terça-feira, 2 de maio de 2017

O FRANCISCO ... TERIA SIDO UM HOMEM




O Francisco e a Jacinta, primos da Lúcia, eram, como já dissemos, filhos do Sr. Manuel Pedro Marta e do Sr.a Olímpia de Jesus Santos.
 Era respectivamente sexto e sétimo filhos dele e oitavo e novo dela, que contraíra segundas núpcias, falecido o seu primeiro marido, José Fernandes Rosa. 
O Francisco nascera em 11 de Junho de 1908 e a Jacinta em 11 de Março de 1910. 
«Sete meses depois do nascimento da pequena - comenta o Sr. Marta - veio a República a Portugal, e depois doutra conta de sete - sete anos - apareceu cá Nossa Senhora>>
 O rapazito não apresentava aquelas características de serrano rude, de feições trigueiras que notámos na sua prima, a Lúcia. Tinha curinha redonda, bochechuda, um tanto morena, boca pequena, lábios breves, menta polpudo. Na cor dos olhos, saía mais para a mãe. 

 «Mas também eu - diz o Sr. Marta -, quando fui para a vida militar, lá me escreveram na caderneta, olhos e cabelos castanhos. Os cabelos eram loiros e macios. Lembro-me também que quando andava na tropa os barbeiros me diziam: - Ó rapaz, isto é que é um cabelo l' uma barba bons de fazer!  
 O Francisco era muito meiguinho. Tinha boa saúde e era robusto. Futurámo-lo por isso a ser enérgico, forte e resoluto - acrescenta o pai com certo ar de complacência».
 E a Sr.a Olímpia: - «Pena que tenha morrido. Teria sido um homem. Quando foi a pneumónica que o levou, em que cá a casa estava transformada num hospital, o Francisco nunca deu fezes para tomar os remédios, fosse lá o que fosse. Até futurámos que ele saísse bem da doença».
 «E bem saiu ele - comenta o Sr. Marto - Nosso Senhor levou-o para o Céu>>.
A Lúcia acrescenta que, ao contrário da Jacinta, às vezes caprichosa e vivaz, ele era duma natureza pacífica e condescendente.
 Como todas as crianças deste mundo, o Francisco gostava de brincadeiras; quando todavia nos jogos e outros divertimentos algum teimava em negar-lhe os direitos, cedia sem resistir, limitando-se a dizer: 
- «Julgas que foste tu que ganhaste? Pois seja! A mim pouco se me dá!>>. 
Se algum maroto se aproveitava para lhe tirar alguma coisa, dizia:  
- «Deixá-lo lá; pouco me ralo>>.
 Todos os anos, a madrinha Teresa ia à praia e, voltando, trazia sempre prendas para os afilhados que mal ela chegava se apressavam interesseiramente a visitá-Ia. 
Em certa ocasião a prenda para o Francisco foi um lencinho com a imagem de Nossa Senhora da  Nazaré, que ele, todo satisfeito, foi mostrar aos companheiros. 
 Ora o Iencinho, a certa altura, desapareceu.  
- «Tinha muita estima nele - diz a mãe - e falava nisso vezes sem conta>>.
Quando, todavia, lhe disseram que o lenço estava em poder de outro pequeno que teimava que era dele, não fez força para o readquirir:
- «Que fique com ele! A mim não me importa o lenço». 
Sempre com rosto alegre, Francisco era amável e transigente com todos. A Lúcia, essa então, exercia sobre ele uma autoridade incontestável. Ela própria no-lo descreve: 
«Brincava indistintamente com qualquer um. Não questionava com ninguém. Só algumas vezes se retirava do jogo, quando via alguma coisa que não lhe agradava. Se lhe perguntavam porque se ia embora, respondia: - Porque vocês não são bons. - Ou, então, simplesmente: - porque não quero brincar mais. 
Nos jogos, embora pusesse grande interesse, poucos pequenos gostavam de brincar com ele, porque quase sempre perdia. 
