quarta-feira, 3 de maio de 2017

A JACINTA FOI SEMPRE TÃO MANSINHA!...


De carácter sensivelmente diverso do carácter do irmão, é a Jacinta, embora se lhe assemelhe muito no aspecto exterior. Como o Francisco, tinha o rosto redondo e feições duma regularidade perfeita; boca pequena, lábios finos, mento breve, corpinho bem proporcionado.
Não era, contudo, tão cheia como o Francisco - diz-nos a mãe. - O Francisco era mais bojudo. Tinha os olhos clarinhos, mais vivos que os meus quando era nova - continua a ti Olímpia, que todavia ainda conserva uma vivacidade de olhar invulgar na sua idade. Andava sempre com o cabelo direitinho; todos os dias eu a penteava e sempre a trazia bem catada.

Um casaquinho claro, uma saia de chita escura, uns sapatinhos - que eu sempre pude trazer os meus filhos calçados - era o seu trajar».
Este, o exterior da Jacinta; o interior era, sem comparação, muito melhor.
Possuía uma alma extraordinariamente sensível, como poderemos verificar em seguida.
«Ainda de cinco anos, mais ou menos, ao ouvir narrar os sofrimentos do Nosso Divino Redentor - diz-nos a Lúcia - enternecia-se c chorava. - Coitadinho de Nosso Senhor - repetia - eu não hei-de fazer nunca nenhum pecado; não quero que Jesus sofra mais».
As palavras feias eram pecado e faziam sofrer o Menino Jesus? A Jacinta fugirá então daquelas companhias entre as quais haveria perigo de contrair hábito tão mau.
 A amizade que a unia à sua prima Lúcia era uma amizade que raras vezes se encontra entre crianças; nenhum dos sentimentos peculiares às amizades infantis, como a emulação e a inveja, a enlaivava.
A amizade que a unia à sua prima Lúcia era uma amizade que raras vezes se encontra entre crianças; nenhum dos sentimentos peculiares às amizades infantis, como a emulação e a inveja, a enlaivava.
 Só lhe sabia bem quando brincava com a Lúcia e o dia que passasse longe dela era dia de tristeza, um dia perdido. Jacinta queria-a toda e exclusivamente para si, de maneira que quando a Lúcia, encarregada da vigilância dos pequenos que as mães entregavam às suas irmãs, não podia retirar-se com ela e com o Francisco para junto do poço a brincar sozinhos, a Jacinta só com pesar se resignava a tomar parte nas brincadeiras.
Tão profundamente o coraçãozito da Jacinta estava preso à Lúcia que, sendo esta já mulherzinha - e na serra aos dez anos as pequenas já sabem tratar da vida - e tendo de deixar os folguedos para ganhar o pão pastoreando, a Jacinta não conseguiu conformar-se com tal ideia e tanto fez que a mãe, por fim, acabou por lhe entregar também umas ovelhitas para lhe proporcionar a alegria de passar os dias na companhia da sua tema amiguinha.
Este afecto era, às vezes, exteriorizado pela Jacinta, em manifestações duma delicadeza verdadeiramente encantadora
«Desde que um dia - conta a Lúcia - fora com a mãe a uma festa de comunhão solene e os seus olhitos se tinham fixado nos anjinhos que deitavam flores a Jesus, de vez em quando afastava-se de nós, quando brincávamos, colhia uma arregaçada de flores e vinha atirar-me com elas.
ar-me com elas.
 - Jacinta, por que fazes isto? - perguntava-lhe.
- Faço como os anjinhos, deito-te flores>> .
«Foi sempre muito mansinha - refere o pai. - Neste jeito era uma coisa muito admirável. Ainda de peito estava sempre por tudo. Se tinha fome, dava sinal choramingando um bocadito e, depois, não dava mais trabalho. A gente ia a esta ou aquela banda, à Missa, etc. e tal, e ela não se ralava; nem era preciso estar com maneiras para ela ficar descansada. Não se incomodava com nada. Do jeito dela não criamos mais nenhum. Era um dom natural».
Uma qualidade que a caracterizava, era o amor à verdade. Diz o pai:
«Quando a mãe a enganava, dizendo, por exemplo, que ia às couves e ia para mais longe, a Jacinta não deixava de lhe dar a sua piadazita: Então a mãe mentiu-me? Disse que ia aqui e foi para acolá? ... Isso de mentir é feio!
Quanto a mim, nunca os enganei».
A sua sinceridade levava-a a acusar-se prontamente:
«Estava um dia jogando às prendas na casa de fora - conta a Maria dos Anjos - com a prima e outras crianças; deram-lhe por sentença dar um beijo no meu irmão Manuel que estava a escrever sentado à mesa. A Jacinta protestou: -A ele, não! Se quiserem, vou antes beijar aquele Pai do Céu.
Tendo os outros concordado, tirou o Crucifixo da parede e a Jacinta deu-lhe todos os beijos que quis. Quando eu entrei vejo o Crucifixo no chão e as crianças em volta dele, e zanguei-me: - Vocês nunca deixam ficar nada nos seus lugares! Vão já brincar lá para fora!
E a Jacinta logo se acusou: - Fui eu, mas já não lhe mexo mais)) .
Como o seu irmão Francisco e talvez mais do que ele, a Jacinta possuía uma alma requintada, cheia de finíssimos sentimentos. Amava as ovelhas e designava a cada uma delas pelo seu nome. Havia a pomba, a estrela, a mansa, a branquinha - os nomes mais lindos do seu vocabulário. Os cordeiritos brancos eram o seu enlevo.
«Sentava-se com eles ao colo - diz a Lúcia - abraçava-os, beijava-os e, à noite, trazia-os ao colo para casa, para que não se cansassem e para fazer como o Bom Pastor que ela tinha visto numa pequena estampa que lhe tinha sido oferecida».
Amava as flores. À beira da sua casa havia apenas uma grande margaceira, cujas flores brancas muito apreciava; mas na serra que fartura, que riqueza, especialmente na Primavera! Colhia-as, enfeitava-se com elas e tecia grinaldas para enfeitar a prima. Era um alvoroço quando descobria as primeiras rosas albardeiras. A flor aberta apresenta uma espécie de crista e ela então, alviçareira, corria a clamar:
Adivinha, adivinha Quantos galos tem a minha galinha!
Amava as candeias dos Anjos - as estrelas - e desafiava a prima e o irmão a que contassem maior número do que ela. Amava o sol que doira a serra com os seus raios esplendorosos; amava a lua, a lâmpada de Nossa Senhora, mais que o sol, porque não faz mal ao olhar; e quando a lua era cheia corria a dar a boa nova: - Mãe, lá vem a madrinha do Céu !
Amava os montes e tudo o que de belo criou o divino Artífice. Dotada duma feliz capacidade musical, amava o canto e, nas longas horas que passava a pastorear o gado, enchia da sua linda voz a soledade absoluta da serra. Sentada no alto das colinas, ou sobre algum penedo, não se fartava de ouvir o eco da sua voz no fundo dos vales.
«Ü nome que melhor ecoava - diz a Lúcia - era o de Maria, e a Jacinta dizia às vezes a Ave-Maria inteira, repetindo a palavra seguinte só quando a precedente tinha acabado de ecoar».
 Entoavam-se os lindos cantos da Igreja, que a Jacinta sempre preferia:
Era:
Salve, Nobre Padroeira
Do povo, teu protegido!
Entre todos escolhido
Para povo do Senhor.  

