terça-feira, 18 de abril de 2017

As fontes das dores da Santa Virgem

 
Podemos agora nos ocupar de nossa terceira questão. Quais seriam as fontes das dores da Santa Virgem? Por fontes não entendemos exatamente o mesmo que causas, mas sim os motivos íntimos de sensibilidade que se encontravam em Seu Coração e que conferiram às Suas dores aquela amargura distintiva. Quando uma mãe perde seu filho único, essa perda é para ela assaz amarga, e deve sua distinção e intensidade à circunstância de encontrar sentimentos especiais no coração materno. O menino é tão belo que sua perda parece impossível de suportar, ou então, ele promete tanto do ponto de vista intelectual e moral, ou ele morreu tão jovem, ou ainda, ele tinha alguma coisa que, humanamente falando, não lhe devia causar a morte, ou então esta se deu precisamente em um momento em que as circunstâncias a fazem mais sensível para a família do que seria em outro tempo; essas particularidades, que se poderiam multiplicar ao infinito, são como centros duma amargura particular, em torno dos quais a dor se ajunta, penetra, se estende, se dilata, se envenena, bem além da medida real da aflição. No entanto, todas essas coisas são para a mãe afligida as realidades mais cruéis, e que não se limitam a aumentar suas mágoas duma maneira imaginária ou puramente sentimental. E no que concerne à Santa Virgem, em consideração Àquele por quem Ela sofria, a aflição real jamais poderia ser além da medida. Pelo contrário, a dor humana, mesmo a dor de Maria, não poderia igualar a verdadeira causa do sofrimento nesse caso. Todavia também no Coração de Maria havia centros em torno dos quais Suas mágoas se concentravam, tornando-se ali mais penosas e produzindo dores bruscas e agudas mais violentas ainda. O que vamos agora considerar são esses centros, essas fontes especiais de amargura contínua; mas, ao mesmo tempo, não devemos nos esquecer que as perfeições do Coração de Maria ultrapassam a tal ponto a nossa inteligência, que certamente haverá várias dessas fontes de dores dilacerantes para Ela que nós não poderemos apreciar, que nós não poderemos sequer imaginar; não devemos nos esquecer que, ao atravessarmos esse país que nos é estranho, fica faltando ainda sondarmos as regiões situadas mais ao lá, regiões ainda desconhecidas, e cuja descoberta talvez constitua uma das numerosas ocupações plenas de delícias reservadas ao Céu.

domingo, 16 de abril de 2017

Por que Deus permitiu os sofrimentos de Maria


Podemos agora perguntar por que Deus permitiu os sofrimentos de Maria? Seria respeitoso entregar-nos a tal pesquisa? Todas as coisas feitas com amor são feitas respeitosamente. Se procuramos sabê-lo, não é por duvidarmos, ou por querermos que Deus nos preste conta de Seus atos, nem por pensarmos que temos o direito de sabê-lo. Mas nos informamos para adquirir novos conhecimentos e transformá-los em um novo amor. Pode ser que não haja uma só obra de Deus cujos motivos nos sejam conhecidos ou ao alcance de nossa inteligência, se Ele mesmo não se digna nos instruir. As obras que Deus realiza emanam de profundezas infinitas. A experiência, porém, nos demonstra que quanto mais conhecemos, mais amamos. É por isso que nos lançamos a investigar coisas que só o amor nos dá o direito e a coragem de aprofundar. Por que Deus permitiu os sofrimentos de Sua Mãe, duma Mãe que Ele amava duma maneira inexprimível, que era sem pecado, que não tinha nada a expiar pela penitência, e da qual as lágrimas não eram necessárias para a redenção do mundo, bastando para tanto o Preciosíssimo Sangue? As razões que vemos de imediato são estas que apresentaremos aqui. Primeiramente, o Seu amor por Ela. O amor pode fazer uma oferta melhor que o dom de si mesmo?

Cristo Venceu a morte corporal e a morte sobrenatural.


1. Cristo Venceu a morte corporal 

A morte natural é a separação da alma do corpo. Sem dúvida nós todos temos de morrer, porque todos somos filhos de Adão pecador: porém depois da morte de Cristo, a nossa morte é sem pavor; porém, depois da ressurreição de Cristo, é certíssima a nossa ressurreição.

A) Depois da morte de Cristo, a nossa morte é sem pavor. As dores da nossa agonia serão unidas as dores da agonia de Cristo, e torna-se-ão purificação da nossa alma. Os temores e as tristezas dos últimos dias serão unidos aos temores e as tristezas de Cristo, e acender-se-ão de uma serena esperança. 