Eu mesmo - continua a Lúcia - simpatizava pouco com ele porque o seu temperamento pacífico excitava até os nervos da minha excessiva vivacidade. Às vezes, pegava-lhe num braço e fazia-o sentar no chão ou sobre uma pedra e ordenava-lhe que estivesse quieto; e ele obedecia como se eu tivesse uma grande autoridade. Depois pesava-me de ter feito isso e ia buscá-lo e, tomando-o pela mão, trazia-o comigo com a mesma boa disposição como se nada tivesse acontecido». 
Isso não quer dizer que Francisco fosse um rapaz sem energia e fraco de vontade. Pelo contrário. O pai afirma que, às vezes, o Francisco rabujava com os irmãos mais do que a Jacinta. 
«Era mais bravo, mais desinquieto que a irmãzita. Por qualquer coisa não estava com tanta paciência, por qualquer coisa era uma mexida, que até parecia um bezerro. 
Não era nada medroso. Ia de noite sozinho a qualquer sítio escuro sem mostrar receio ou sequer contrariedade. Brincava com os lagartos e as cobras que encontrava; fazia-os enrolar em volta do seu pau e dava-lhes a beber nos buracos das pedras o leite das ovelhas. Andava à cata das lebres, raposas e toupeiras». 
«Corria muito atrás das salgardichas (sardaniscas) - acrescenta a mãe - e trazia-as para casa. Eu metia-lhe medo. Mas isso sim ... Ele era muito atrevido!>>. 
Com os irmãos gostava, também, de mangar; o pai lembra-se de uma partida que certa noite ele queria fazer ao João que estava a dormir à lareira com a boca aberta. 
«Aquele maroto levanta-se, sorrateiro, pega num cavaquito e se eu não lhe agarro o braço, ia metê-lo na boca do irmão. 
Às vezes, ralhavam entre si: mas eu saltava-lhes logo em cima. Que isto urna pessoa tem de dar ordem à vida em mais que um sentido: não é só plantar couves e semear batatas)). 
Na verdade, o ti Marto não se contentava de criar os filhos, queria dar-lhes urna boa educação; e, no seu entender, para esse fim, não faz falta a leitura e a escrita. Educava-os com seriedade, dir-se­ -ia até que com certo rigor. Ele mesmo nos diz que os vizinhos e conhecidos o notavam. 
«Nesta casa sempre há sossego, diziam. E era um rancho de oito. 
É que eu queria as coisas direitas. Aconteceu urna vez que entrou em casa urna pessoa para tratar de qualquer assunto. E os pequenos a estorvar e a fazer bulha. Eu aguentei-me sem ralhar; mas logo que o tal fulano saiu, virei-me para eles e, muito sério, de dedo no ar, disse-lhes: - Se isto acontecer outra vez ... vejam lá corno isto há-de ser!...
Bastou para eles sossegarem.
Daí por diante, quando vinha alguém estranho cá a casa, prantavam-se logo na rua. Se um olhar não bastava, eram lampadadas que seguiam, mas só rarissimamente e quando era preciso. Porque, por um burro dar um coice, não se lhe corta logo a perna.
Com o Francisco ia isso acontecendo urna vez e foi urna noite em que se não resolvia a rezar. Levanto-me e vou até à casa de fora para onde ele se tinha safado. Quando me viu aproximar do pé dele, no jeito de lhe chegar, gritou logo: - Ai, meu rico pai! E resolveu­ -se logo de caminho à reza. Isso foi antes de Nossa Senhora aparecer; que, depois, nunca faltava; antes, eram eles (o Francisco e a Jacinta) a puxarem a gente para irem ao terço
Esta e a da cavaquita foram as duas ações mais ruins que eu presenciei em todo o tempo da sua vida>>.
Os pais nunca tiveram motivo sério de se queixarem dele. A obediência do Francisco era modelar. Neste ponto o Sr. Marta, de resto, não transigia.   
  «Lembro-me duma vez estar com um fulano e ele mandar o filho a fazer qualquer uma coisa e o rapaz a teimar em não ir. Eu não sei o que sentia bulir cá por dentro; até que não me pude conter e: - Mude-se! gritei ao garoto, todo arrenegado. E ele lá vai a correr como um foguete!».