Ó glória da nossa terra 
Que tens salvado mil vezes! 
Enquanto houver portugueses, 
Tu serás o seu amor!

E o eco sonoro, extenso, quebrava a mudez da serra e repetia: - O seu amor!
Cantava-se: 

Ó Anjos, cantai comigo, 
Ó Anjos, louvai sem fim; 
Dar graças eu não consigo, 
Ó Anjos, dai-as por mim.   

Ó Jesus, que amor tão terno! 
Ó Jesus, que amor é o teu? 
Deixas o trono superno, 
Vens fazer da terra o Céu!
E uma voz misteriosa, singular, que parecia sair das entranhas da terra, clamava:
- Da terra o Céu! 
A Jacinta tinha uma verdadeira paixão pela dança. De si própria e da sua prima, a Lúcia não tem vergonha de confessar:
«Éramos, no entanto, bastante afeiçoadas ao baile e qualquer instrumento que ouvíssemos tocar aos outros pastores, era o bastante para nos pormos a dançar; a Jacinta, apesar de ser tão pequena, tinha para isso uma arte especial».
Este gosto exagerado pelo baile já nos diz que a Jacinta, como de resto o Francisco e a Lúcia, não era um Anjo descido do Céu, revestido exclusivamente daquelas virtudes que são apanágio dos moradores do Paraíso. A Jacinta era uma criaturinha deste mundo, com muitos dos defeitos próprios dos miseráveis descendentes de Adão. 
Recorremos à descrição que dela fez a Lúcia, apontando os defeitos que chegavam a tornar a sua companheira pouco simpática, às vezes, mesmo desagradável. 
«A menor contenda das que se levantam entre crianças, quando jogam, era bastante para a fazer ficar amuada a um canto, a prender o burrinho, como nós dizíamos. Para a fazer voltar a ocupar o seu lugar na brincadeira, não bastavam as mais doces carícias que, em tais ocasiões, as crianças sabem fazer. Era preciso deixá-la escolher o jogo e o par com quem queria jogar». 
Era também um poucochinho agarrada, o que se notava no jogo do botão. 
«Com este vi-me também - continua sempre a Lúcia - não poucas vezes, em grandes aflições, porque, quando nos chamavam para comer, encontrava-me sem botões na roupa. Por ordinário, ela tinha-nos ganhado e isto era o bastante que a minha mãe me ralhasse. Era preciso pregá-los à pressa. E como conseguir que ela mos desse se, além do defeito de se amuar, tinha o de ser agarrada? Queria guardá-los para o jogo seguinte, para não ter de arrancar os dela? Só ameaçando-a de que não voltava a brincar com ela, é que o conseguia». 
Gostava da reza, mas ainda mais da brincadeira.
«Tinham-nos recomendado que, depois da merenda, rezássemos o terço; mas, como todo o tempo nos parecia pouco para brincar, arranjámos uma boa maneira de acabar depressa: passávamos as contas, dizendo só «Ave-Maria, Ave-Maria», quando chegávamos ao fim do mistério, dizíamos com muita pausa as palavras «Padre-Nosso». E assim, num abrir e fechar de olhos, tínhamos o nosso terço rezado)) . 
Eis os três pastorinhos na vigília dos grandes acontecimentos, com as suas boas qualidades e os seus defeitos. 
Nossa Senhora servir-se-á deles para confiar a sua celeste Mensagem ao mundo; poderia servir-se de outros. A graça de Deus transformará estes serranitos rústicos, ignorantes, mas duma singeleza e simplicidade angélicas, em verdadeiros apaixonados pela Cruz e em amantes heróicos do Redentor Divino e da Sua Mãe Puríssima.   
  

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