B) Depois da ressurreição de Cristo, a nossa ressurreição é uma certeza. Nós também nos tornamos filhos de Deus; incorporados a Ele, que ressuscitou, nós também ressuscitaremos. 
 Dia virá em que não mais haverá túmulos neste mundo: "a vida devorará a morte, o Imortal tragará o mortal. Então, ó morte, onde estará a tua arrogância ? o teu dardo fatal onde estará? Agradecido seja Deus, que uma grande vitória nos dá por meio de Jesus Cristo Nosso Senhor". (I Cor., XV,54-57) .

sábado, 15 de abril de 2017

Domingo de Páscoa (Mc., XVI, 1-7)




 Não foi coisa fácil para Jesus o convencer seus próprios discípulos de que ELE, o morto, estava novamente vivo. Primeiramente, com seus olhos eles o tinham visto estertorar na cruz, depois tinham visto o horrível rasgão do peito nEle já cadáver. Enfim, com suas mãos haviam-no despregado, enxague e gélido, do lenho, e haviam-no composto na sepultura. Por isto não podiam mais julga-lo vivo: os mortos não tornam atrás.

CRISTO RESSUSCITOU VERDADEIRAMENTE, ALELUIA!


sexta-feira, 14 de abril de 2017

A descida do Senhor à mansão dos mortos


Que está acontecendo hoje? Um grande silêncio reina sobre a terra. Um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio, porque o Rei está dormindo; a terra estremeceu e ficou silenciosa, porque o Deus feito homem adormeceu e acordou os que dormiam há séculos. Deus morreu na carne e despertou a mansão dos mortos.
Ele vai antes de tudo à procura de Adão, nosso primeiro pai, a ovelha perdida. Faz questão de visitar os que estão mergulhados nas trevas e na sombra da morte. Deus e seu Filho vão ao encontro de Adão e Eva cativos, agora libertos dos sofrimentos.

Imensidade das dores da Santa Virgem


Quando pensamos nas maneiras de descrever, o melhor possível, as dores de Maria, chegamos à conclusão de que elas são, em realidade, indescritíveis. Não vemos mais do que a aparência exterior, e não mais do que os sinais através dos quais esta se manifesta. Aquele que olha para o vasto oceano Atlântico, vê uma quantidade imensa de água formando, de todas as partes, um branco horizonte; mas aquela vasta extensão de água não diz nada, nem da vida e formas variadas e numerosas de seres que ela abriga em seu seio; nem dos encantadores jardins marítimos, cheios de ervas das mais vivas cores, dos bosques de púrpura, das densas moitas dum verde dourado, das grutas cavadas dentro de fantásticas rochas e cobertas de árvores amarelas, semelhantes a palmeiras frondosas, banhadas pelas ondas azuis, nem das ervas brilhantes, malhadas, de grandeza próxima da das árvores, que formam ali como que um parque; nem das milhas e milhas de florestas tingidas de rosa, onde formiga a vida sob aspectos estranhos, magníficos e até inimagináveis. Assim também o oceano de dores que recobre as profundezas secretas do Coração Imaculado da Mãe de Deus. O que vemos já é capaz de nos estontear e, todavia, ainda é apenas a superfície. A que, portanto, recorreremos para expressar as dores da Santa Virgem? Santos homens hão tentado fazê-lo e, para tanto, chamaram-na de Corredentora do mundo; eles dizem que Suas dores misturam-se ao Preciosíssimo Sangue, constituindo com este um só e mesmo Sacrifício pelos pecados do mundo. Há uma verdade profunda e sólida oculta sob essas grandes palavras, e é preciso compreendê-las num sentido que lhes garanta seu caráter de verdade. Elas são a expressão duma devoção excelente, que se esforça por fornecer à fraqueza de nossa inteligência uma idéia verdadeira das grandezas de Maria. Elas são exatas, sem nenhum exagero, embora precisem ser enunciadas com prudência e explicadas bem. Examiná-las-emos no nono capítulo, avançando agora para a nossa meta por outra rota, mais conforme aos nossos hábitos e predileções. É que dada a altura do nosso assunto, preferimos ir devagar de preferência a correr e acabar embaraçando a vista das coisas por uma luz demasiado forte. Chegaremos, assim, ao nosso fim, duma maneira não apenas mais conforme a nossa fraqueza, como também mais própria a ganhar a confiança de nossos leitores.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Paixão de Nosso Senhor Jesus Cristo


Havia de ter um termo a criminosa indecisão de Pilatos. Repelindo para cima dos pontífices a responsabilidade do deicídio, o Procônsul lava as mãos do sangue inocente, sem que, todavia, da cerimônia ridícula e seu tanto hipócrita, lhe saísse a consciência mais purificada.