Os filhos e as filhas eram muito amigos entre si. E ai se assim não fosse!
«Se eu tivesse visto - continua sempre o ti Marto - as coisas baralhadas ... visse eu o caso mal parado, não lhes faltaria com o correctivo: Chegava-lhes!. .. E quando dois bulhavam e não sabiam onde estava a razão, sem mais nada, apanhavam ambos uma bofetadica que se consolavam. 
Para educar esta malta - conclui solene - é preciso ser um bocado rijo>>. 
Mas voltemos em particular ao nosso Francisco. Da delicadeza da sua consciência e rectidão do modo como fora educado, colhemos, entre outras, esta prova: 
«Uma manhã - conta-nos a Sr.a Olímpia - ia ele a sair com o gado e eu digo-lhe assim: - Vai hoje para o Oiteirinho da madrinha Teresa, que ela não esta cá, foi à Aldeia. 
E logo a responder: - Ah, isso e que eu não faço! Não tive mão em mim que não lhe chegasse uma bofetada. Mas ele não se acobardou. Voltou-se para mim e assim a modo muito sério, sai-se com esta: - Então, é a minha mãe que me está a ensinar a roubar? 
Parece que até ceguei, agarrei-o por um braço e pu-lo a andar. Mas espera que ele já foi para o Oiteiro!. .. Só no dia seguinte, e depois de ter pedido licença à madrinha que lhe disse que podia ir para lá quantas vezes quisesse e mais a Lúcia. Era muito jeitozico. Aquelas coisicas que eu lhe dava a fazer, fazia-as duma maneira que até me admirava». 
Tinha um carácter cristalino que não sabia fingir. 
«Nunca tive fé de os dois (e os dois são sempre Francisco e Jacinta) andarem em embrulhices. A Jacinta até era capaz de repreender qualquer pessoa que não dissesse a verdade, nem que fosse a mãe. Já os outros irmãos - diz o ti Marto - não eram tão escrupulosos>>.
O serranito era também um poucochinho poeta. 
Amava a música e com o seu pífaro de cana passava horas e horas sentado numa pedra, a maior parte do tempo, acompanhando a Lúcia e a Jacinta que cantavam e dançavam. Gostava de imitar o gorgear dos passaritos; não podia suportar que os tirassem dos ninhos. Narra a Lúcia que certo dia o Francisco viu um seu companheiro com um passarinho na mão. Compadecido, pediu-lhe que o soltasse. E como o outro se recusasse, ofereceu-lhe um vintém para que ele lho entregasse. Estão deixou-o voar, dizendo: - «Toma cuidado, não te deixes apanhar outra vez!)). 
  Como a Jacinta, Francisco era apaixonado por flores.
Uma das suas características é todavia um certo Jeito contemplativo, herança do pai, o pensativo, o sonhador ti Marto, que, de caminho ou de volta dos trabalhos, que os setenta anos ainda lhe consentem, deambulando pela serra ou pela estrada, não se deixa absorver por alheios pensamentos, mas caminha com os olhos baixos como se fosse ruminando algum ponto de meditação.
O Francisco tinha também uma alma particularmente aberta às belezas espalhadas pelas mãos do Criador na serra. Não acabava de se admirar diante do céu imenso e das estrelas - lâmpadas que Nossa Senhora e os Anjos acendiam para afugentar as sombras da noite. 
Maravilhava-o o Sol que via surgir por detrás do cabeço da Ortiga, das bandas do Montelo, e ficava tempos infinitos na sua contemplação, sobretudo à tarde, quando parecia morrer num fantástico mar de sangue por detrás do Cabeço. 
«Nenhuma lâmpada é tão bonita - dizia - como a de Nosso Senhor».
Os raios do sol através das vidraças encantavam-no. As gotinhas de orvalho irisadas pelo sol eram para ele preciosas como gemas, lindas como estrelas . 

   Era uma Senhora mais Brilhante que o Sol
Pe. João M. de Marchi, I.M.C

Nenhum comentário:

Postar um comentário