ajudai-me e não me abandoneis. Já que não me abandonastes quando vos ofendi, espero com maior confiança vosso socorro agora que estou resolvido a sacrificar tudo para vos agradar.
  Permitir que vos ame, ó Deus digno de infinito amor! Recebei o traidor que, arrependido, se prostra a vossos pés e vos pede misericórdia. Amo-vos, meu Jesus, de todo o meu coração e mais que a mim mesmo. Sou vosso; disponde de mim e de tudo que me pertence, como vos aprouver.
  Concedei-me a perseverança em vos obedecer; dai-me vosso amor, e fazei de mim o que quiserdes.
  Maria, mãe, refúgio e esperança minha, a vós me recomendo; a vós entrego minha alma; rogai a Jesus por mim.
  
    

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