Em fim de contas, por criatura tão de somenos, não se perca a amizade de César - pensaria o Procônsul - e pois que tanto o exigem os pontífices, seja o réu crucificado. Ibis ad crucem.

Não sem um frêmito de terror, acostou-Se o Divino Mestre ao instrumento do suplício. Era a cruz resumido compêndio de sofrimento e de vergonha, mas Jesus a recebe com submissão e religioso respeito, acolhe-a com alegria, com amor até; quem sabe mesmo se a teria beijado com transportes, apertando-a contra o peito, como a um ente querido e longamente acariciado.

quarta-feira, 12 de abril de 2017

Quinta-feira Santa - Lava-pés e Instituição da Santa Eucaristia


"Sabendo que o Pai depositara em suas mãos todas as coisas,
começou a lavar os pés dos discípulos."
( Jo 13,3-5)

Ora, discorramos por todas as ações de Cristo neste mesmo dia, sem sair dele, e veremos como todas confirmam este parecer. Quando o amoroso Senhor deu princípio à primeira, que foi lavar os pés aos discípulos, nota e pondera o Evangelista que se deliberou o Divino Mestre a uma ação tão prodigiosa, considerando e advertindo que seu Padre lhe tinha posto tudo nas mãos: Sciens quia omnia dedit ei Pater in manus, coepit lavare pedes discipulorum (Sabendo que o Pai depositara em suas mãos todas as coisas, começou a lavar os pés dos discípulos - Jo 13,3-5).

Muitas outras vezes se faz menção no texto sagrado deste tudo dado a Cristo por seu Eterno Padre: Omnia mihi tradita sunt a Patre meo. Omnia quaecumque habet Pater, mea sunt. Omnia quae dedisti mihi, abs te sunt (Todas as coisas me foram entregues por meu Pai - Mt. 11,27 ; Todas quantas coisas tem o Pai são minhas - Jo 16,15; Todas as coisas que tu me deste vêm de ti - Jo 17,7)

sábado, 8 de abril de 2017

Domingo de Ramos - Glória, laus.



Vós sois o Rei de Israel,
ilustre descendente de David,
Rei bendito, que vindes em nome do Senhor.
Glória, louvor.

Quando a multidão, ao chegar ao cume do monte descobriu as brancas muralhas da cidade santa com os seus palácios magníficos e o seu vasto templo rodeado de muros de defesa, lançou aos ecos todos do vale os seus gritos de fé e amor: "Hosana! Hosana no mais alto dos Céus! Glória ao Filho de David! Bendito seja o que vem em nome do Senhor, para levantar o reino de David nosso pai!"

Não se podia reconhecer mais formalmente o Messias prometido a Abraão e cantado pelos profetas. E por isso os fariseus invejosos, que se tinham infiltrado no cortejo, exprobravam a Jesus os gritos, a seu ver sediciosos, dos seus partidários. Aquela ovação, feita ao seu inimigo, taxavam-na eles de provocação à revolta contra César. "Mestre, nós vos intimamos, diziam eles, com um despeito que não podiam dissimular, mandai já calar os vossos discípulos! - É inútil, respondeu o Salvador; porque, neste momento, se eles calassem, as próprias pedras clamariam."

Domingo de Ramos



Ecce rex tuus venit tibi mansuetus, sedens super asinam et pullum filium subiugalis – “Eis que o teu Rei aí vem a ti cheio de mansidão, montado sobre uma jumenta e um jumentinho, filho do que está sob o jugo” (Mat. 21, 5).

Sumário. Imaginemos ver Jesus na sua entrada triunfal em Jerusalém. O povo em júbilo lhe vai ao encontro, estende seus mantos na estrada e juncam-na de ramos de árvores. Ah! Quem teria dito então que o Senhor, acolhido agora com tão grande honra, dentro em poucos dias teria de passar ali como réu, condenado à morte? Mas é assim: O mundo muda num instante o Hosanna em Crucifige. E não obstante isso somos tão insensatos, que por um aplauso, por um nada nos expomos ao perigo de perdermos para sempre a alma, o paraíso de Deus.